Aula cronometrada

Com um método já aplicado em países de bom ensino, o Brasil começa a investigar o dia a dia nas escolas

Roberta de Abreu Lima
Revista Veja – 23/06/2010

As avaliações oficiais para medir o nível do ensino no Brasil têm se prestado bem ao propósito de lançar luz sobre os grandes problemas da educação – mas não fornecem resposta a uma questão básica, que se faz necessária diante da sucessão de resultados tão ruins: por que, afinal, as aulas não funcionam? Muito já se fala disso com base em impressões e teoria, mas só agora o dia a dia de escolas brasileiras começa a ser descortinado por meio de um rigoroso método científico, tal como ocorre em países de melhor ensino. Munidos de cronômetros, os especialistas se plantam no fundo da sala não apenas para observar, mas também para registrar, sistematicamente, como o tempo de aula é despendido. Tais profissionais, em geral das próprias redes de ensino, já percorreram 400 escolas públicas no país, entre Minas Gerais, Pernambuco e Rio de Janeiro. Em Minas, primeiro estado a adotar o método, em 2009, os cronômetros expuseram um fato espantoso: com aulas monótonas baseadas na velha lousa, um terço do tempo se esvai com a indisciplina e a desatenção dos alunos. Equivale a 56 dias inteiros perdidos num só ano letivo.

Já está provado que a investigação contínua sobre o que acontece na sala de aula guarda relação direta com o progresso acadêmico. Ocorre, antes de tudo, porque tal acompanhamento permite mapear as boas práticas, nas quais os professores devem se mirar – e ainda escancara os problemas sob uma ótica bastante realista. Resume a especialista Maria Helena Guimarães: “Monitorar a sala de aula é um avanço, à medida que ajuda a entender, na minúcia, as razões para a ineficácia”. Não é de hoje que países da OCDE (organização que reúne os mais ricos) investem nessas incursões à escola. Os americanos chegam a filmar as aulas. O material é até submetido aos professores, que são confrontados com suas falhas e insucessos. Das visitas que fez a escolas nos Estados Unidos, o pedagogo Doug Lemov depreendeu algo que a breve experiência brasileira já sinaliza: “Os professores perdem tempo demais com assuntos irrelevantes e se revelam incapazes de atrair a atenção de alunos repletos de estímulos e inseridos na era digital”.

Numa manifestação de flagrante corporativismo, os professores brasileiros chegaram a se insurgir contra a presença dos avaliadores dentro da sala de aula. Em Pernambuco, o sindicato rotulou a prática de “patrulhamento” e “repressão”. Note-se que são os próprios professores que preferem passar ao largo daquilo que a experiência – e agora as pesquisas – prova ser crucial: conhecer a fundo a sala de aula. Treinados pelo Banco Mundial, os técnicos já se puseram a colher informações valiosas. Afirma a secretária de educação do Rio de Janeiro, Claudia Costin: “Pode-se dizer que o cruzamento das avaliações oficiais com um panorama tão detalhado da sala de aula revelará nossas fragilidades como nunca antes”. Nesse sentido, os cronômetros são um necessário passo para o Brasil deixar a zona do mau ensino.

Os colecionadores

A necessidade das pessoas de manter e controlar coisas, num mundo cada vez mais volátil e incontrolável

Luiz Alberto Marinho*
Revista Vida Simples – 07/2010

Você certamente conhece alguém que está colecionando as figurinhas da Copa. Talvez tenha até mesmo embarcado nessa onda. A verdade é que a febre do álbum com as figurinhas dos jogadores e das seleções que disputam o torneio na África do Sul contagiou brasileiros e brasileiras, de todas as idades e classes sociais.

A coisa tomou tal proporção que em abril criminosos invadiram uma distribuidora em São Paulo e roubaram cerca de 135 mil figurinhas, que foram depois recuperadas. Eles queriam revender no mercado clandestino. O mais curioso é que a moda vem de longe, de outras longínquas Copas do Mundo. Recentemente, um cartão de crédito colocou no ar um comercial que mostra o encontro casual de um rapaz com Pelé no bar de uma pequena cidade. No filme, o moço conversa rapidamente com o craque e corre em seguida para comprar uma camisa da seleção e uma bola de futebol. Volta, pede ao ídolo para vestir a camisa e tira uma foto, que leva revelada para o pai. Era a figurinha que faltava no velho álbum da Copa de 70. A propaganda ajuda a explicar que essa mania resiste ao tempo e às modernidades digitais – hoje as trocas de cromos repetidos são feitas também, veja só, pela internet.

Mas, afinal, por que as pessoas gostam tanto de colecionar coisas? Para alguns, é uma forma de investimento – estou falando dos que acumulam obras de arte, antiguidades, moedas raras. Para outros, que colecionam carros, relógios e até namoradas famosas, isso é uma forte demonstração de poder. Tem ainda aqueles que lutam para não deixar que o passado e as lembranças escorram por entre os dedos, guardando caixas de fósforos, latas antigas de cerveja, velhas cartas ou cartões-postais de várias partes do mundo, nas quais estiveram ou desejaram estar.

A maior parte dos colecionadores diz que faz isso simplesmente porque é divertido. Psicólogos, entretanto, explicam que colecionar pode ser uma manifestação inconsciente da necessidade que as pessoas sentem hoje em dia de manter e controlar coisas, num mundo cada vez mais volátil e incontrolável.

Pessoalmente, acho que todas as explicações se somam. Colecionar possui uma evidente conotação de nostalgia, mas pode proporcionar a sensação de poder e também é divertido. As figurinhas da Copa oferecem, além disso tudo, a ingênua e poderosa ilusão de reter eternamente um momento mágico da história esportiva.

O risco é não completar o álbum e assim produzir inadvertidamente uma angustiante metáfora – a de que, por mais que nos esforcemos, sempre vai faltar algo mais às nossas vidas.

*Luiz Alberto Marinho atualmente não coleciona nada – e acha que está bem assim.

Uma jornalista na Libéria

As experiências vividas durante 30 dias na África pela repórter Maria Carolina Balro, em um país pós-guerra, mostram que ainda há muito o que fazer

Maria Carolina Balro
Revista Bons Fluidos – 07/2010

Quando decidi ir para a Libéria, o cenário de um país pós-guerranão me assustou. O que mais me motivou foi a certeza de umsonho realizado – estar no meio das crianças e entender suas maiores necessidades. Antes de embarcar, passei por uma consulta médica na Medicina do Viajante, no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, o que é primordial para quem vai a países e continentes que esbanjam diversas doenças.

Os médicos me deram toda a assistência, explicando os riscos aos quais eu estaria exposta e, além disso, tomei as vacinas necessárias, contra febre amarela, febre tifoide, tétano, raiva, cólera, hepatite A e B, entre tantas outras.

O que me assustava era a grande incidência de malária, pois contra ela não existe vacina. Na África, a malária é a doença que mais mata, seguida da AIDS. Depois de vacinada, lá fui eu, rumo à Libéria, um dos países mais pobres do planeta. Mesmo com tantas precauções, acabei pegando a doença. Os sintomas são como os de uma gripe. A minha sorte foi ter descoberto a malaria no início, assim posso dizer que “nem sofri tanto”. Entre picos de febre e um cansaço excessivo, você fica um pouco fora de sintonia. Foram três dias de medicação intensa e, em média, 10 dias para melhorar 100%.

