Enfim, o Plano Nacional contra o crack.

Por Archimedes Marques

Há alguns anos atrás, quando o crack foi introduzido no Brasil, em especial em São Paulo, seu uso estava praticamente restrito a classe paupérrima da nossa sociedade devido ao seu baixo custo de venda, começando assim a sua trajetória inglória e mortal com os moradores de rua que eram viciados em álcool, maconha ou em cheirar cola e que assim viam naquela nova e poderosa droga mais barata e acessível, a pretensa solução para amenizar os seus problemas sociais.

Na época as autoridades constituídas viviam as ilusões de que esse subproduto da cocaína não sairia do consumo dos mendigos, dos pobres, dos desafortunados e dos desgraçados, por isso pouco se importavam com a problemática, contudo, o seu consumo rompeu esse quadrilátero, conquistou as demais classes sociais, expandindo-se rapidamente, virando uma epidemia nacional e aí, diante do clamor público, o Estado passou a correr atrás do prejuízo, embora de maneira tímida.

O crack saiu arrastando multidões em todos os lugares, fazendo vítimas e mais vitimas em todo canto do País, aumentando a geometricamente a violência aonde se instalou. Nos últimos cinco anos o número de usuários dessa droga em todo o país quase dobrou, passando de 380 mil para 610 mil, apesar das mortes constantes advindas do crack e pelo crack, pois se assim não fosse, por certo já teríamos ultrapassado a casa de um milhão de viciados, devido a sua rápida proliferação e difícil recuperação curativa.

As crackolandias passaram a ser realidade triste e deprimente em vários lugares do Brasil. Em diversas reportagens sentimos até com certo temor e angústia aquele comércio e uso do crack a céu aberto se proliferar sem solução.

A crackolandia paulistana, em especial, mostra para o mundo a sua superioridade negativa superando todas as outras do Brasil, nunca houve tantos usuários zumbis e pequenos traficantes por lá. Técnicos a serviço da prefeitura local estimam que algo como 3 mil a 5 mil pessoas do grupo perambulem dia e noite naquele polígono de 181 mil metros quadrados, bem no centro velho da capital.

Cenário de uma cidade bombardeada, a Crackolandia paulistana de hoje é um território com quarteirões e mais quarteirões, demolidos em 2008 para dar lugar a um projeto de revitalização urbana que nem começou a se materializar. Seus habitantes são meninos e meninas, por vezes grávidas, além dos adultos, dentre os quais deficientes físicos, que envelheceram, apodreceram e se transformaram em lixo humano principalmente pelo uso do crack.

Existe também uma crackolandia em Brasília, a menos de dois quilômetros do Congresso Nacional, assim como tantas outras no Rio de Janeiro e nos grandes centros do país. Uma vergonha nacional que Policia nenhuma dá jeito, pois quando chegam os policiais logo todos dispensam as drogas no meio do lixo existente por toda parte para recolhê-las posteriormente quando das suas saídas.

Correndo contra o tempo o Ministério da Saúde lançou um remédio paliativo, um Programa emergencial infrutífero em junho de 2009 colocando em prática investimentos na ordem de 118 milhões de reais até o fim de 2010, entretanto, agora, de forma mais abrangente o Governo Federal, lançou um Plano mais condizente na tentativa de conter o avanço do crack e as suas conseqüências nefastas.

Depois das muitas alertas colocadas pela imprensa nacional, com matérias e mais matérias nos jornais e revistas escritos ou virtuais e principalmente pelas centenas de reportagens televisivas dando conta do horror do crack em nossa sociedade… Depois das inúmeras campanhas das diversas ONGS ou entidades diversas, a exemplo do Jornal Mais Brasil que ganhou apoio de personalidades importantes como Ivete Sangalo, Claudinha Leite, Roberto Carlos, Zezé di Camargo & Luciano, Pelé, Chitãozinho e Xororó, Vitor & Leo, Xuxa Meneghel, Angélica, Bel Marques, KLB, dentre outros que vestem a camisa e lutam contra as drogas… Depois de muitos artigos escritos por especialistas no problema dando conta da necessidade e da urgência de projetos reais e verdadeiros contra essa droga aniquiladora, aparece enfim, mais do que na hora, o Plano Nacional de Combate ao Crack.

Na verdade o Governo ignorou o problema. Foi negligente. E resolveu se corrigir a sete meses do fim, na boca da urna, se redimindo do seu erro ocorrido durante dois mandatos eletivos seguidos, mas, como diz o velho ditado: “Antes tarde do que nunca”, então precisamos dar todo o crédito possível ao Plano, vez que, acima de tudo, o que está em jogo é a saúde e a felicidade de muitos e a segurança pública de tantos outros.

O Governo quer envolver toda a sociedade na luta contra o crack através de Projeto que investe em prevenção, capacitação de agentes de saúde e duplicação dos leitos do SUS para os dependentes da droga. Nesse sentido, como não há números oficiais divulgados de pessoas à espera por tratamento em seus devidos lugares, tomando por base uma matéria jornalística relativa ao Estado de Alagoas que é um dos menores do Brasil e que possui uma fila de mais de dois mil dependentes do crack à espera de tratamento, podemos muito bem observar que a quantidade de pessoas com o mesmo objetivo em todo o país é imensa, apesar de muitos já terem alcançado o tratamento em Clínicas e Hospitais particulares pagos pelo Governo através de ações e decisões judiciais, pois se entendem ser obrigação estatal tratar assim dos seus drogados.

Aqui no Estado de Sergipe, o menor da Nação, que tem se destacado nas ações repressivas contra o crack, tendo proporcionalmente ficado nas primeiras colocações em termos de apreensão dessa droga e da prisão de traficantes, possui 31 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) para tratar da saúde mental do usuário, embora o número de leitos do SUS em Hospitais especializados ainda esteja indefinido quanto ao seu alcance, agora também promete investir fundo nas três áreas principais. Na área curativa mental com o aumento substancial do atendimento ao drogado e seus familiares, na área preventiva por via da conscientização social e educação, inclusive com proposta de se colocar em grade curricular matéria específica sobre as drogas, além da divulgação na mídia local, principalmente na imprensa televisiva, mostrando rápidos filmes exemplificativos e emocionantes sobre o usuário do crack, e para completar, continuará com mais rigor ainda com a repressão policial ao tráfico do produto.

O combate, a prevenção e o tratamento dos seus usuários são as três palavras chave que emergiram do Decreto Governamental que instituiu o Plano, assinado pelo chefe da Nação na tarde do último dia 20 de maio de 2010, e que prevê ações entre saúde, educação, assistência social e segurança pública, concomitantemente contra o avanço e conseqüências advindas do crack.

Uma das frases da fala do Presidente Luis Inácio Lula da Silva ao assinar o Decreto, demonstra a sua incerteza quanto a fórmula química do crack que é ainda indefinida: “O crack é uma coisa nebulosa. Nós já sabemos os efeitos que ele causa, já sabemos a dureza para quem utiliza o crack. Mas, cientificamente tem poucos estudos sobre a questão do crack.”

Para muitos o crack é composto somente de cocaína e bicarbonato de sódio, enquanto que para tantos outros estudiosos no assunto, absurdamente são adicionados à borra da cocaína para compor uma fórmula maligna e cruel, a amônia que é usada na fabricação de produtos de limpeza, o ácido sulfúrico que é altamente corrosivo e usado em baterias automotivas, querosene, gasolina ou outro tipo de solvente que é para dar a combustão ao produto e, para render aumentando a sua lucratividade, a cal virgem, ou cal viva que também é tóxica e usada em construções ou plantações, que ao serem misturados e manipulados se transformam numa pasta meio endurecida de cor branca caramelizada onde se concentra mais ou menos 40% a 50% de cocaína que é para dar o efeito alucinógeno ao seu usuário.

