Uma jornalista na Libéria

As experiências vividas durante 30 dias na África pela repórter Maria Carolina Balro, em um país pós-guerra, mostram que ainda há muito o que fazer

Maria Carolina Balro
Revista Bons Fluidos – 07/2010

Quando decidi ir para a Libéria, o cenário de um país pós-guerranão me assustou. O que mais me motivou foi a certeza de umsonho realizado – estar no meio das crianças e entender suas maiores necessidades. Antes de embarcar, passei por uma consulta médica na Medicina do Viajante, no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, o que é primordial para quem vai a países e continentes que esbanjam diversas doenças.

Os médicos me deram toda a assistência, explicando os riscos aos quais eu estaria exposta e, além disso, tomei as vacinas necessárias, contra febre amarela, febre tifoide, tétano, raiva, cólera, hepatite A e B, entre tantas outras.

O que me assustava era a grande incidência de malária, pois contra ela não existe vacina. Na África, a malária é a doença que mais mata, seguida da AIDS. Depois de vacinada, lá fui eu, rumo à Libéria, um dos países mais pobres do planeta. Mesmo com tantas precauções, acabei pegando a doença. Os sintomas são como os de uma gripe. A minha sorte foi ter descoberto a malaria no início, assim posso dizer que “nem sofri tanto”. Entre picos de febre e um cansaço excessivo, você fica um pouco fora de sintonia. Foram três dias de medicação intensa e, em média, 10 dias para melhorar 100%.

GUERRA SANGRENTA
No século 19, os Estados Unidos não sabiam o que fazer com seus ex-escravos. Eles pensavam em criar uma colônia na África e levá-los para lá, mas acabaram fundando a Sociedade Americana de Colonização, que tinha como objetivo mandar os negros para essa nova colônia, no caso, a Libéria. Em 1820, foi enviada a primeira leva de emigrantes. Mas o que os americanos não esperavam é que isso causasse um grande conflito entre os locais e os ex-escravos, que teriam de dividir o mesmo território, disputando forças políticas e econômicas. Conclusão, em pouco tempo começaram os choques, dando início à triste história do país. Foram duas guerras civis, a primeira entre 1989 e 1996, e a segunda de 1999 a 2003. Resultado: mais de 250 mil mortos e mais de um milhão de refugiados. Em 2003, tropas dos EUA e da ONU intervieram para tentar acabar com a guerra e desarmar a população. O objetivo foi atingido e, em 2006, foi eleita a atual presidente Ellen Johnson-Sirleaf, primeira mulher no continente africano a ocupar esse cargo. Hoje, o principal desafio do país é continuar a se reerguer.

DESEMBARCANDO EM MONRÓVIA
Depois de várias escalas, desembarquei em Monróvia, a capital da Libéria, no estado de Montserrado. A cidade tem, aproximadamente, 1,5 milhão de habitantes. Cheguei de madrugada e a única coisa que notei foi a escuridão que pairava no ar (o país não tem rede de energia elétrica porque as usinas foram destruídas durante a guerra). No dia seguinte, foi a vez de conhecer de perto onde eu estava pisando. A ficha logo caiu quando a primeira tentativa de tomar banho quente falhou. Energia elétrica só com gerador (para os que têm condições de ter um, claro). As ratoeiras na cozinha da casa onde fiquei também me deram as boas-vindas à realidade. Como a cidade vive entre escombrose não tem saneamento básico, ratos e baratas são visitas comuns a todos. Eu fiquei impressionada com o calor e a umidade do país, que chega a 90%. A água brota pelos poros e você sua sem parar. Antes de ir ao centro da cidade, percorri as ruas do bairro, para me familiarizar com os meus novos vizinhos. Eu poderia dizer que era como se estivesse em uma grande favela. A comparação não é em um sentido pejorativo, e sim estrutural, porque as ruas são de terra, as casas combinam um pot-pourri de telhas, alumínio, barro batido, bambu econstruções semidestruídas, mulheres lavando roupas nas bacias, crianças brincando com areia, em um cenário de pobreza atroz. Porém, o sorriso que cada um abria ao me ver quebrava qualquer tipo de insegurança e me confortava, pois eu percebia que era muito bem vinda.

No entanto, esse cenário mudou quando cheguei ao centro da cidade. O impacto que a guerra deixou no país é nítido. Lá encontrei pessoas mutiladas, pedintes, ruas cheias de carros, sem semáforos, ambulantes e rostos não tão simpáticos e sorridentes. O que não me desmotivou, pois é totalmente compreensível, já que a realidade deles é uma só – sobreviver em meio às condições atuais. O meio de transporte é compartilhado. Não existe ônibus e eles usam o táxi – lotado – para ir e vir. Cada carro leva cinco passageiros. Outra maneira de locomoção são as caronas de moto.