GUERRA SANGRENTA
No século 19, os Estados Unidos não sabiam o que fazer com seus ex-escravos. Eles pensavam em criar uma colônia na África e levá-los para lá, mas acabaram fundando a Sociedade Americana de Colonização, que tinha como objetivo mandar os negros para essa nova colônia, no caso, a Libéria. Em 1820, foi enviada a primeira leva de emigrantes. Mas o que os americanos não esperavam é que isso causasse um grande conflito entre os locais e os ex-escravos, que teriam de dividir o mesmo território, disputando forças políticas e econômicas. Conclusão, em pouco tempo começaram os choques, dando início à triste história do país. Foram duas guerras civis, a primeira entre 1989 e 1996, e a segunda de 1999 a 2003. Resultado: mais de 250 mil mortos e mais de um milhão de refugiados. Em 2003, tropas dos EUA e da ONU intervieram para tentar acabar com a guerra e desarmar a população. O objetivo foi atingido e, em 2006, foi eleita a atual presidente Ellen Johnson-Sirleaf, primeira mulher no continente africano a ocupar esse cargo. Hoje, o principal desafio do país é continuar a se reerguer.

DESEMBARCANDO EM MONRÓVIA
Depois de várias escalas, desembarquei em Monróvia, a capital da Libéria, no estado de Montserrado. A cidade tem, aproximadamente, 1,5 milhão de habitantes. Cheguei de madrugada e a única coisa que notei foi a escuridão que pairava no ar (o país não tem rede de energia elétrica porque as usinas foram destruídas durante a guerra). No dia seguinte, foi a vez de conhecer de perto onde eu estava pisando. A ficha logo caiu quando a primeira tentativa de tomar banho quente falhou. Energia elétrica só com gerador (para os que têm condições de ter um, claro). As ratoeiras na cozinha da casa onde fiquei também me deram as boas-vindas à realidade. Como a cidade vive entre escombrose não tem saneamento básico, ratos e baratas são visitas comuns a todos. Eu fiquei impressionada com o calor e a umidade do país, que chega a 90%. A água brota pelos poros e você sua sem parar. Antes de ir ao centro da cidade, percorri as ruas do bairro, para me familiarizar com os meus novos vizinhos. Eu poderia dizer que era como se estivesse em uma grande favela. A comparação não é em um sentido pejorativo, e sim estrutural, porque as ruas são de terra, as casas combinam um pot-pourri de telhas, alumínio, barro batido, bambu econstruções semidestruídas, mulheres lavando roupas nas bacias, crianças brincando com areia, em um cenário de pobreza atroz. Porém, o sorriso que cada um abria ao me ver quebrava qualquer tipo de insegurança e me confortava, pois eu percebia que era muito bem vinda.

No entanto, esse cenário mudou quando cheguei ao centro da cidade. O impacto que a guerra deixou no país é nítido. Lá encontrei pessoas mutiladas, pedintes, ruas cheias de carros, sem semáforos, ambulantes e rostos não tão simpáticos e sorridentes. O que não me desmotivou, pois é totalmente compreensível, já que a realidade deles é uma só – sobreviver em meio às condições atuais. O meio de transporte é compartilhado. Não existe ônibus e eles usam o táxi – lotado – para ir e vir. Cada carro leva cinco passageiros. Outra maneira de locomoção são as caronas de moto.

TROCA DE EXPERIÊNCIAS
O trabalho voluntário que eu fiz foi em uma escola chamada Phillips Preparatory School, de ensino fundamental. Apesar de particular, ela se mostrou totalmente sem estrutura. Falta luz, as salas de aula são de cimento aparente e têm apenas o recorte de portas e janelas. Eu ficava na classe dos alunos entre 5 e 6 anos e, todas as manhãs, em pé, eles me cumprimentavam em coro, dizendo: “Bom dia, Maria, como você está hoje?”. Muito diferente das atividades escolares do Brasil, as aulas eram pouco dinâmicas e lúdicas. No dia a dia, a professora responsável pela classe (e eu junto com ela) repassava a lição da lousa, misturando um pouco de raciocínio com exercícios simples de matemática.

Também ensinava regras gramaticais e como dizer o nome da fruta desenhada na lousa. Fora isso, as crianças cantavam o alfabeto e aprendiam músicas educativas. Formas geométricas e cores estavam em desenhos pelas paredes e sempre eram revisadas. Aos poucos, fui trazendo novas ideias. As crianças não tinham o hábito de desenhar, e essa foi uma das minhas sugestões. Todas as segundas-feiras elas teriam de colocar no papel o que haviam feito no final de semana. Também plantei uma semente de feijão no algodão para mostrar como ele cresce e se desenvolve. Explorei o pátio com brincadeiras coletivas, um jeito de estar mais próxima deles e ensiná-los a noção de espaço e troca, saber ganhar ou perder. Quando eu não sugeria uma atividade nova, as crianças ficavam na maior bagunça e o momento de controlar isso era quando a professora falava mais alto e ameaçava com uma varinha de madeira. Interessante é o método que eles ainda usam para “castigar” os alunos, que ficam ajoelhados na classe, em pé com o rosto virado para a parede,ou atrás da porta. Outro grave problema é a noção de higiene. A regra é: os pequenos usam como banheiro uma área reservada do pátio, queimada no final do dia. Além disso, cada classe recebe um balde de plástico cheio e uma única caneca. A criança com sede vai até o balde, enche o copo e bebe.

DOIS MUNDOS EM UM ÚNICO PAÍS
É por isso que a Libéria recebe apoio e investimento de diversas ONG’s. São mais de 60 espalhadas pelos 15 estados do país. Algumas evoluções já são notáveis, como o desarmamento e a não violência. Outras, porém, ainda precisam de muito trabalho para mudar. A questão do saneamento e de doenças é extremamente precária. Imagine que eu e mais três jornalistas que trabalham para a ONG canadense Journalists for Human Rights acompanhamos cerca de 20 jornalistas liberianos em uma visita à cidade de Buchanan, no estado de Grand Bassa, para fazer uma material sobre a situação de higiene em que o povo vive. Para a nossa surpresa, identificamos que ainda existem pessoas que não têm, sequer, um único banheiro. Todas as necessidades são feitas no mar.

Consequência disso? Na Libéria, 2,9 milhões de habitantes, de uma população de 3,5 milhões, não têm acesso a instalações sanitárias e apenas uma em cada quatro pessoas tem água tratada, enquanto apenas uma entre sete tem condições saudáveis de higiene. Água, solo, peixe, tudo contaminado. Igualmente chocante é saber que muitos ainda não têm acesso à água potável. Nossa visita a Buchanan resultou em dezenas de artigos publicados, com o objetivo de alertar a população e ajudar a pressionar o governo e os políticos a tomarem medidas urgentes. Com a entrada da ONU na Libéria, em 2003, começou a se instalar uma economia paralela, devido às necessidades dos expatriados. Hotéis, supermercados com produtos importados, restaurantes, bares e outros entretenimentos são luxo apenas para alguns. É um tanto contraditório saber que são os estrangeiros trabalhando em empresas voltadas ao desenvolvimento, ONG’s e a ONU os principais responsáveis por criar essa demanda.

Realmente, eu seria injusta se dissesse que passei qualquer necessidade. Quem mais ganhou com a experiência fui eu. Recebida com o que eles têm de melhor – um sorriso largo que se destaca na pele negra e reflete o brilho de um olhar simpatico e sincero, de um povo que é pura alegria e não tem medo de reconstruir.

O Matilha Cultural de Ricardo Costa

Apaixonado por cultura urbana, Ricardo Costa criou, no centro de São Paulo, o espaço Matilha Cultural, com área para performances artísticas, exposições e, ainda, exibições de teatro e cinema

De jeitão, Ricardo Costa é bem mano. Mas um mano descoladoe antenado com as manifestações culturais urbanas do planeta. Criado entre manobras de skate nas ruas de São Paulo, ao som do hip hop e na estética dos grafites, ele é um apaixonado pela cultura urbana. Seu olhar único também é fruto de uma educação diferenciada. Adolescente, abandonou a escola formal para se dedicar à filosofia: “Fazia todo e qualquer curso que pudesse, relacionado ao assunto, especialmente na Associação Palas Athena”, diz.