Particularmente e principalmente pelo grande mal físico causado ao seu dependente, assim como, pelos diversos depoimentos colhidos em conversa com usuários do crack que foram unânimes em afirmar que há um cheiro de gasolina ou querosene na pedra, e quando da fumaça do produto, um forte cheiro de pneu queimado (a não ser que existam vários tipos de fabricação do produto), fico, portanto com a segunda opção que é a mais grave e contundente, conforme demonstra o caso ser. De todas as minhas pesquisas e estudos sobre o tema, em todos os meus artigos é dessa fórmula que falo e não me canso em afirmar os efeitos nefastos causados pelo crack ao organismo do seu usuário, quais sejam:

O crack causa destruição de neurônios e provoca ao seu usuário a degeneração dos músculos do seu corpo, conhecida na medicina como rabdomiólise, o que dá aquela aparência esquelética ao indivíduo, ou seja, ossos da face salientes, pernas e braços finos e costelas aparentes.

O usuário do crack pode ter convulsão e como conseqüência desse fato, pode levá-lo a uma parada respiratória, coma ou parada cardíaca e enfim, a morte. Além disso, para o debilitado e esquelético sobrevivente seu declínio físico é assolador, como infarto, dano cerebral, doença hepática e pulmonar, hipertensão, acidente vascular cerebral (AVC), câncer de garganta e traquéia, além da perda dos seus dentes, pois o ácido sulfúrico que faz parte da composição química do crack assim trata de furar, corroer e destruir a sua dentição.

A estratégia governamental a ser posta em prática terá de imediato disponibilizados R$ 410 milhões em recursos, dentre os quais, R$ 13 milhões que serão destinados à área curativa com a duplicação dos leitos existentes e construção de novos CAPS. Para a questão da prevenção e repressão ao tráfico de drogas, a pasta do Ministério da Justiça receberá R$ 120 milhões, tendo como uma das metas, a construção de 11 postos de fronteira com policiais especializados em detectar crimes de contrabando e tráfico de drogas, embora tal estratégia se mostre ainda pequena para a quantidade de opções marginais existentes para a entrada de drogas no nosso país a para o abastecimento junto aos traficantes.

Em contrapartida o crime organizado continua investindo pesado do tráfico de drogas. Muita cumplicidade perversa promove e mantém o crack no seio da nossa sociedade. Tudo prolifera e floresce com muito arranjo sinistro. As Polícias Militar, Civil e Federal apesar de todos os esforços empreendidos, com prisões e apreensões diariamente de muitos traficantes e de grandes quantidades de crack, não tem conseguido efetivamente vencer essa guerra.

Aliados a tais medidas governamentais é preciso também da conscientização popular principalmente na área da educação. Dentre as formas de prevenir está a questão de se oferecer atividades escolares extracurriculares que despertem mais atenção dos estudantes, além de um convívio mais profundo e dialogado entre alunos com professores, psicólogos e especialistas, assim como, entre pais e filhos, para enfim, lutarmos com todas as forças possíveis contra essa epidemia.

Não podemos achar que a polícia e a medicina resolverão os problemas, que, muitas vezes, se iniciam nos lares, escolas, festas, shopings center e outros lugares de convivência social, principalmente dos jovens, mais expostos, por vários motivos, à atração do mundo das drogas.

(Delegado de Policia. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Publica pela Universidade Federal de Sergipe) archimedes-marques@bol.com.br

Igreja não pode usar fé e espiritualidade para mascarar relação de emprego

É comum surgirem, na Justiça do Trabalho mineira, discussões acerca da natureza das relações jurídicas que envolvem trabalhadores e igrejas. Nesses casos, as entidades religiosas reclamadas sempre negam a existência da relação de emprego, argumentando que o reclamante teria servido à igreja movido por sua fé e vocação religiosa. Nesse sentido, as congregações religiosas sempre tentam convencer o Juízo de que o trabalho realizado pelo reclamante é de cunho religioso e se destina à assistência espiritual e divulgação da fé, não podendo ser considerado emprego, mas, sim, vocação divina, já que a submissão é em relação ao Evangelho e não à igreja. Na 31ª Vara do Trabalho de Belo Horizonte surgiu um caso semelhante, envolvendo o pedido de reconhecimento de vínculo entre um trabalhador e uma igreja evangélica, bem como a declaração de rescisão indireta do contrato de trabalho. Após análise minuciosa do conjunto de provas, o juiz Paulo Maurício Ribeiro Pires descobriu quem estava com a razão e solucionou o conflito trabalhista.

O reclamante alegou que foi contratado como assistente jurídico da igreja evangélica, porém, sua carteira de trabalho não foi assinada. Por essa razão, além do reconhecimento do vínculo, reivindicou a rescisão indireta do contrato de trabalho (encerramento do contrato, por culpa do empregador, com todos os efeitos de uma dispensa imotivada). Em sua defesa, a reclamada sustentou que o trabalhador atuou como obreiro religioso, colaborando nos cultos evangélicos e auxiliando na administração do templo. Portanto, segundo a sua tese, ele teria se aproximado da igreja por interesse espiritual e, nessa circunstância, a fé exclui o vínculo de emprego. Entretanto, o juiz de 1º grau rejeitou esse argumento ao confrontá-lo com os demais elementos de prova. Em sua análise, ele entendeu que não se trata de uma pessoa que freqüentava a igreja em busca de ensinamentos religiosos. Isso porque os depoimentos das testemunhas revelaram que a atividade desempenhada pelo reclamante não era espiritual. Muito pelo contrário, a prova testemunhal confirmou que ele não pregava o Evangelho e que raramente participava dos cultos.

Além disso, a própria reclamada afirmou que possui um escritório à parte, onde o trabalhador prestava serviços, executando funções jurídicas e administrativas. Diante dessas afirmações, o magistrado considerou inviável o argumento da igreja de que o reclamante dedicava grande parte do seu tempo diário para orações. “Percebe-se claramente nos autos que o autor não se encontrava na igreja para uma missão, para o sacerdócio, para fazer pregações e, sim, prestava serviços de forma subordinada, mediante salário, de forma não eventual” – concluiu o juiz, declarando o vínculo entre as partes.

O pedido de rescisão indireta foi formulado com base no fato de que a reclamada deixou de anotar a CTPS do trabalhador e, em conseqüência, não providenciou os recolhimentos das contribuições previdenciárias e do FGTS. Além disso, as férias não foram indenizadas e era irregular o pagamento do salário, o qual a igreja chamava de “sustento pastoral”. Constatando que houve descumprimento das obrigações contratuais por parte da reclamada, o juiz sentenciante declarou a rescisão indireta do contrato de trabalho, condenando a igreja evangélica ao pagamento das verbas rescisórias típicas da dispensa imotivada. (RO nº 00777-2005-110-03-00-6 )

Fonte: Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região

Aula cronometrada

Com um método já aplicado em países de bom ensino, o Brasil começa a investigar o dia a dia nas escolas

Roberta de Abreu Lima
Revista Veja – 23/06/2010

As avaliações oficiais para medir o nível do ensino no Brasil têm se prestado bem ao propósito de lançar luz sobre os grandes problemas da educação – mas não fornecem resposta a uma questão básica, que se faz necessária diante da sucessão de resultados tão ruins: por que, afinal, as aulas não funcionam? Muito já se fala disso com base em impressões e teoria, mas só agora o dia a dia de escolas brasileiras começa a ser descortinado por meio de um rigoroso método científico, tal como ocorre em países de melhor ensino. Munidos de cronômetros, os especialistas se plantam no fundo da sala não apenas para observar, mas também para registrar, sistematicamente, como o tempo de aula é despendido. Tais profissionais, em geral das próprias redes de ensino, já percorreram 400 escolas públicas no país, entre Minas Gerais, Pernambuco e Rio de Janeiro. Em Minas, primeiro estado a adotar o método, em 2009, os cronômetros expuseram um fato espantoso: com aulas monótonas baseadas na velha lousa, um terço do tempo se esvai com a indisciplina e a desatenção dos alunos. Equivale a 56 dias inteiros perdidos num só ano letivo.

