A necessidade das pessoas de manter e controlar coisas, num mundo cada vez mais volátil e incontrolável
Luiz Alberto Marinho*
Revista Vida Simples – 07/2010
Você certamente conhece alguém que está colecionando as figurinhas da Copa. Talvez tenha até mesmo embarcado nessa onda. A verdade é que a febre do álbum com as figurinhas dos jogadores e das seleções que disputam o torneio na África do Sul contagiou brasileiros e brasileiras, de todas as idades e classes sociais.
A coisa tomou tal proporção que em abril criminosos invadiram uma distribuidora em São Paulo e roubaram cerca de 135 mil figurinhas, que foram depois recuperadas. Eles queriam revender no mercado clandestino. O mais curioso é que a moda vem de longe, de outras longínquas Copas do Mundo. Recentemente, um cartão de crédito colocou no ar um comercial que mostra o encontro casual de um rapaz com Pelé no bar de uma pequena cidade. No filme, o moço conversa rapidamente com o craque e corre em seguida para comprar uma camisa da seleção e uma bola de futebol. Volta, pede ao ídolo para vestir a camisa e tira uma foto, que leva revelada para o pai. Era a figurinha que faltava no velho álbum da Copa de 70. A propaganda ajuda a explicar que essa mania resiste ao tempo e às modernidades digitais – hoje as trocas de cromos repetidos são feitas também, veja só, pela internet.
Mas, afinal, por que as pessoas gostam tanto de colecionar coisas? Para alguns, é uma forma de investimento – estou falando dos que acumulam obras de arte, antiguidades, moedas raras. Para outros, que colecionam carros, relógios e até namoradas famosas, isso é uma forte demonstração de poder. Tem ainda aqueles que lutam para não deixar que o passado e as lembranças escorram por entre os dedos, guardando caixas de fósforos, latas antigas de cerveja, velhas cartas ou cartões-postais de várias partes do mundo, nas quais estiveram ou desejaram estar.
A maior parte dos colecionadores diz que faz isso simplesmente porque é divertido. Psicólogos, entretanto, explicam que colecionar pode ser uma manifestação inconsciente da necessidade que as pessoas sentem hoje em dia de manter e controlar coisas, num mundo cada vez mais volátil e incontrolável.
Pessoalmente, acho que todas as explicações se somam. Colecionar possui uma evidente conotação de nostalgia, mas pode proporcionar a sensação de poder e também é divertido. As figurinhas da Copa oferecem, além disso tudo, a ingênua e poderosa ilusão de reter eternamente um momento mágico da história esportiva.
O risco é não completar o álbum e assim produzir inadvertidamente uma angustiante metáfora – a de que, por mais que nos esforcemos, sempre vai faltar algo mais às nossas vidas.
*Luiz Alberto Marinho atualmente não coleciona nada – e acha que está bem assim.