Mais tarde, apaixonou-se por cinema e, apoiado pelos pais, fez vários cursos aqui e nos Estados Unidos. Na volta, criou o Matilha Cultural, espaço para performances, galeria de arte, sala de teatro e cinema e café no centro de São Paulo. As paredes da galeria podem mostrar uma exposição de fotógrafos sobre como a guerra afeta a vida das pessoas comuns e o cinema vai de fi lme iraniano até documentários inéditos aqui.

E o Talking Boteco traz conversas comartistas de coletivos ou autores ainda pouco conhecidos. Tambémvale a pena participar de suas campanhas de meio ambiente ou de uso de vagas de estacionamento para atividades artísticas nos fi ns de semana.

Dê uma espiada: Matilha cultural

De jeitão, Ricardo Costa é bem mano. Mas um mano descoladoe antenado com as manifestações culturais urbanas do planeta. Criado entre manobras de skate nas ruas de São Paulo, ao som do hip hop e na estética dos grafites, ele é um apaixonado pela cultura urbana. Seu olhar único também é fruto de uma educação diferenciada. Adolescente, abandonou a escola formal para se dedicar à filosofia: “Fazia todo e qualquer curso que pudesse, relacionado ao assunto, especialmente na Associação Palas Athena”, diz.

Mais tarde, apaixonou-se por cinema e, apoiado pelos pais, fez vários cursos aqui e nos Estados Unidos. Na volta, criou o Matilha Cultural, espaço para performances, galeria de arte, sala de teatro e cinema e café no centro de São Paulo. As paredes da galeria podem mostrar uma exposição de fotógrafos sobre como a guerra afeta a vida das pessoas comuns e o cinema vai de fi lme iraniano até documentários inéditos aqui.

E o Talking Boteco traz conversas comartistas de coletivos ou autores ainda pouco conhecidos. Tambémvale a pena participar de suas campanhas de meio ambiente ou de uso de vagas de estacionamento para atividades artísticas nos fi ns de semana.

Dê uma espiada: Matilha cultural

VotenaWeb: política em um click

Para manter a população informada sobre tudo o que está acontecendo no Congresso Nacional, o portal VotenaWeb transcreve, em uma linguagem mais acessível, os Projetos de Lei que estão sendo votados e explica como eles podem interferir na nossa vida

Como uma forma de fazer nosso voto valer sempre, e não apenas nas eleições, um grupo de ativistas criou o portal VotenaWeb .O site busca transcrever todas as leis que estão no Congresso Nacional para que o cidadão possa entendê-las de forma objetiva – e saber como elas interferem em sua vida. O usuário ainda pode usar o mouse para dizer se concorda ou não com essas leis e fazer comentários sobre elas.

“Uma ferramenta que esboça um mapa do desejo do cidadão que pode ter, sim, uma força dentro do cenário político nacional”, diz Priscila Marcenes, coordenadora do projeto. Com o tempo, o usuário consegue fazer um comparativo sobre o que os politicos em quem ele votou estão fazendo e se vale votar neles novamente.
E, para saber quanto vale um político, a Bovap (Bolsa de Valores Políticos) usa a lógica do mercado de ações para negociar a imagem de deputados, governadores etc.

Você se cadastra no site e recebe 50000 UVPs (Unidades de Valor Político) para começar e investir nos valores politicos em que você acredita. Por isso, não espere mais quatro anos para participar e fazer valer sua opinião.

Veja também:

Como ser um cidadão ativo, via internet

Como uma forma de fazer nosso voto valer sempre, e não apenas nas eleições, um grupo de ativistas criou o portal VotenaWeb .O site busca transcrever todas as leis que estão no Congresso Nacional para que o cidadão possa entendê-las de forma objetiva – e saber como elas interferem em sua vida. O usuário ainda pode usar o mouse para dizer se concorda ou não com essas leis e fazer comentários sobre elas.

“Uma ferramenta que esboça um mapa do desejo do cidadão que pode ter, sim, uma força dentro do cenário político nacional”, diz Priscila Marcenes, coordenadora do projeto. Com o tempo, o usuário consegue fazer um comparativo sobre o que os politicos em quem ele votou estão fazendo e se vale votar neles novamente.
E, para saber quanto vale um político, a Bovap (Bolsa de Valores Políticos) usa a lógica do mercado de ações para negociar a imagem de deputados, governadores etc.

Você se cadastra no site e recebe 50000 UVPs (Unidades de Valor Político) para começar e investir nos valores politicos em que você acredita. Por isso, não espere mais quatro anos para participar e fazer valer sua opinião.

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A voz das avós

Dos quatro cantos do mundo, elas se reuniram para formar o Conselho Internacional das Treze Avós Nativas. Dedicadas a preservar a sabedoria de nossos ancestrais indígenas, caminham com graça na corda bamba entre a política e a espiritualidade

José Augusto Lemos
Revista Vida Simples – 05/2010

“Vida simples?”, ecoa a senhora lakota Rita Long Visitor Holy Dance. Arregala os olhos e sorri, surpresa com o nome da revista para a qual está dando entrevista. Aí o sorriso desaparece e seu olhar fecha o foco. “Nossa vida é assim mesmo, beeem simples!”, emenda ela, em tom de ênfase, com a cara mais séria do mundo – como se fosse impensável querer viver de outra forma.

Mas complicação é o que não falta para o povo lakota, conhecido por seu Grande Chefe Touro Sentado, guerreiro-xamã que acabou com o general Custer em uma das mais célebres batalhas da história americana. A vitória não adiantou muito. Como praticamente todas as nações indígenas do planeta, os lakotas tiveram território e soberania usurpados a ferro e fogo. Ainda hoje, lutam contra barbaridades como a contaminação das águas de sua reserva, no estado de Dakota do Sul, pela mineração de urânio, espalhando morte e doença.

Rita e sua família desempenham um papel importante na defesa de sua gente. Aos 84 anos, ela viaja pelo mundo todo – junto à irmã Beatrice, dois anos mais nova – representando a tradição, a cultura e a espiritualidade lakota no Conselho Internacional das 13 Avós Nativas, um grupo de mulheres totalmente sui generis. Para ter uma ideia de quem são e do que fazem essas damas, vale a pena ouvir a história desde o princípio.

A VISITA
Acredite ou não, tudo começou com uma aparição sobrenatural. É o que diz Jeneane Prevatt, responsável pela reunião do Conselho. Mais conhecida como Jyoti (“Luz” em sânscrito), Jeneane vem de uma trajetória espiritual eclética, narrada em seu livro An Angel Called My Name (“Um anjo chamou meu nome”, inédito em português). Pós-graduada em psicologia pelo Instituto Jung de Zurique, atravessou um processo radical de transformação praticando Kundalini Yoga com um guru indiano. Com 25% de sangue indígena sob a pele branca, passou a receber visitas do espírito de sua avó cherokee, que a levou a aproximar-se das práticas espirituais dos índios americanos. Acabou tornando-se fundadora e líder de uma comunidade internacional chamada Kayumari, ligada à Igreja Nativa Americana, que tem como sacramento o cacto psicoativo peiote.

A visão veio em 1998. “A Mãe Divina me apareceu, anunciando que iria me entregar uma cesta sagrada, onde estavam algumas de suas joias mais preciosas. ‘Estas joias representam linhagens de preces que remontam às nossas eras originais’, disse Ela. ‘Não as misture, não as altere. Proteja-as. Atravesse com elas o portal do milênio e as devolva a mim. Tenho algo para fazermos’.”