Já está provado que a investigação contínua sobre o que acontece na sala de aula guarda relação direta com o progresso acadêmico. Ocorre, antes de tudo, porque tal acompanhamento permite mapear as boas práticas, nas quais os professores devem se mirar – e ainda escancara os problemas sob uma ótica bastante realista. Resume a especialista Maria Helena Guimarães: “Monitorar a sala de aula é um avanço, à medida que ajuda a entender, na minúcia, as razões para a ineficácia”. Não é de hoje que países da OCDE (organização que reúne os mais ricos) investem nessas incursões à escola. Os americanos chegam a filmar as aulas. O material é até submetido aos professores, que são confrontados com suas falhas e insucessos. Das visitas que fez a escolas nos Estados Unidos, o pedagogo Doug Lemov depreendeu algo que a breve experiência brasileira já sinaliza: “Os professores perdem tempo demais com assuntos irrelevantes e se revelam incapazes de atrair a atenção de alunos repletos de estímulos e inseridos na era digital”.

Numa manifestação de flagrante corporativismo, os professores brasileiros chegaram a se insurgir contra a presença dos avaliadores dentro da sala de aula. Em Pernambuco, o sindicato rotulou a prática de “patrulhamento” e “repressão”. Note-se que são os próprios professores que preferem passar ao largo daquilo que a experiência – e agora as pesquisas – prova ser crucial: conhecer a fundo a sala de aula. Treinados pelo Banco Mundial, os técnicos já se puseram a colher informações valiosas. Afirma a secretária de educação do Rio de Janeiro, Claudia Costin: “Pode-se dizer que o cruzamento das avaliações oficiais com um panorama tão detalhado da sala de aula revelará nossas fragilidades como nunca antes”. Nesse sentido, os cronômetros são um necessário passo para o Brasil deixar a zona do mau ensino.

Os colecionadores

A necessidade das pessoas de manter e controlar coisas, num mundo cada vez mais volátil e incontrolável

Luiz Alberto Marinho*
Revista Vida Simples – 07/2010

Você certamente conhece alguém que está colecionando as figurinhas da Copa. Talvez tenha até mesmo embarcado nessa onda. A verdade é que a febre do álbum com as figurinhas dos jogadores e das seleções que disputam o torneio na África do Sul contagiou brasileiros e brasileiras, de todas as idades e classes sociais.

A coisa tomou tal proporção que em abril criminosos invadiram uma distribuidora em São Paulo e roubaram cerca de 135 mil figurinhas, que foram depois recuperadas. Eles queriam revender no mercado clandestino. O mais curioso é que a moda vem de longe, de outras longínquas Copas do Mundo. Recentemente, um cartão de crédito colocou no ar um comercial que mostra o encontro casual de um rapaz com Pelé no bar de uma pequena cidade. No filme, o moço conversa rapidamente com o craque e corre em seguida para comprar uma camisa da seleção e uma bola de futebol. Volta, pede ao ídolo para vestir a camisa e tira uma foto, que leva revelada para o pai. Era a figurinha que faltava no velho álbum da Copa de 70. A propaganda ajuda a explicar que essa mania resiste ao tempo e às modernidades digitais – hoje as trocas de cromos repetidos são feitas também, veja só, pela internet.

Mas, afinal, por que as pessoas gostam tanto de colecionar coisas? Para alguns, é uma forma de investimento – estou falando dos que acumulam obras de arte, antiguidades, moedas raras. Para outros, que colecionam carros, relógios e até namoradas famosas, isso é uma forte demonstração de poder. Tem ainda aqueles que lutam para não deixar que o passado e as lembranças escorram por entre os dedos, guardando caixas de fósforos, latas antigas de cerveja, velhas cartas ou cartões-postais de várias partes do mundo, nas quais estiveram ou desejaram estar.

A maior parte dos colecionadores diz que faz isso simplesmente porque é divertido. Psicólogos, entretanto, explicam que colecionar pode ser uma manifestação inconsciente da necessidade que as pessoas sentem hoje em dia de manter e controlar coisas, num mundo cada vez mais volátil e incontrolável.

Pessoalmente, acho que todas as explicações se somam. Colecionar possui uma evidente conotação de nostalgia, mas pode proporcionar a sensação de poder e também é divertido. As figurinhas da Copa oferecem, além disso tudo, a ingênua e poderosa ilusão de reter eternamente um momento mágico da história esportiva.

O risco é não completar o álbum e assim produzir inadvertidamente uma angustiante metáfora – a de que, por mais que nos esforcemos, sempre vai faltar algo mais às nossas vidas.

*Luiz Alberto Marinho atualmente não coleciona nada – e acha que está bem assim.

Uma jornalista na Libéria

As experiências vividas durante 30 dias na África pela repórter Maria Carolina Balro, em um país pós-guerra, mostram que ainda há muito o que fazer

Maria Carolina Balro
Revista Bons Fluidos – 07/2010

Quando decidi ir para a Libéria, o cenário de um país pós-guerranão me assustou. O que mais me motivou foi a certeza de umsonho realizado – estar no meio das crianças e entender suas maiores necessidades. Antes de embarcar, passei por uma consulta médica na Medicina do Viajante, no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, o que é primordial para quem vai a países e continentes que esbanjam diversas doenças.

Os médicos me deram toda a assistência, explicando os riscos aos quais eu estaria exposta e, além disso, tomei as vacinas necessárias, contra febre amarela, febre tifoide, tétano, raiva, cólera, hepatite A e B, entre tantas outras.

O que me assustava era a grande incidência de malária, pois contra ela não existe vacina. Na África, a malária é a doença que mais mata, seguida da AIDS. Depois de vacinada, lá fui eu, rumo à Libéria, um dos países mais pobres do planeta. Mesmo com tantas precauções, acabei pegando a doença. Os sintomas são como os de uma gripe. A minha sorte foi ter descoberto a malaria no início, assim posso dizer que “nem sofri tanto”. Entre picos de febre e um cansaço excessivo, você fica um pouco fora de sintonia. Foram três dias de medicação intensa e, em média, 10 dias para melhorar 100%.

GUERRA SANGRENTA
No século 19, os Estados Unidos não sabiam o que fazer com seus ex-escravos. Eles pensavam em criar uma colônia na África e levá-los para lá, mas acabaram fundando a Sociedade Americana de Colonização, que tinha como objetivo mandar os negros para essa nova colônia, no caso, a Libéria. Em 1820, foi enviada a primeira leva de emigrantes. Mas o que os americanos não esperavam é que isso causasse um grande conflito entre os locais e os ex-escravos, que teriam de dividir o mesmo território, disputando forças políticas e econômicas. Conclusão, em pouco tempo começaram os choques, dando início à triste história do país. Foram duas guerras civis, a primeira entre 1989 e 1996, e a segunda de 1999 a 2003. Resultado: mais de 250 mil mortos e mais de um milhão de refugiados. Em 2003, tropas dos EUA e da ONU intervieram para tentar acabar com a guerra e desarmar a população. O objetivo foi atingido e, em 2006, foi eleita a atual presidente Ellen Johnson-Sirleaf, primeira mulher no continente africano a ocupar esse cargo. Hoje, o principal desafio do país é continuar a se reerguer.

DESEMBARCANDO EM MONRÓVIA
Depois de várias escalas, desembarquei em Monróvia, a capital da Libéria, no estado de Montserrado. A cidade tem, aproximadamente, 1,5 milhão de habitantes. Cheguei de madrugada e a única coisa que notei foi a escuridão que pairava no ar (o país não tem rede de energia elétrica porque as usinas foram destruídas durante a guerra). No dia seguinte, foi a vez de conhecer de perto onde eu estava pisando. A ficha logo caiu quando a primeira tentativa de tomar banho quente falhou. Energia elétrica só com gerador (para os que têm condições de ter um, claro). As ratoeiras na cozinha da casa onde fiquei também me deram as boas-vindas à realidade. Como a cidade vive entre escombrose não tem saneamento básico, ratos e baratas são visitas comuns a todos. Eu fiquei impressionada com o calor e a umidade do país, que chega a 90%. A água brota pelos poros e você sua sem parar. Antes de ir ao centro da cidade, percorri as ruas do bairro, para me familiarizar com os meus novos vizinhos. Eu poderia dizer que era como se estivesse em uma grande favela. A comparação não é em um sentido pejorativo, e sim estrutural, porque as ruas são de terra, as casas combinam um pot-pourri de telhas, alumínio, barro batido, bambu econstruções semidestruídas, mulheres lavando roupas nas bacias, crianças brincando com areia, em um cenário de pobreza atroz. Porém, o sorriso que cada um abria ao me ver quebrava qualquer tipo de insegurança e me confortava, pois eu percebia que era muito bem vinda.