TROCA DE EXPERIÊNCIAS
O trabalho voluntário que eu fiz foi em uma escola chamada Phillips Preparatory School, de ensino fundamental. Apesar de particular, ela se mostrou totalmente sem estrutura. Falta luz, as salas de aula são de cimento aparente e têm apenas o recorte de portas e janelas. Eu ficava na classe dos alunos entre 5 e 6 anos e, todas as manhãs, em pé, eles me cumprimentavam em coro, dizendo: “Bom dia, Maria, como você está hoje?”. Muito diferente das atividades escolares do Brasil, as aulas eram pouco dinâmicas e lúdicas. No dia a dia, a professora responsável pela classe (e eu junto com ela) repassava a lição da lousa, misturando um pouco de raciocínio com exercícios simples de matemática.

Também ensinava regras gramaticais e como dizer o nome da fruta desenhada na lousa. Fora isso, as crianças cantavam o alfabeto e aprendiam músicas educativas. Formas geométricas e cores estavam em desenhos pelas paredes e sempre eram revisadas. Aos poucos, fui trazendo novas ideias. As crianças não tinham o hábito de desenhar, e essa foi uma das minhas sugestões. Todas as segundas-feiras elas teriam de colocar no papel o que haviam feito no final de semana. Também plantei uma semente de feijão no algodão para mostrar como ele cresce e se desenvolve. Explorei o pátio com brincadeiras coletivas, um jeito de estar mais próxima deles e ensiná-los a noção de espaço e troca, saber ganhar ou perder. Quando eu não sugeria uma atividade nova, as crianças ficavam na maior bagunça e o momento de controlar isso era quando a professora falava mais alto e ameaçava com uma varinha de madeira. Interessante é o método que eles ainda usam para “castigar” os alunos, que ficam ajoelhados na classe, em pé com o rosto virado para a parede,ou atrás da porta. Outro grave problema é a noção de higiene. A regra é: os pequenos usam como banheiro uma área reservada do pátio, queimada no final do dia. Além disso, cada classe recebe um balde de plástico cheio e uma única caneca. A criança com sede vai até o balde, enche o copo e bebe.

DOIS MUNDOS EM UM ÚNICO PAÍS
É por isso que a Libéria recebe apoio e investimento de diversas ONG’s. São mais de 60 espalhadas pelos 15 estados do país. Algumas evoluções já são notáveis, como o desarmamento e a não violência. Outras, porém, ainda precisam de muito trabalho para mudar. A questão do saneamento e de doenças é extremamente precária. Imagine que eu e mais três jornalistas que trabalham para a ONG canadense Journalists for Human Rights acompanhamos cerca de 20 jornalistas liberianos em uma visita à cidade de Buchanan, no estado de Grand Bassa, para fazer uma material sobre a situação de higiene em que o povo vive. Para a nossa surpresa, identificamos que ainda existem pessoas que não têm, sequer, um único banheiro. Todas as necessidades são feitas no mar.

Consequência disso? Na Libéria, 2,9 milhões de habitantes, de uma população de 3,5 milhões, não têm acesso a instalações sanitárias e apenas uma em cada quatro pessoas tem água tratada, enquanto apenas uma entre sete tem condições saudáveis de higiene. Água, solo, peixe, tudo contaminado. Igualmente chocante é saber que muitos ainda não têm acesso à água potável. Nossa visita a Buchanan resultou em dezenas de artigos publicados, com o objetivo de alertar a população e ajudar a pressionar o governo e os políticos a tomarem medidas urgentes. Com a entrada da ONU na Libéria, em 2003, começou a se instalar uma economia paralela, devido às necessidades dos expatriados. Hotéis, supermercados com produtos importados, restaurantes, bares e outros entretenimentos são luxo apenas para alguns. É um tanto contraditório saber que são os estrangeiros trabalhando em empresas voltadas ao desenvolvimento, ONG’s e a ONU os principais responsáveis por criar essa demanda.

Realmente, eu seria injusta se dissesse que passei qualquer necessidade. Quem mais ganhou com a experiência fui eu. Recebida com o que eles têm de melhor – um sorriso largo que se destaca na pele negra e reflete o brilho de um olhar simpatico e sincero, de um povo que é pura alegria e não tem medo de reconstruir.

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