As tais joias eram nada menos que certas plantas e fungos utilizados desde tempos imemoriais, como ferramenta de cura e êxtase visionário. Além do peiote, a cesta trazia o cipó amazônico ayahuasca, a raiz africana iboga e os “cogumelos mágicos” dos maias e astecas. Outra peça do quebra-cabeça começou, então, a se apresentar em uma frase mântrica que membros da comunidade Kayumari ouviam cochichar em seus ouvidos: “Quando as avós falarem… Quando as avós falarem…”

O que iria acontecer quando as avós falassem? Nenhuma daquelas pessoas sabia disso ainda, mas diferentes tribos americanas traziam na memória uma antiga profecia, que dizia mais ou menos assim: “Quando as avós das quatro direções falarem, uma nova era estará nascendo”.

ÁFRICA-BRASIL
O mistério colocou Jyoti em uma nova peregrinação. Até as últimas décadas do século 20, quase ninguém ouvira falar na iboga fora da África Ocidental, onde se consagrara como ingrediente-chave do culto religioso Bwiti. Em pouco tempo, porém, a planta ganhou fama mundial como cura milagrosa para dependentes de heroína, superando todos os índices dos tratamentos psiquiátricos convencionais. Depois de conhecer, no Brasil, a versão cristã da ayahuasca, batizada Santo Daime, Jyoti viajou ao Gabão para encontrar-se com Bernadette Rébiénot, mestre da iboga e conselheira espiritual do presidente de seu país.

“Você tem que fazer isso já!”, respondeu Bernadette, depois de iniciar a nova discípula e esta lhe contar suas visões, sobre a missão de proteger as plantas sagradas e reunir avós detentoras desse conhecimento. Confessando que tinha as mesmas visões, a mestre gabonesa mostrou a Jyoti uma carta que assinara no Peru, junto com os curadores ayahuasqueiros de lá. O documento declarava que os povos nativos tinham todos os direitos sobre suas plantas medicinais, livres de restrições governamentais e de patentes pirateando essas plantas para a indústria farmacêutica.

Em sua viagem seguinte ao Brasil, Jyoti descobriu outra carta, de conteúdo idêntico, nas mãos de Maria Alice Freire, moradora do Céu do Mapiá, comunidade santo-daimista no coração da selva amazônica. Fundadora do Centro Medicina da Floresta – ONG dedicada à pesquisa de plantas medicinais -, Maria Alice assinara uma declaração de princípios com pajés de várias tribos, nos mesmos termos que Bernadette e seus aliados peruanos.

MULHERES GLOBAIS
Jyoti não precisou de mais nenhum toque para transformar a visão em ação. Mesmo assim, demorou três anos para arrecadar o dinheiro necessário para realizar, perto de Nova York, em outubro de 2004, o evento que daria à luz o Conselho. Intitulado Global Women’s Gathering (“Reunião de Mulheres Globais”), o encontro se anunciava com a proposta de “alinhar a sabedoria das mulheres indígenas com a sabedoria das mulheres ocidentais”. Treze avós representavam povos nativos dos quatro cantos da planeta. Seis norte-americanas somavam as nações lakota, cheyenne, arapaho, hopi, tewa, takelma e iúpique. Completavam o time uma mexicana, uma tibetana, uma nepalesa, uma nicaraguense, a gabonesa Bernadette e duas brasileiras – junto com Maria Alice, vinha Clara Iura, curadora companheira do Céu do Mapiá. Entre as “ocidentais”, despontavam figuras como a escritora Alice Walker, de A Cor Púrpura, a lendária feminista Gloria Steinem e Carol Moseley Braun, primeira negra eleita para o senado dos Estados Unidos.

O resultado pode ser testemunhado no documentário For the Next Seven Generations (“Para as Próximas Sete Gerações”, 2009), que acompanha o Conselho, desde essa primeira reunião, em diversas viagens ao redor do mundo. Inédito no Brasil, mas com trechos disponíveis no YouTube e no site www.forthenext7generations.com, o filme registra desde a empatia imediata entre as Treze Avós até a comoção causada entre a plateia e as estrelas mais notórias do evento.

“Nós focalizamos as semelhanças, não as diferenças. Dessa forma criamos relacionamentos”, afirma Mona Polacca – de sangue hopi, tewa e havasupai, nações do grande deserto que se estende do Arizona ao Novo México -, para explicar como as 13 se entendem tão bem, apesar de tantas diferenças culturais. O principal traço em comum ficou evidente já na programação do Global Women’s Gathering: todas são mulheres de prece – “rezadoras”, na antiga expressão popular brasileira. Três vezes por dia – ao amanhecer, sob o sol a pino e ao cair da noite -, elas se reuniam para oferecer, uma de cada vez, uma oração. Rezar pela paz mundial, pelas crianças e pela cura da Mãe Terra é uma das atividades centrais do Conselho – e, dependendo da orientação da Avó que estiver conduzindo a cerimônia, essa prece pode transformar-se num ritual xamânico de purificação, desencadeando catarse e arrebatamento no público. É o que costuma acontecer, por exemplo, quando a nepalesa Aama Bombo martela seu tambor, invocando a deusa Kali e espíritos da natureza, até entrar em transe.

PRECE EM AÇÃO
Aama não utiliza nenhuma das “plantas de poder” contidas na cesta recebida por Jyoti em sua visão. Ao se materializar, a união das Treze Avós revelou-se mais abrangente, abraçando uma espiritualidade universal. As joias da Mãe Divina estão todas presentes: o peiote na cheyenne Margaret Behan, ceramista e terapeuta cujo avô fundou a Igreja Nativa Americana; e os cogumelos na curadora mazateca Julieta Casimiro – além, é claro, da iboga de Madame Rébiénot e da ayahuasca com as duas brasileiras do Santo Daime. Isso não significa que falte espaço para o budismo, religião que prega a abstenção de intoxicantes.

Representa essa linha a tibetana Tsering Gyaltong, de admirável currículo na militância. Nos primórdios da invasão chinesa do Tibete, organizou um tumulto feminino destinado a desviar a atenção do exército maoísta, possibilitando, assim, a fuga do Dalai Lama. Também fundou a Associação de Mulheres Tibetanas, rede mundial de exiladas concentradas na defesa de seu país, sua cultura e sua fé. Ao receber as outras 12 Avós em Dharamsala, cidade indiana que abriga a principal comunidade de seus compatriotas refugiados, Tsering as levou para uma audiência com o chefão. Brincando sem parar, o Dalai Lama não perdeu a seriedade. Brindou as visitas com declarações certeiras no alvo das preocupações delas – tipo “rezar é bom, mas não é o suficiente. É preciso agir!”

No jargão das próprias Avós, chama-se “transformar prece em ação”. Outro exemplo encarnado dessa diretriz é a presidente do Conselho, Agnes Pilgrim, eleita por ser, aos 85, a mais velha da turma – e também da dúzia de sobreviventes da nação takelma, original do estado do Oregon. A idade não impede seu ativismo, premiado por universidades e outras instituições pelo resgate da Cerimônia do Salmão, ritual de sua tribo perdido fazia 140 anos. Nessa batalha para proteger o peixe que sempre alimentou seu povo, Agnes conseguiu até levar o governo a remover os diques que impediam o bicho de subir o rio para procriar.