No entanto, esse cenário mudou quando cheguei ao centro da cidade. O impacto que a guerra deixou no país é nítido. Lá encontrei pessoas mutiladas, pedintes, ruas cheias de carros, sem semáforos, ambulantes e rostos não tão simpáticos e sorridentes. O que não me desmotivou, pois é totalmente compreensível, já que a realidade deles é uma só – sobreviver em meio às condições atuais. O meio de transporte é compartilhado. Não existe ônibus e eles usam o táxi – lotado – para ir e vir. Cada carro leva cinco passageiros. Outra maneira de locomoção são as caronas de moto.

TROCA DE EXPERIÊNCIAS
O trabalho voluntário que eu fiz foi em uma escola chamada Phillips Preparatory School, de ensino fundamental. Apesar de particular, ela se mostrou totalmente sem estrutura. Falta luz, as salas de aula são de cimento aparente e têm apenas o recorte de portas e janelas. Eu ficava na classe dos alunos entre 5 e 6 anos e, todas as manhãs, em pé, eles me cumprimentavam em coro, dizendo: “Bom dia, Maria, como você está hoje?”. Muito diferente das atividades escolares do Brasil, as aulas eram pouco dinâmicas e lúdicas. No dia a dia, a professora responsável pela classe (e eu junto com ela) repassava a lição da lousa, misturando um pouco de raciocínio com exercícios simples de matemática.

Também ensinava regras gramaticais e como dizer o nome da fruta desenhada na lousa. Fora isso, as crianças cantavam o alfabeto e aprendiam músicas educativas. Formas geométricas e cores estavam em desenhos pelas paredes e sempre eram revisadas. Aos poucos, fui trazendo novas ideias. As crianças não tinham o hábito de desenhar, e essa foi uma das minhas sugestões. Todas as segundas-feiras elas teriam de colocar no papel o que haviam feito no final de semana. Também plantei uma semente de feijão no algodão para mostrar como ele cresce e se desenvolve. Explorei o pátio com brincadeiras coletivas, um jeito de estar mais próxima deles e ensiná-los a noção de espaço e troca, saber ganhar ou perder. Quando eu não sugeria uma atividade nova, as crianças ficavam na maior bagunça e o momento de controlar isso era quando a professora falava mais alto e ameaçava com uma varinha de madeira. Interessante é o método que eles ainda usam para “castigar” os alunos, que ficam ajoelhados na classe, em pé com o rosto virado para a parede,ou atrás da porta. Outro grave problema é a noção de higiene. A regra é: os pequenos usam como banheiro uma área reservada do pátio, queimada no final do dia. Além disso, cada classe recebe um balde de plástico cheio e uma única caneca. A criança com sede vai até o balde, enche o copo e bebe.

DOIS MUNDOS EM UM ÚNICO PAÍS
É por isso que a Libéria recebe apoio e investimento de diversas ONG’s. São mais de 60 espalhadas pelos 15 estados do país. Algumas evoluções já são notáveis, como o desarmamento e a não violência. Outras, porém, ainda precisam de muito trabalho para mudar. A questão do saneamento e de doenças é extremamente precária. Imagine que eu e mais três jornalistas que trabalham para a ONG canadense Journalists for Human Rights acompanhamos cerca de 20 jornalistas liberianos em uma visita à cidade de Buchanan, no estado de Grand Bassa, para fazer uma material sobre a situação de higiene em que o povo vive. Para a nossa surpresa, identificamos que ainda existem pessoas que não têm, sequer, um único banheiro. Todas as necessidades são feitas no mar.

Consequência disso? Na Libéria, 2,9 milhões de habitantes, de uma população de 3,5 milhões, não têm acesso a instalações sanitárias e apenas uma em cada quatro pessoas tem água tratada, enquanto apenas uma entre sete tem condições saudáveis de higiene. Água, solo, peixe, tudo contaminado. Igualmente chocante é saber que muitos ainda não têm acesso à água potável. Nossa visita a Buchanan resultou em dezenas de artigos publicados, com o objetivo de alertar a população e ajudar a pressionar o governo e os políticos a tomarem medidas urgentes. Com a entrada da ONU na Libéria, em 2003, começou a se instalar uma economia paralela, devido às necessidades dos expatriados. Hotéis, supermercados com produtos importados, restaurantes, bares e outros entretenimentos são luxo apenas para alguns. É um tanto contraditório saber que são os estrangeiros trabalhando em empresas voltadas ao desenvolvimento, ONG’s e a ONU os principais responsáveis por criar essa demanda.

Realmente, eu seria injusta se dissesse que passei qualquer necessidade. Quem mais ganhou com a experiência fui eu. Recebida com o que eles têm de melhor – um sorriso largo que se destaca na pele negra e reflete o brilho de um olhar simpatico e sincero, de um povo que é pura alegria e não tem medo de reconstruir.

Passeata digital

A Lei Ficha Limpa, que barra a candidatura de politicos condenados por crimes graves, provavelmente não teria sido aprovada sem a pressão dos internautas. Por trás desse movimento está a socióloga Graziela Tanaka, de 30 anos, coordenadora no Brasil da Avaaz.org

Kátia Arima
Revista Info Exame – 07/2010

A ONG promoveu uma forte mobilização por e-mail e redes sociais em defesa do projeto, recolhendo milhões de assinaturas. Agora, o foco é o Código Florestal. Veja o que ela disse à INFO.

Como a Avaaz.org realiza as mobilizações?
Enviamos alertas por e-mail ao nosso cadastro de 600 000 brasileiros, para deixá-los a par das novidades de uma campanha ou para convocá-los para alguma ação. Na Ficha Limpa, por exemplo, quando alguns deputados estavam tentando enfraquecer o projeto ou adiar a votação, sugerimos às pessoas que enviassem e-mail aos políticos e ligassem para o Congresso. Abarrotamos a caixa de e-mail desses deputados com 40 000 mensagens.

Os internautas não têm capacidade de se autogerenciar sem a coordenação da Avaaz.org?
Nós somos a garantia de que uma ação na internet será levada a sério. Antes, as pessoas recebiam uma petição por e-mail e não sabiam se era verdade ou não, se ela chegaria até a pessoa certa no poder. Poucas ONGs sabem como lidar com o ciberativismo, e, por isso, apoiamos organizações de qualquer área.

Participar de mobilizações políticas na frente do computador não é uma militância preguiçosa?
O clique do mouse é só o primeiro passo na participação política. Telefonar para o Congresso Nacional já é um passo além. Quem assinou a petição da Ficha Limpa hoje recebe alertas sobre questões ambientais, pois agora estamos organizando uma petição para rejeitar as emendas propostas ao Código Florestal Brasileiro. Nem todo mundo é jovem e tem tempo para ser voluntário. Na Ficha Limpa, a maioria das pessoas estava na faixa entre 40 e 50 anos. A internet é o meio que elas têm para se engajar.

Como a ONG obtém recursos?
Dos mais de 5 milhões de cadastrados na lista de alertas, que fazem doações. Poucas ONGs conseguem fazer esse tipo de captação de recursos. Não recebemos nada do governo, nem de empresas privadas. A doação dos brasileiros fi ca em torno de 20 reais, em média.