PATRIMÔNIO
A avó maia-nicaraguense Flordemayo, por sua vez, revela afinidades com Maria Alice. Fundou, no Novo México, o Institute of Natural and Traditional Knowledge (“Instituto de Conhecimento Natural e Tradicional”), ONG etnobotânica muito parecida com o CMF de sua colega amazônica. Entre outros projetos, mantém um Banco de Sementes, para salvaguardar as plantas do risco de virarem todas “comida frankenstein”: alimentos transgênicos. Enquanto isso, a avó de etnia iúpique (vulgarmente conhecida como “esquimó”) Rita Blumenstein pode ser facilmente confundida com a nipo-brasileira Clara. Enquanto esta dirige um centro de caridade no meio da floresta, Rita trabalha nos hospitais do Alasca como a primeira curadora xamânica a receber certificado legal para isso. Saúde e educação não poderiam deixar de ser questões-chave para o Conselho, e essas quatro mulheres encontram aqui seu campo de ação privilegiado.

Tais semelhanças confirmam as palavras de Mona sobre a arte do relacionamento. Quando ela reza, termina sempre assim: “Para todas as nossas relações”. Basta passar um tempinho com as Treze Avós para aprender que a frase não é exclusividade de nenhuma tribo – e sim patrimônio das nações indígenas norte-americanas em geral. Significa, para elas, rogar por todos os seres vivos, interligados na teia da Criação. Lembra, é claro, a tradicional oferenda das preces budistas para “todos os seres sensíveis”, que Tsering repete a cada encontro.

As irmãs Rita e Beatrice, aliás, nunca deixam de afirmar que se identificam 100% com o povo tibetano. Assim como este teve seu país tomado à força, os lakotas perderam suas terras sagradas, as Black Hills, num dos episódios mais vergonhosos da história da humanidade. Em 1868, o governo americano assinou um tratado garantindo aquele torrão eternamente para a tribo. Bastou encontrarem ouro para as tropas do general Custer violarem o acordo, motivo pelo qual o acima citado Touro Sentado partiu para a guerra.

Agora, um século e meio depois, Barack Obama procura os descendentes do Grande Chefe oferecendo uma indenização. Mas eles não querem saber dos milhões, nem dos bilhões de dólares do Tesouro Federal: só aceitam receber suas terras de volta. Já a militância das avós lakotas voa mais alto: fizeram o Conselho assinar uma carta ao Vaticano, requisitando a revogação de uma série de bulas papais do século 15, que davam às Coroas espanhola e portuguesa direito de matar todos os “pagãos” que não quisessem se converter ao cristianismo, apoderando-se de todas suas propriedades. Passados cinco anos sem resposta, as Avós não perdem a fé, nem deixam de rezar “para todas as nossas relações”. Conforme explica a vovó Rita Long Visitor Holy Dance, “isso inclui até o seu pior inimigo.”

Os espíritos do general Custer e do papa Nicolau V agradecem!

SÁBIAS PALAVRAS

O que as avós dizem sobre grandes questões da nossa vida

[img1]Amor
“Sem ele, qualquer um perde as esperanças e a vontade de viver. O maior desafio na vida é aprender a amar a si mesmo, do jeito que realmente somos, para poder, então, amar os outros.”

Flordemayo, Avó maia, Nicarágua (foto acima)
“Quando há pouca comida, eu alimento primeiro meus filhos. Isso, para mim, é amor. Quando você diz que ama alguém, tem que ser para valer. Não saia por aí abraçando todo mundo, cobrindo as pessoas de presentes, dizendo que ama a todos, porque, no fundo, não é verdade.”

Rita Long Visitor Holy Dance, Avó lakota, Estados Unidos

Homem e mulher
“As mulheres têm a masculinidade dentro de si e os homens têm a feminilidade. É preciso equilibrar tudo isso dentro de nós quando nos tornamos adultos.”

Agnes Pilgrim, Avó takelma, Estados Unidos

“Assim como o sol, caminham sempre juntos ao redor do mundo.”

Julieta Casimiro, Avó mazateca, México

Prece

“Só estarmos vivos já significa que a prece foi atendida. Rezar é aprender a ter gratidão por nossas necessidades serem atendidas.”

Agnes Pilgrim, Avó takelma, Estados Unidos

“Expressar uma reza ao poder superior nos conforta e liberta das preocupações de nossa existência mundana.”

Mona Polacca, Avó hopi/havasupai/teawa, Estados Unidos

[img2]Mudança
“O espírito me mandou fazer uma viagem, do cérebro até o coração. Porque eu precisava enxergar através do coração, que me faz ignorar os defeitos alheios, me impede de julgar as pessoas e ensina que não posso mudar ninguém, apenas a mim mesma.”

Agnes Pilgrim (foto acima)

Coração
“Sua vibração nos conecta com o universo e o espírito. Deixemos o coração falar por nós, para cercar o mundo de verdade, amor e harmonia.”

Aama Bombo, Avó nepalesa

“O lugar onde ocorre a verdadeira comunicação e a compreensão de quem realmente somos. Um lugar de toda clareza, onde tudo se encontra em sua forma pura.”

Flordemayo

Mente
“O lugar onde habita a inteligência, mas separado da compreensão da essência de Deus.”

Flordemayo

“Tem muita força. Nos protege e também pode destruir. Minha mente está sempre trabalhando duro, especialmente quando estou sozinha.”

Rita Long Visitor Holy Dance

Deus
“É a Consciência do Universo, como uma poeira que está aí: você não pode enxergá-la, mas tem que estar consciente de que ela está aí.”

Rita Blumenstein

“O professor que dá motivação para se fazer o bem. Ensina o ser humano a respeitar tudo que está à sua volta.”

Aama Bombo

Livros - Grandmothers Counsel The World, Carol Schaefer, Editora Trumpeter

“Vida simples?”, ecoa a senhora lakota Rita Long Visitor Holy Dance. Arregala os olhos e sorri, surpresa com o nome da revista para a qual está dando entrevista. Aí o sorriso desaparece e seu olhar fecha o foco. “Nossa vida é assim mesmo, beeem simples!”, emenda ela, em tom de ênfase, com a cara mais séria do mundo – como se fosse impensável querer viver de outra forma.

Mas complicação é o que não falta para o povo lakota, conhecido por seu Grande Chefe Touro Sentado, guerreiro-xamã que acabou com o general Custer em uma das mais célebres batalhas da história americana. A vitória não adiantou muito. Como praticamente todas as nações indígenas do planeta, os lakotas tiveram território e soberania usurpados a ferro e fogo. Ainda hoje, lutam contra barbaridades como a contaminação das águas de sua reserva, no estado de Dakota do Sul, pela mineração de urânio, espalhando morte e doença.

Rita e sua família desempenham um papel importante na defesa de sua gente. Aos 84 anos, ela viaja pelo mundo todo – junto à irmã Beatrice, dois anos mais nova – representando a tradição, a cultura e a espiritualidade lakota no Conselho Internacional das 13 Avós Nativas, um grupo de mulheres totalmente sui generis. Para ter uma ideia de quem são e do que fazem essas damas, vale a pena ouvir a história desde o princípio.

A VISITA
Acredite ou não, tudo começou com uma aparição sobrenatural. É o que diz Jeneane Prevatt, responsável pela reunião do Conselho. Mais conhecida como Jyoti (“Luz” em sânscrito), Jeneane vem de uma trajetória espiritual eclética, narrada em seu livro An Angel Called My Name (“Um anjo chamou meu nome”, inédito em português). Pós-graduada em psicologia pelo Instituto Jung de Zurique, atravessou um processo radical de transformação praticando Kundalini Yoga com um guru indiano. Com 25% de sangue indígena sob a pele branca, passou a receber visitas do espírito de sua avó cherokee, que a levou a aproximar-se das práticas espirituais dos índios americanos. Acabou tornando-se fundadora e líder de uma comunidade internacional chamada Kayumari, ligada à Igreja Nativa Americana, que tem como sacramento o cacto psicoativo peiote.