Qual ferramenta na internet é melhor para o ciberativismo?
Usamos o Twitter e o Facebook para saber onde está ointeresse do público, quais são as questões mais urgentes no momento. O orkut não é utilizado, pois o foco dele é mais a amizade. Para divulgar campanhas, optamos mais pelo e-mail, que tem um efeito viral, e pelo Twitter (@avaazpo).

Cinema de formação

O Globo, Segundo Caderno, em 05/07/2010

Novos filmes brasileiros tentam retomar o interesse do público infantil, construído no passado por Xuxa e Trapalhões André Miranda

A palavra mais usada por aí quando se fala em cinema infantil brasileiro é mantra. Um mantra é um termo da cultura indiana que, repetido de acordo com certos preceitos, tem uma finalidade mágica. É uma espécie de oração, que provoca alguma vibração e alcança o objetivo esperado. O mantra, para os produtores de filmes como “Eu e meu guarda-chuva” e “Tainá – A origem”, tem sido o mesmo e é compartilhado por todos aqueles que acreditam no potencial de um imenso nicho de mercado no Brasil: é preciso investir em produções voltadas ao público mirim.

Há 30 anos, os filmes infantis brasileiros eram garantia de sucesso, principalmente pelos longas-metragens dos Trapalhões.

Dados da Agência Nacional de cinema (ANCINE) mostram que, das 20 obras mais assistidas no Brasil desde 1970, 12 foram de Renato Aragão e sua turma, sendo que “O Trapalhão nas minas do Rei Salomão” (1977) ocupa o quarto lugar da lista, com 5,8 milhões de espectadores.

Já em vigésimo aparece mais uma marca responsável pelas espetaculares bilheterias do gênero: Xuxa e seu “Lua de Cristal”, que atraiu 4,2 milhões de baixinhos – e altinhos – aos cinemas em 1990. Assim como ocorria com os Trapalhões, os filmes da apresentadora obtiveram ótimos resultados. Mesmo o recente “Xuxa em O Mistério de Feiurinha”, de 2009, teve 1,2 milhão de espectadores, uma boa marca para qualquer filme brasileiro, de qualquer gênero.

- Houve um tempo em que os filmes infantis, graças ao Renato Aragão e à Xuxa, faziam públicos de quatro a cinco milhões de pessoas num ano. Acabamos deixando isso para trás. Hoje, os filmes infantis fazem 1,5 milhão de espectadores, se tanto – afirma Carlos Eduardo Rodrigues, diretor da distribuidora Globo Filmes, que planeja apoiar quatro produções infantis nos próximos meses, entre elas, “Quem tem medo de fantasma?”. – Além disso, a oferta ainda é muito inferior à demanda. No ano passado, tivemos dois filmes, “Xuxa” e “O Grilo Feliz e os insetos gigantes”, de um total de 80. No cinema de Hollywood, de 5% a 10% das produções são infantis, e elas correspondem a um quarto do faturamento da indústria. Eu acho que é fundamental para o cinema brasileiro desenvolver uma base mínima de filmes infantis.

Mais do que uma boa oportunidade de negócio, o investimento no cinema infantil serve para fidelizar um público em formação. A equação é bem simples: o guri sai de casa para o cinema, ganha uma pipoca da mãe, divertese com atores falando sua língua e depois pede para voltar em outro filme. E pede também no próximo, e em mais um, e assim vai até crescer, passar a se interessar por produções nacionais adultas e incentivar seus próprios filhos a ir ao cinema.

- Tenho percebido que o mercado voltou a olhar com mais interesse para esse segmento – diz Toni Vanzolini, diretor do infantil “Eu e meu guarda-chuva”, cuja primeira exibição está marcada para o Festival de Paulínia, no dia 17. – Os produtores, distribuidores e investidores se deram conta da necessidade de apoiar os filmes para crianças.

Se fizermos bons filmes, vamos ganhar esse mercado novamente.

“Eu e meu guarda-chuva” é baseado num livro do titã Branco Mello e mostra a fantasia de um trio de amigos que visita um colégio mal-assombrado à noite. O filme, bem diferente de outros do gênero, deve estrear em 8 de outubro: apesar de próxima do Dia das Crianças, a data é fora das férias escolares.

- Por um lado, não teremos as possibilidades de público que as férias oferecem, mas, por outro, não vamos disputar com os blockbusters americanos. A expectativa dos filmes infantis brasileiros não indica o caminho de blockbusters. A realidade não é essa – afirma Vanzolini.

A realidade é que, mesmo os últimos filmes de Renato Aragão, “O cavaleiro Didi e a princesa Lili” (2006) e “O guerreiro Didi e a ninja Lili” (2008), tiveram um desempenho aquém da alta média do Trapalhão: 742 mil e 647 mil espectadores, respectivamente.

Bilionários pelo meio ambiente

“Bill, Melinda e Warren, o que lhes parece convencer seus amigos a investirem na produtividade verde?”, pergunta a economista Hazel Henderson neste artigo exclusivo.
Imagem Fabrício Vanden Broeck

Aplaudo Bill e Melinda Gates e o financista Warren Buffett por desafiarem outros multimilionários a doarem, durante suas vidas, a metade ou mais de suas enormes fortunas a obras de caridade. Em maio de 2009, eles propuseram a David Rockefeller ser o anfitrião de um primeiro jantar secreto com George Soros, Ted Turner, Oprah Winfrey, Michael Bloomberg, David Rockefeller Jr. e outros bilionários, no qual lançaram a campanha.

O casamento Gates e Buffet já está no caminho correto, pois dirigem suas doações para a África e países em desenvolvimento de outros continentes, bem como a educação. E eles podem convencer seus amigos ricos a irem além de financiar luxuosos pavilhões com seus nomes em universidades da elite. Esse tipo de filantropia está fora de moda.

Também está fora de moda a expansão subsidiada de empresas vinculadas a combustíveis fósseis, do carvão ao petróleo, passando pelas petroquímicas, o aço ou a indústria automotiva devoradora de gasolina, até a agricultura em escala industrial e as grandes companhias farmacêuticas. Bill Gates poderia se desligar do American Energy Innovation Council, que pressiona o Congresso dos Estados Unidos para obter US$ 16 milhões em subsídios à pesquisa com “carvão limpo”.

O melhor que os filantropos podem fazer é unir suas forças a grupos progressistas, para acelerar a transição para uma Era Solar que aplique modelos de desenvolvimento humano baseados na potencialidade e produtividade dos sistemas naturais que, há milhares de milhões de anos, a natureza nos oferece. A Iniciativa por uma Economia Verde, de várias agências da Organização das Nações Unidas, está sintonizada com os programas da Fundação Gates, bem como com a iniciativa Economia dos Ecossistemas e a Biodiversidade, o instituto Zeri, fundado pelo empresário Gunter Pauli, autor do livro “The Blue Economy”, e o Biomimicry Institute, de Janine Benyus.

Como conseguir os investimentos necessários para impulsionar esta grande transição para a Era Solar? Bill e Melinda Gates podem conduzir seus pares para as tecnologias inovadoras, que só esperam recursos para concretizar essa transição.

Eles podem unir-se à Rede para os Mercados Financeiros Sustentáveis e com líderes em finanças que estão preparando o terreno, com os Princípios para o Investimento Responsável da ONU (com US$ 20 bilhões em ativos), a Iniciativa Financeira do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a Certificadora de Padrões Ambientais Ceres (com US$ 3 bilhões), e o Institutional Investors Group on Climate Change (com US$ 8 bilhões).

Desde janeiro de 2007, foram investidos ou comprometidos US$ 1,248 bilhão em negócios de eficiência energética, agricultura sustentável e energias limpas, bem como em outras tecnologias que estão deslocando as antigas empresas contaminadoras e os financistas do passado. Este fascinante progresso costuma ser ignorado pelos principais meios de comunicação, ainda mantidos pela publicidade dos setores fossilizados da sociedade.

A Ethical Markets Media (http://www.ethicalmarkets.com) dedica-se a promover a reforma dos mercados mundiais e o crescimento da economia verde. Publicamos informes diários sobre novas tecnologias, investimentos, empreendimentos e companhias que lideram o caminho para a transição verde (http://www.greentransitionscoreboard.com). Usamos o modelo Climate Solutions 2, da firma com sede na Austrália Climate Risk Pty, para mostrar que é possível garantir a transição verde investindo US$ 1 bilhão por ano em todo o mundo, especialmente nos países em desenvolvimento, até 2020.

São US$ 10 bilhões em dez anos, menos da metade dos US$ 23 bilhões empregados para resgatar o setor financeiro e automobilístico dos Estados Unidos, em bancarrota, pagos pelos contribuintes. Esses US$ 10 bilhões representam menos de 10% dos valores manejados por investidores institucionais, fundos de pensão e fundações de caridade do mundo, estimados em US$ 120 bilhões.

Assim, Bill, Melinda e Warren, o que lhes parece convencer seus amigos a investirem na produtividade verde e os ajudar a modernizar seus velhos portfolios?

Assim poderão treinar seus administradores e consultores em novas formas de avaliar ativos, considerando os fatores ambientais, sociais e de governabilidade, que permitem monitorar com certeza a produtividade verde. A visão de Bill e Melinda Gates já fez a grande transição para o verdadeiro desenvolvimento humano. Eles e Buffett podem nos ajudar a chegar a um novo cenário mundial, que supere a obsoleta noção do produto interno bruto.

Hazel Henderson
Economista norte-americana, autora de Ethical Markets: Growing the Green Economy (2007) e coautora dos indicadores de qualidade de vida Calvert-Henderson (http://www.Calvert-Henderson.com). Direitos exclusivos IPS.
Envolverde, 05/07/10
© Copyleft – É livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.

Rótulos, selos e certificações verdes

Uma ferramenta para o consumo consciente

Uma das conclusões do Monitor de Responsabilidade Social Corporativa 2010, da Market Analisys – publicado com destaque no Dossiê sobre Consumo Consciente, da Revista Ideia Socioambiental (Março 2010) – indica que dois em cada dez consumidores brasileiros estão bem informados sobre o comportamento socioambiental de produtos e empresas.

Trata-se de um número tímido se comparado ao de outros países do Hemisfério Norte – estudos variados dão conta da existência de entre seis e oito consumidores muito sensíveis ao assunto  – nos quais a questão ambiental inclui-se na agenda do consumidor há pelo menos uma década. Mas expressivo se considerar o fato de que o consumo consciente encontra-se em fase preliminar no Brasil, sob os limites de uma cultura de consumo de massa ainda recente (reprimida desde os tempos de hiperinflação), das condições locais de educação básica e do consumo crítico de informação.

Muito provavelmente, o alto índice de desinformação se deva a uma combinação de dois fatores distintos mas correlatos, já abordados nesta coluna (1) baixo valor de importância atribuído pelo consumidor ao tema socioambiental como critério de compra, um desafio, portanto, de natureza cultural e valorativa; (2) escassez de informação socioambiental nos produtos ou mesmo dificuldade de identificar e decodificar as poucas informações existentes, pela falta de indicadores específicos, rótulos explicativos e campanhas de comunicação de empresas baseadas nos atributos sociais e ambientais de seus produtos.

Nos mais diferentes fóruns de discussão do tema, os chamados “selos verdes” são quase sempre apontados como uma solução para este quadro. Em grande medida porque ofereceriam “pistas” mais confiáveis para o consumidor tomar uma decisão de consumo responsável sem ter que se tornar um expert em ecologia.

Conferida por uma organização certificadora idônea, após análise rigorosa dos aspectos socioambientais, a imagem de um selo, com destaque na embalagem de um produto, contribuiria para romper o que o psicólogo Daniel Goleman, autor de Inteligência Ecológica, chama de “inércia cognitiva”, isto é, a tendência da mente humana de buscar o mínimo esforço na hora de juntar informações para uma tomada de decisão. Funcionaria, portanto, como uma chancela de aprovação.

Comunicado de forma rápida e compreensível a uma primeira olhada, o selo verde seria uma espécie de “marca verde”, dispensando o consumidor do trabalho de organizar informações complexas e, às vezes, impenetráveis. Ele se transformaria em uma pista rápida e segura.

A possível relevância dos selos e o seu impacto junto aos consumidores é confirmada pelo Monitor de Responsabilidade Social Corporativa 2010.

Segundo o estudo, 36% dos consumidores brasileiros crêem que uma “etiqueta” na embalagem do produto represente a melhor forma de uma empresa comunicar as suas práticas socioambientais. Na versão do mesmo estudo de 2007, eram 28%. Este fator, com o maior número de menções, foi seguido pelo de “ação junto a ONGs e instituições de caridade” (25%), “certificação do governo sobre a responsabilidade social de uma empresa” (20%) e a “publicação de um relatório anual de sustentabilidade” (7%).

Embora tais pistas não sejam as únicas e a sua eficácia varie conforme os diferentes segmentos da economia – como ressalta o texto de conclusões do MRSC 2010 – a pesquisa ratifica a importância das “etiquetas” socioambientais como uma fator crítico no reconhecimento, por parte do consumidor, de quem é responsável, como e por quê.

O impacto tende a ser principalmente mais elevado – aponta o estudo – entre os consumidores menos informados: 42% deles valorizam o selo verde como uma referência de sustentabilidade contra 36% da população geral. A dica é clara: selos criteriosos e bem comunicados são sim importantes ferramentas para induzir comportamento de consumo consciente. Empresas líderes interessadas em educar o consumidor e governos atentos podem jogar um papel decisivo nesse processo. Basta vontade de fazer.

Ricardo Voltolini
Publisher da revista Idéia Socioambiental e diretor da consultoria Idéia Sustentável: Estratégia e Inteligência em Sustentabilidade
http://www.topblog.com.br/sustentabilidade; @ricvoltolini; ricardo@ideiasustentavel.com.br
Ideia Socioambiental, 07/07/10

O novo livro

A tecnologia mudará o jeito como encaramos a leitura. Ninguém mais vai julgar um livro pelo número de páginas, e sim por quanto tempo ele vem sendo escrito (um processo que poderá durar infinitamente). E o livro vai se transformar em um fórum, um espaço em que leitores trocarão ideias entre si e com os autores. É o que diz Bob Stein, presidente do Instituto para o Futuro do Livro, dos EUA

Eduardo Szklarz
Revista Superinteressante – 07/2010

O que o livro digital vai criar?
Um novo tipo de relação social. O livro existe para difundir ideias, para que possamos falar delas. Mas hoje lemos um livro e conversamos depois, quando nos encontramos com outras pessoas. Com o livro digital, as duas etapas vão acontecer ao mesmo tempo. A conversa vai passar para as próprias páginas do livro.

Como assim?
E-readers, computadores e outras plataformas de leitura digital estarão conectados entre si, via internet. Eu estarei conectado a outros leitores que escolheram o mesmo título – ou seja, o livro estará em rede. As anotações que eu fizer em uma página ficarão visíveis para todos. Será uma nova forma de conversa. Comprarei um livro para minha neta e deixarei notas para ela, que escreverá de volta para mim, por exemplo.

O que mudará para autores?
O autor de um livro em rede será o líder de um grupo. Ele lançará um tópico e comandará os leitores num empenho para ampliar o conhecimento, já que cada um fará anotações e iniciará suas próprias discussões. Alguns autores vão querer fazer um texto completo e colocá-lo em debate. Outros colocarão rascunhos que serão trabalhados pelos leitores.

Se um livro continuará sendo escrito depois de lançado, os leitores vão pagar por uma obra incompleta, então?
Acredito que um modelo que vai surgir é o de assinatura. As pessoas vão assinar um livro, e não comprar. Serão assinantes da obra pelo tempo que quiserem – quando perderem o interesse na discussão, param de pagar. O mesmo vale para o autor. Ele seguirá editando o material por semanas ou anos. Vai se envolver com os leitores, e não com o assunto em si. No dia em que o assunto deixar de lhe interessar, ele deixará de receber. Ou talvez o livro se torne público. E as editoras de sucesso terão a capacidade de construir comunidades vibrantes em torno dos livros.