A visão veio em 1998. “A Mãe Divina me apareceu, anunciando que iria me entregar uma cesta sagrada, onde estavam algumas de suas joias mais preciosas. ‘Estas joias representam linhagens de preces que remontam às nossas eras originais’, disse Ela. ‘Não as misture, não as altere. Proteja-as. Atravesse com elas o portal do milênio e as devolva a mim. Tenho algo para fazermos’.”

As tais joias eram nada menos que certas plantas e fungos utilizados desde tempos imemoriais, como ferramenta de cura e êxtase visionário. Além do peiote, a cesta trazia o cipó amazônico ayahuasca, a raiz africana iboga e os “cogumelos mágicos” dos maias e astecas. Outra peça do quebra-cabeça começou, então, a se apresentar em uma frase mântrica que membros da comunidade Kayumari ouviam cochichar em seus ouvidos: “Quando as avós falarem… Quando as avós falarem…”

O que iria acontecer quando as avós falassem? Nenhuma daquelas pessoas sabia disso ainda, mas diferentes tribos americanas traziam na memória uma antiga profecia, que dizia mais ou menos assim: “Quando as avós das quatro direções falarem, uma nova era estará nascendo”.

ÁFRICA-BRASIL
O mistério colocou Jyoti em uma nova peregrinação. Até as últimas décadas do século 20, quase ninguém ouvira falar na iboga fora da África Ocidental, onde se consagrara como ingrediente-chave do culto religioso Bwiti. Em pouco tempo, porém, a planta ganhou fama mundial como cura milagrosa para dependentes de heroína, superando todos os índices dos tratamentos psiquiátricos convencionais. Depois de conhecer, no Brasil, a versão cristã da ayahuasca, batizada Santo Daime, Jyoti viajou ao Gabão para encontrar-se com Bernadette Rébiénot, mestre da iboga e conselheira espiritual do presidente de seu país.

“Você tem que fazer isso já!”, respondeu Bernadette, depois de iniciar a nova discípula e esta lhe contar suas visões, sobre a missão de proteger as plantas sagradas e reunir avós detentoras desse conhecimento. Confessando que tinha as mesmas visões, a mestre gabonesa mostrou a Jyoti uma carta que assinara no Peru, junto com os curadores ayahuasqueiros de lá. O documento declarava que os povos nativos tinham todos os direitos sobre suas plantas medicinais, livres de restrições governamentais e de patentes pirateando essas plantas para a indústria farmacêutica.

Em sua viagem seguinte ao Brasil, Jyoti descobriu outra carta, de conteúdo idêntico, nas mãos de Maria Alice Freire, moradora do Céu do Mapiá, comunidade santo-daimista no coração da selva amazônica. Fundadora do Centro Medicina da Floresta – ONG dedicada à pesquisa de plantas medicinais -, Maria Alice assinara uma declaração de princípios com pajés de várias tribos, nos mesmos termos que Bernadette e seus aliados peruanos.

MULHERES GLOBAIS
Jyoti não precisou de mais nenhum toque para transformar a visão em ação. Mesmo assim, demorou três anos para arrecadar o dinheiro necessário para realizar, perto de Nova York, em outubro de 2004, o evento que daria à luz o Conselho. Intitulado Global Women’s Gathering (“Reunião de Mulheres Globais”), o encontro se anunciava com a proposta de “alinhar a sabedoria das mulheres indígenas com a sabedoria das mulheres ocidentais”. Treze avós representavam povos nativos dos quatro cantos da planeta. Seis norte-americanas somavam as nações lakota, cheyenne, arapaho, hopi, tewa, takelma e iúpique. Completavam o time uma mexicana, uma tibetana, uma nepalesa, uma nicaraguense, a gabonesa Bernadette e duas brasileiras – junto com Maria Alice, vinha Clara Iura, curadora companheira do Céu do Mapiá. Entre as “ocidentais”, despontavam figuras como a escritora Alice Walker, de A Cor Púrpura, a lendária feminista Gloria Steinem e Carol Moseley Braun, primeira negra eleita para o senado dos Estados Unidos.

O resultado pode ser testemunhado no documentário For the Next Seven Generations (“Para as Próximas Sete Gerações”, 2009), que acompanha o Conselho, desde essa primeira reunião, em diversas viagens ao redor do mundo. Inédito no Brasil, mas com trechos disponíveis no YouTube e no site www.forthenext7generations.com, o filme registra desde a empatia imediata entre as Treze Avós até a comoção causada entre a plateia e as estrelas mais notórias do evento.

“Nós focalizamos as semelhanças, não as diferenças. Dessa forma criamos relacionamentos”, afirma Mona Polacca – de sangue hopi, tewa e havasupai, nações do grande deserto que se estende do Arizona ao Novo México -, para explicar como as 13 se entendem tão bem, apesar de tantas diferenças culturais. O principal traço em comum ficou evidente já na programação do Global Women’s Gathering: todas são mulheres de prece – “rezadoras”, na antiga expressão popular brasileira. Três vezes por dia – ao amanhecer, sob o sol a pino e ao cair da noite -, elas se reuniam para oferecer, uma de cada vez, uma oração. Rezar pela paz mundial, pelas crianças e pela cura da Mãe Terra é uma das atividades centrais do Conselho – e, dependendo da orientação da Avó que estiver conduzindo a cerimônia, essa prece pode transformar-se num ritual xamânico de purificação, desencadeando catarse e arrebatamento no público. É o que costuma acontecer, por exemplo, quando a nepalesa Aama Bombo martela seu tambor, invocando a deusa Kali e espíritos da natureza, até entrar em transe.

PRECE EM AÇÃO
Aama não utiliza nenhuma das “plantas de poder” contidas na cesta recebida por Jyoti em sua visão. Ao se materializar, a união das Treze Avós revelou-se mais abrangente, abraçando uma espiritualidade universal. As joias da Mãe Divina estão todas presentes: o peiote na cheyenne Margaret Behan, ceramista e terapeuta cujo avô fundou a Igreja Nativa Americana; e os cogumelos na curadora mazateca Julieta Casimiro – além, é claro, da iboga de Madame Rébiénot e da ayahuasca com as duas brasileiras do Santo Daime. Isso não significa que falte espaço para o budismo, religião que prega a abstenção de intoxicantes.

Representa essa linha a tibetana Tsering Gyaltong, de admirável currículo na militância. Nos primórdios da invasão chinesa do Tibete, organizou um tumulto feminino destinado a desviar a atenção do exército maoísta, possibilitando, assim, a fuga do Dalai Lama. Também fundou a Associação de Mulheres Tibetanas, rede mundial de exiladas concentradas na defesa de seu país, sua cultura e sua fé. Ao receber as outras 12 Avós em Dharamsala, cidade indiana que abriga a principal comunidade de seus compatriotas refugiados, Tsering as levou para uma audiência com o chefão. Brincando sem parar, o Dalai Lama não perdeu a seriedade. Brindou as visitas com declarações certeiras no alvo das preocupações delas – tipo “rezar é bom, mas não é o suficiente. É preciso agir!”

No jargão das próprias Avós, chama-se “transformar prece em ação”. Outro exemplo encarnado dessa diretriz é a presidente do Conselho, Agnes Pilgrim, eleita por ser, aos 85, a mais velha da turma – e também da dúzia de sobreviventes da nação takelma, original do estado do Oregon. A idade não impede seu ativismo, premiado por universidades e outras instituições pelo resgate da Cerimônia do Salmão, ritual de sua tribo perdido fazia 140 anos. Nessa batalha para proteger o peixe que sempre alimentou seu povo, Agnes conseguiu até levar o governo a remover os diques que impediam o bicho de subir o rio para procriar.