Ler e escrever vão deixar de ser momentos solitários?

Ler e escrever sempre foram atividades sociais. O costume de ler livros em voz alta durou até meados do século 19. Antes de Gutenberg permitir que tivéssemos cópias de um livro, o conceito de autor nem existia. Portanto, a noção de que uma ideia é criada por alguém e recebida por outro é recente. Com a tecnologia, vamos ter uma nova era de colaboração. O grupo valerá mais do que o indivíduo.

O que falta para essa era?

Reinventar tudo o que faz o livro funcionar: editoras, livrarias, prateleiras. O esquema de venda hoje é dedicado ao impresso: vender um objeto para um só indivíduo. Claro, nem todos os leitores vão querer entrar na discussão em rede, e o estilo atual de leitura ainda vai existir. Mas ninguém criou um modelo para a leitura social. Exemplo: posso lançar uma pergunta a amigos como “Quero ler esse livro – quem quer ler comigo no fim de semana?” Isso vai acontecer. E ainda não sabemos como atenderemos a essa demanda.

Quero Doar. Mas para quem?

Executivo do mercado financeiro cria instituto que faz a conexão entre pessoas dispostas a investir e ONGs com bons projetos sociais

Marcos Flávio Azzi, à frente, com Tereza Melo, Luciana Piazzon, Rodrigo Pontes e Priscila Rodrigues, sua equipe no Instituto Azzi: iniciativa inédita que une investidores dispostos a doar acima de R$ 50 mil por ano a instituições com projetos assistenciais sérios
Foto Breno Rotatori

O economista Manoel Felix Cintra Neto, 62 anos, presidente do banco Indusval Multistock, sempre estimulou as empresas e entidades que dirigiu, como a BMF, a ter um olhar para o terceiro setor, por meio de programas sociais estruturados. Mas quando começou a separar parte de seu patrimônio pessoal para filantropia, Cintra Neto enfrentou um dilema. Como identificar projetos assistenciais sérios e, depois, acompanhar o retorno do investimento? Para ajudar pessoas com esse mesmo problema, o mineiro oriundo do mercado financeiro Marcos Flávio Azzi criou, em 2008, um instituto cuja proposta é fazer a conexão entre pessoas físicas de alto poder aquisitivo e ONGs ou instituições que tenham projetos sociais de excelência.
Sócio da corretora Credit Suisse Hedging-Griffo, Azzi, 37 anos, criou uma estrutura que busca pessoas interessadas em doar no mínimo R$ 50 mil por ano e ONGs que, para ser escolhidas, precisam passar por avaliação que mede sua qualidade de gestão, o nível de transparência, a solidez e o potencial de impacto. “Na maioria das vezes, a escolha por esta ou aquela ONG é subjetiva e não leva em conta seus resultados”, diz Azzi. “Isso torna a filantropia fragmentada, oportunista e sem foco.”
O trabalho do Instituto Azzi começa com a definição do valor a ser doado. Depois vem a identificação da causa que mais atrai cada doador. “Conversamos muito com o investidor e sua família para encontrar uma causa que faça sentido para ele”, diz Azzi. Sua causa pessoal, para a qual reserva 3% do patrimônio todos os anos, é a reforma de casas populares. Azzi já recuperou 60 residências em Perus, 200 na Vila Brasilândia e 50 em Campo Limpo, bairros da periferia de São Paulo, ao custo médio de R$ 2 mil cada. “Ter uma boa casa para morar muda a relação familiar, as crianças adoecem menos e tudo melhora”, afirma Azzi, pai de um casal, de 7 e 3 anos. Azzi deixou o dia a dia da corretora para se dedicar exclusivamente ao instituto, que não cobra pelo trabalho e tem quatro funcionários com salários pagos por ele.

Hoje há 20 investidores cadastrados, que bancam cerca de 40 projetos. Eles são monitorados e os doadores informados sobre os resultados, como acontece com Manoel Felix Cintra Neto, que apoia, em parceria com o instituto, sete causas em várias frentes, de instituições que cuidam de pessoas idosas e crianças com câncer até uma ONG que ajuda animais abandonados. “O instituto faz um bom acompanhamento, para ver se a entidade está aplicando com competência o dinheiro”, diz Cintra Neto. A meta de Marcos Azzi é fechar o ano com 35 investidores e estender a atuação do instituto, hoje restrita a São Paulo, para o Rio de Janeiro. “Qualquer lugar com gente de boa vontade precisa do instituto para se conectar às instituições que necessitam de investimento”, diz Azzi. E assim a filantropia começa a se profissionalizar.

Katia Militello
Época Negócios, 05/07/10
Via Raquel Moreira

Helio Mattar, do Instituto Akatu no TED Global

Diretor-presidente do Akatu, Helio Mattar* fala sobre os impactos individuais no TED University, realizado dentro da programação do encontro mundial, em Oxford, na Inglaterra

Instituto Akatu
Instituto Akatu – 15/07/2010

*Helio Mattar é conselheiro do Planeta Sustentável

“Hoje, a humanidade consome todos os dias recursos naturais em volume equivalente ao de 112 Empire State Buildings. Além de excessivo, o consumo é desigual. Apenas 16% da população mundial são responsáveis por 78% desse consumo, ou seja, cada integrante dessa elite cria um enorme buraco de 32 m3 no planeta a cada ano.”

Esses foram alguns dos dados apresentados pelo diretor-presidente do Instituto Akatu, Helio Mattar, na terça-feira (13/7), em usa apresentação “Matemática dos Impactos Individuais” no TED University, evento no âmbito do TED Global.

Neste ano, o TED Global reúne, entre 12 e 16 de julho, em Oxford, na Inglaterra, profissionais de diversas áreas, pensadores, ativistas e líderes sociais com o objetivo de divulgar, partilhar e debater iniciativas positivas e inspirar novas idéias e práticas pelo planeta.

Veja os destaques apresentados pelo Akatu:

RECURSOS NATURAIS
• A humanidade consome todos os dias recursos naturais em volume equivalente ao de 112 Empire State Buildings.
• Apenas 16% da população mundial são responsáveis por 78% desse consumo.
• Ou seja, cada ser humano dessa elite que consome cria um enorme buraco de 32 m3 no planeta a cada ano.
• Se esse volume de recursos naturais fossem colocados em latas cilíndricas do tamanho de um homem adulto, com 1,80 m de altura e 1 m de base, e essas latas cilíndricas fossem empilhadas umas sobre as outras, no período de 10 anos, oito meses e 14 dias, esses cilindros alcançariam a altura do Empire State Building.
• Em 75 anos, seriam sete pilhas iguais a essa.

POUPANÇA
• A Humanidade consome em bens e serviços US$ 30,5 trilhões por ano.
• Apenas 16% da população mundial é responsável por 78% desse consumo.
• Portanto, um participante desse seleto grupo dos “16%” gasta US$ 23 mil por ano em bens e serviços.
• Se essa pessoa reduzisse apenas 15% o seu consumo anual e aplicasse o valor equivalente em um fundo de investimento que rendesse 3% ao ano, acumularia US$ 1 milhão em 75 anos.
• Se todos os 7 milhões de moradores de Londres fizerem o mesmo, acumularão US$ 7 trilhões em 75 anos, valor equivalente ao segundo PNB anual do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos e superior a tudo que se produz e se consome em gigantes como Japão, China, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Brasil, Espanha, Canadá, Índia ou Rússia.

LIXO
• Um americano ou britânico produz em média 1,3kg de lixo por dia.
• Ao longo de 75 anos, resulta em 36 toneladas de lixo.
• O lixo produzido por apenas 5 famílias com 3 crianças, ao longo de 75 anos, abarrotaria a torre do Big Ben.
• Os 7 milhões de habitantes de Londres, no mesmo período de 75 anos, demandariam 271 mil torres do Big Ben para guardar seu lixo.