PATRIMÔNIO
A avó maia-nicaraguense Flordemayo, por sua vez, revela afinidades com Maria Alice. Fundou, no Novo México, o Institute of Natural and Traditional Knowledge (“Instituto de Conhecimento Natural e Tradicional”), ONG etnobotânica muito parecida com o CMF de sua colega amazônica. Entre outros projetos, mantém um Banco de Sementes, para salvaguardar as plantas do risco de virarem todas “comida frankenstein”: alimentos transgênicos. Enquanto isso, a avó de etnia iúpique (vulgarmente conhecida como “esquimó”) Rita Blumenstein pode ser facilmente confundida com a nipo-brasileira Clara. Enquanto esta dirige um centro de caridade no meio da floresta, Rita trabalha nos hospitais do Alasca como a primeira curadora xamânica a receber certificado legal para isso. Saúde e educação não poderiam deixar de ser questões-chave para o Conselho, e essas quatro mulheres encontram aqui seu campo de ação privilegiado.

Tais semelhanças confirmam as palavras de Mona sobre a arte do relacionamento. Quando ela reza, termina sempre assim: “Para todas as nossas relações”. Basta passar um tempinho com as Treze Avós para aprender que a frase não é exclusividade de nenhuma tribo – e sim patrimônio das nações indígenas norte-americanas em geral. Significa, para elas, rogar por todos os seres vivos, interligados na teia da Criação. Lembra, é claro, a tradicional oferenda das preces budistas para “todos os seres sensíveis”, que Tsering repete a cada encontro.

As irmãs Rita e Beatrice, aliás, nunca deixam de afirmar que se identificam 100% com o povo tibetano. Assim como este teve seu país tomado à força, os lakotas perderam suas terras sagradas, as Black Hills, num dos episódios mais vergonhosos da história da humanidade. Em 1868, o governo americano assinou um tratado garantindo aquele torrão eternamente para a tribo. Bastou encontrarem ouro para as tropas do general Custer violarem o acordo, motivo pelo qual o acima citado Touro Sentado partiu para a guerra.

Agora, um século e meio depois, Barack Obama procura os descendentes do Grande Chefe oferecendo uma indenização. Mas eles não querem saber dos milhões, nem dos bilhões de dólares do Tesouro Federal: só aceitam receber suas terras de volta. Já a militância das avós lakotas voa mais alto: fizeram o Conselho assinar uma carta ao Vaticano, requisitando a revogação de uma série de bulas papais do século 15, que davam às Coroas espanhola e portuguesa direito de matar todos os “pagãos” que não quisessem se converter ao cristianismo, apoderando-se de todas suas propriedades. Passados cinco anos sem resposta, as Avós não perdem a fé, nem deixam de rezar “para todas as nossas relações”. Conforme explica a vovó Rita Long Visitor Holy Dance, “isso inclui até o seu pior inimigo.”

Os espíritos do general Custer e do papa Nicolau V agradecem!

SÁBIAS PALAVRAS

O que as avós dizem sobre grandes questões da nossa vida

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Amor
“Sem ele, qualquer um perde as esperanças e a vontade de viver. O maior desafio na vida é aprender a amar a si mesmo, do jeito que realmente somos, para poder, então, amar os outros.”

Flordemayo, Avó maia, Nicarágua (foto acima)
“Quando há pouca comida, eu alimento primeiro meus filhos. Isso, para mim, é amor. Quando você diz que ama alguém, tem que ser para valer. Não saia por aí abraçando todo mundo, cobrindo as pessoas de presentes, dizendo que ama a todos, porque, no fundo, não é verdade.”

Rita Long Visitor Holy Dance, Avó lakota, Estados Unidos

Homem e mulher
“As mulheres têm a masculinidade dentro de si e os homens têm a feminilidade. É preciso equilibrar tudo isso dentro de nós quando nos tornamos adultos.”

Agnes Pilgrim, Avó takelma, Estados Unidos

“Assim como o sol, caminham sempre juntos ao redor do mundo.”

Julieta Casimiro, Avó mazateca, México

Prece

“Só estarmos vivos já significa que a prece foi atendida. Rezar é aprender a ter gratidão por nossas necessidades serem atendidas.”

Agnes Pilgrim, Avó takelma, Estados Unidos

“Expressar uma reza ao poder superior nos conforta e liberta das preocupações de nossa existência mundana.”

Mona Polacca, Avó hopi/havasupai/teawa, Estados Unidos

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Mudança
“O espírito me mandou fazer uma viagem, do cérebro até o coração. Porque eu precisava enxergar através do coração, que me faz ignorar os defeitos alheios, me impede de julgar as pessoas e ensina que não posso mudar ninguém, apenas a mim mesma.”

Agnes Pilgrim (foto acima)

Coração
“Sua vibração nos conecta com o universo e o espírito. Deixemos o coração falar por nós, para cercar o mundo de verdade, amor e harmonia.”

Aama Bombo, Avó nepalesa

“O lugar onde ocorre a verdadeira comunicação e a compreensão de quem realmente somos. Um lugar de toda clareza, onde tudo se encontra em sua forma pura.”

Flordemayo

Mente
“O lugar onde habita a inteligência, mas separado da compreensão da essência de Deus.”

Flordemayo

“Tem muita força. Nos protege e também pode destruir. Minha mente está sempre trabalhando duro, especialmente quando estou sozinha.”

Rita Long Visitor Holy Dance

Deus
“É a Consciência do Universo, como uma poeira que está aí: você não pode enxergá-la, mas tem que estar consciente de que ela está aí.”

Rita Blumenstein

“O professor que dá motivação para se fazer o bem. Ensina o ser humano a respeitar tudo que está à sua volta.”

Aama Bombo

Livros - Grandmothers Counsel The World, Carol Schaefer, Editora Trumpeter

USP ameaça fechar canil

Com mais de 100 animais, reitoria quer fechar estabelecimento mantido por voluntários

Foi uma barulhada só. De um lado, uma centena de protetores dos animais. Do outro, o coordenador do câmpus da Universidade de São Paulo, Antonio Marcos Massola, e o diretor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, José Antônio Visintin. Em questão, 110 cães sem dono de um abrigo localizado na Coordenadoria do Campus da Capital (Cocesp). Aberto em 2004, o canil amanheceu no último dia 26 com uma placa que informava sua desativação. Preocupados, defensores dos bichos começaram a se mobilizar. Na sexta (30), realizaram uma passeata pelas ruas da Cidade Universitária: com alguns totós na coleira, de rabinho abanando, mais de 100 pessoas caminharam rumo à reitoria. Chamaram pelo reitor aos uivos, deram um abraço simbólico no prédio da administração e — acredite — entoaram o Hino Nacional latindo.

Em comunicado oficial, a assessoria da universidade respondeu que o canil não seria desativado imediatamente. “Trata-se de um problema de saúde pública”, afirma Visintin. Em parceria com a Cocesp, o diretor reivindica o controle do espaço, até então mantido por voluntários do grupo Patinhas Online. De 2007 para cá, os protetores contabilizam 900 esterilizações e 300 doações de animais. Eles também monitoram e alimentam os 100 cachorros que vivem inexplicavelmente soltos na USP, causando risco para seus frequentadores. “Precisamos botar ordem na casa”, diz Visintin. “Panela em que todo mundo põe a mão, ou você come cru ou se queima.” Para ele, é preciso promover uma campanha educacional que abordaria desde a orientação contra a soltura dos cães até a adoção.