CARNE
• Um americano consome em média 350 gramas de carne por dia.
• A água virtual gasta na produção desse montante de carne é de 5.300 litros.
• Se o consumo de carne de dois americanos fosse reduzido pela metade, seriam economizados 2 milhões de litros de água por ano.
• Ao longo de 75 anos, esses dois americanos economizariam 150 milhões de litros de água, volume equivalente ao de 60 piscinas olímpicas.

ÁLCOOL X GASOLINA
• Se um cidadão americano ou britânico trocar seu carro a gasolina por um carro a álcool, considerando-se que dirija 20.000 km por ano durante em média 57 anos (dos 18 aos 75 anos), vai deixar de emitir 93 toneladas de carbono ao longo desse período.
• Essa é a mesma quantidade de carbono emitida pelo lixo produzido pelo mesmo cidadão ao longo de 98 anos.
• Ou seja, ao trocar o combustível de seu carro, um único indivíduo neutraliza o carbono emitido pelo seu lixo durante um período mais longo do que o de sua própria vida.

ÁGUA
• Se um americano médio reduzir seu consume de água em 50%, ainda irá consumir 150% acima do montante recomendado pelas Nações Unidas.
• Mesmo assim, o montante de água economizada durante os 76 anos de sua vida seria equivalente a aproximadamente o volume de 3 piscinas olímpicas.
• Se 22 americanos fizerem o mesmo, o montante de água economizado durante os 76 anos de suas vidas seria equivalente ao volume de água que cai pelas Cataratas do Iguaçu durante um período de um minuto durante a alta estação.

Carl Hoffman e o transporte precário no mundo

O jornalista Carl Hoffman reúne, no livro “The Lunatic Express”, a experiência de 159 dias viajando por 16 países, incluindo o Brasil, em transportes precários. Vagões superlotados, ônibus em má conservação e balsas sem condições de segurança são alguns exemplos citados na obra diário de bordo

Marcia Bindo
Revista Vida Simples – 07/2010

Acostumado a conhecer os veículos mais tecnológicos e sustentáveis do mundo e escrever sobre eles para as principais revistas americanas, o jornalista Carl Hoffman resolveu voltar seus olhos para uma realidade que nada tem a ver com designs futuristas, combustíveis alternativos ou motores elétricos. Em uma viagem por Bangladesh, ele se deu conta de que muita gente ainda precisa usar transportes precários para se deslocar.

Para mostrar o outro lado dessa questão, ele passou 159 dias viajando por 16 países (Brasil, inclusive): em vagões superlotados pela Índia, em ônibus caindo aos pedaços pelos Andes e balsas sem as mínimas condições de segurança pela Indonésia. Sempre trocando as viagens confortáveis e cômodas pelos deslocamentos perigosos e reais. “Cheguei a passar 50 horas em um trem sem banheiro para atravessar o Mali”, conta ele, que transformou sua odisseia no livro The Lunatic Express (“O expresso lunático”, sem tradução no Brasil), recém-lançado no Canadá e nos EUA.

O título é uma referência à aventura radical que Hoffman diz ter empreendido nesses cinco meses. “Só um lunático poderia se dispor a viajar nessas condições, não é? O problema é que é uma realidade de milhões, que convive com a indústria dos veículos modernos e confortáveis”.

Link da matéria:
The Lunatic Express

Kombi Alice: projeto promove a inserção cultural

A bordo da kombi apelidada de “Alice”, o casal Franco e Inês viajam, desde maio, pelo interior do país para incentivar a inserção cultural de comunidades do interior do Brasil, em três linguagens: literatura, cinema e fotografia. A aventura pode ser acompanhada pelo site do projeto

Marcia Bindo
Revista Vida Simples – 07/2010

Inês é pedagoga, Franco é analista de sistemas e Alice, bem, ela é a simpática Kombi da foto. Em comum, os três têm o gosto pela aventura. Inês Calixto, referência quando se fala de formação de professores, trabalhava numa grande editora de livros educativos. Mas nem o seu coração havia o desejo de entrar em contato mais próximo com a cultura popular, trocar experiências com comunidades, ensinar a quem está ávido de conhecimentos. Franco Hoff, por sua vez, é um gaúcho que tem paixão por fotografia e esportes radicais. Acharam Alice na internet, uma Kombi que já veio com adesivos coloridos e uma vocação para a estrada. Imaginaram criar uma oficina de fotografia, apresentar um espetáculo de marionetes e exibir filmes pelas cidades onde passassem.

Assim, agradeceriam os relatos dos seus habitantes, que contariam para eles suas histórias e experiências de vida. Com esse material, os dois poderiam fazer um rico diário de bordo, na verdade um retrato da gente do Brasil de hoje. Inês teve o total apoio da editora, Franco foi despedido. Mas começaram a chegar os (ainda) pequenos apoiadores do projeto e eles acreditam que, no futuro, vai entrar um dinheirinho com a publicação das suas experiências. Inês está com seus 48 anos, Franco com pouco menos. Sinal de que não há idade para abandonar o conhecido e ir atrás do que se quer.

Para acompanhar as peripécias dos dois, que saíram no dia 25 de maio pelo interior de São Paulo para uma aventura inicial, visite o site histórias de Alice.

Link da matéria:
Histórias de Alice

Festival Internacional I Love Jazz 2010

Acontece entre os dias 30 de julho e 8 de agosto em quatro capitais

Na década de 1910, surgia nos Estados Unidos um novo tipo de música, como consequência do encontro de influências entre os valores do negro americano e a cultura europeia. Nascia ali o jazz. Desde então, o ritmo passou por diversas modificações e incorporou uma série de influências, tornando-se ora mais reflexivo, ora mais dançante. E é exatamente essa última, a vertente celebrada na segunda edição do Festival Internacional I Love Jazz, evento que ocorre entre os dias 30 de julho e 8 de agosto em quatro capitais brasileiras: Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.
O I Love Jazz tem como objetivo difundir o jazz tradicional, promover uma maior participação popular e desmitificar o estilo, popularizando uma música por muitos considerada sofisticada e hermética. Por isso, o festival inclui em seu formato apresentações gratuitas em lugares de grande circulação. O evento também tem o intuito de estimular um maior intercâmbio entre artistas brasileiros e estrangeiros, com a realização de Jam Sessions, que são reuniões de músicos de bandas diferentes para improvisar temas de jazz. Outro objetivo é gerar uma maior participação de jovens, estudantes e interessados em arte em geral, com palestras, master classes, cursos, oficinas, pocket shows e outras intervenções.
A primeira edição do I Love Jazz aconteceu em 2009 e contou com a participação de artistas nacionais e internacionais de renome na cena musical. Para esse ano, o evento vai focar o jazz dos anos 1920 a 1940. Segundo o diretor geral e curador do evento, Marcelo Costa, é um ritmo conhecido por ser mais popular, irreverente, divertido e dançante. “É um estilo que eu particularmente adoro e foi o estilo predominante à época no mundo todo. Agrada a qualquer tipo de pessoa”, diz.
Outro motivo para a escolha é o fato de os eventos musicais de jazz não focarem essa época. “Normalmente, os festivais que a gente conhece são de jazz moderno ou abrangem todas as fases do jazz, com ênfase no moderno”, explica Marcelo. Com isso, o curador pretende desmistificar a imagem do ritmo como elitista e como música para pessoas mais conservadoras.
Para isso, além da ênfase nas décadas de 1920 a 1940, os organizadores do evento se apoiaram em importantes nomes da cena musical atual. Judy Carmichael é um deles. A pianista norte-americana mistura diferentes estilos de jazz e já foi indicada ao Grammy pelo seu disco “Two Handed Stride”. Outro nome importante – e inédito no Brasil – é Claude Tissendier. O francês é regente, compositor e arranjador, mas se destaca mesmo no saxofone alto. O artista já gravou 15 álbuns e ganhou diversos prêmios. Entre os artistas brasileiros, destaca-se Elza Soares, segundo o curador Marcelo Santos, “a mais jazzista das cantoras brasileiras”.

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