Um projeto com esses objetivos, o USP Convive, já existe há nove anos. “A ideia do canil surgiu daí”, afirma o atual coordenador do programa, Tibor Rabóczkay, professor do Instituto de Química. Criado para combater o problema crescente de animais abandonados nos domínios da universidade, o canil acabou esvaziado ao longo do tempo. “Houve falta de interesse dos participantes.” Foi então que entraram os voluntários, responsáveis por arrecadar 2 000 reais mensais para cobrir as despesas com veterinário. A ração é doada pela USP. “Não queremos ser excluídos”, diz Rafael Splichal, do Patinhas Online. Os apaixonados pelos bichos temem que, nas mãos de outras pessoas, cachorros idosos e doentes acabem sacrificados. “Quem deve dar esse diagnóstico é o médico veterinário, e não o protetor”, rebate Visintin. Vêm mais latidos por aí.

Veja também:
O trabalho de Marco Ciampi na Arca Brasil
Quer nos adotar?

Foi uma barulhada só. De um lado, uma centena de protetores dos animais. Do outro, o coordenador do câmpus da Universidade de São Paulo, Antonio Marcos Massola, e o diretor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, José Antônio Visintin. Em questão, 110 cães sem dono de um abrigo localizado na Coordenadoria do Campus da Capital (Cocesp). Aberto em 2004, o canil amanheceu no último dia 26 com uma placa que informava sua desativação. Preocupados, defensores dos bichos começaram a se mobilizar. Na sexta (30), realizaram uma passeata pelas ruas da Cidade Universitária: com alguns totós na coleira, de rabinho abanando, mais de 100 pessoas caminharam rumo à reitoria. Chamaram pelo reitor aos uivos, deram um abraço simbólico no prédio da administração e — acredite — entoaram o Hino Nacional latindo.

Em comunicado oficial, a assessoria da universidade respondeu que o canil não seria desativado imediatamente. “Trata-se de um problema de saúde pública”, afirma Visintin. Em parceria com a Cocesp, o diretor reivindica o controle do espaço, até então mantido por voluntários do grupo Patinhas Online. De 2007 para cá, os protetores contabilizam 900 esterilizações e 300 doações de animais. Eles também monitoram e alimentam os 100 cachorros que vivem inexplicavelmente soltos na USP, causando risco para seus frequentadores. “Precisamos botar ordem na casa”, diz Visintin. “Panela em que todo mundo põe a mão, ou você come cru ou se queima.” Para ele, é preciso promover uma campanha educacional que abordaria desde a orientação contra a soltura dos cães até a adoção.

Um projeto com esses objetivos, o USP Convive, já existe há nove anos. “A ideia do canil surgiu daí”, afirma o atual coordenador do programa, Tibor Rabóczkay, professor do Instituto de Química. Criado para combater o problema crescente de animais abandonados nos domínios da universidade, o canil acabou esvaziado ao longo do tempo. “Houve falta de interesse dos participantes.” Foi então que entraram os voluntários, responsáveis por arrecadar 2 000 reais mensais para cobrir as despesas com veterinário. A ração é doada pela USP. “Não queremos ser excluídos”, diz Rafael Splichal, do Patinhas Online. Os apaixonados pelos bichos temem que, nas mãos de outras pessoas, cachorros idosos e doentes acabem sacrificados. “Quem deve dar esse diagnóstico é o médico veterinário, e não o protetor”, rebate Visintin. Vêm mais latidos por aí.

Veja também:
O trabalho de Marco Ciampi na Arca Brasil
Quer nos adotar?

Fomento às artes – Chuva de editais irriga cultura do país

Diário de Pernambuco – PE, Caderno Viver, em 24/04/2010

São Paulo – Uma série de editais de fomento à cultura está irrigando fortemente a área neste semestre. A Funarte lançoiu esta semana 34 editais de fomento às áreas de teatro, dança, circo, artes visuais, fotografia, música, literatura, cultura popular e arte digital. São R$ 54 milhões (o orçamento da Funarte para 2010 é de R$ 101,6 milhões, sete vezes maior que o de 2003, e o maior em vinte anos de história da fundação). Serão concedidos mil prêmios e bolsas de até R$ 260 mil, para projetos de produção, formação de público, pesquisa, residências artísticas, apoio a festivais e produção crítica sobre arte. As inscrições estão abertas em todo o país. Os editais, fichas de inscrição e mais informações estão disponíveis em www.funarte gov.br.

A Caixa Econômica Federal também vai destinar R$ 33,1 milhões para quatro editais de patrocínio cultural em 2011. Os projetos englobam as áreas de teatro, dança, artesanato, artes plásticas e patrimônio. A presidente da instituição, Maria Fernanda Ramos, disse que os recursos da instituição financeira destinados à cultura em 2010 deverão totalizar R$ 53 milhões, mesmo montante do ano passado. Se somados a esse volume, os R$ 48 milhões que serão absorvidos na instalação de novos espaços Caixa Cultural em Fortaleza, Recife e Porto Alegre, os investimentos ultrapassam R$ 100 milhões este ano. O montante é exclusivo da Caixa, sem uso de incentivos fiscais.

Entre os editais para 2011, o Programa de Ocupação dos Espaços da Caixa Cultural investirá R$ 26 milhões na seleção de projetos para ocupação dos espaços em Brasília, Curitiba, Rio, Salvador e São Paulo. O valor máximo de patrocínio por projeto será de R$ 300 mil.

Reproduzido conforme o original, com informações e opiniões de responsabilidade do veículo.

Inscrições de Projetos Culturais 2011 – Centro Cultural Banco do Brasil

pra quem ainda não se inscreveu, corre que dá tempo!

Inscrições até 01 de junho

O Banco do Brasil abre inscrições para programação 2011. Os projetos selecionados irão compor a grade de programação dos Centros Culturais Banco do Brasil Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, nas áreas de música (popular, erudita e instrumental), exposições (pintura, escultura, fotografia, gravura, instalação, multimídia e outros), artes cênicas (teatro, dança, performance, circo, ópera), cinema e vídeo (mostras e festivais), programa educativo (oficinas, cursos e visitas orientadas) e ideias (palestras, seminários e conferências).
As inscrições são gratuitas, vão de 1º de maio a 1º de junho de 2010 e estão abertas a pessoas físicas e jurídicas, de qualquer nacionalidade e região do País, sendo feitas exclusivamente pelo site www.bb.com.br/cultura.

Mais Informações: 61- 33107081 ou www.bb.com.br/cultura

Estados poderão ter repasse de 30% do Fundo Nacional de Cultura

ALERJ Notícias, em 11/05/2010

O Ministério da Cultura quer que estados e municípios tenham acesso a, pelo menos, 30% do Fundo Nacional de Cultura previsto para ser criado no projeto de lei 6.722/10, que tramita na Câmara dos Deputados e trata do fomento e incentivo ao setor cultural. O novo modelo, debatido durante audiência pública da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa do Rio, nesta terça-feira (11/05), prevê ainda maior participação das empresas privadas nos investimentos em projetos culturais e uma distribuição mais igualitária de incentivos. “A comissão vê com entusiasmo este projeto. É importante repensar o recurso repassado à cultura no Brasil e fazer um debate sobre a democratização do acesso a essas verbas após 18 anos de Lei Rouanet. Com este projeto, o dinheiro de um fundo voltado para a cultura vai ser muito maior do que é hoje e a diversidade cultural do País será protegida”, afirmou o presidente da comissão, deputado Alessandro Molon (PT).De acordo com o Ministério, por ano, aproximadamente R$ 1 bilhão dos recursos para o setor cultural provêm da renúncia fiscal. Destes, 80% são captados por apenas uma das cinco regiões brasileiras: a Sudeste. O anúncio de tornar a distribuição mais democrática, tanto por região quanto por atividades culturais, não preocupa a secretária de Estado de Cultura, Adriana Rattes. “Não fiz as contas para saber se o estado perde para que outros recebam mais. É normal que haja polos de cultura, como São Paulo e Rio, assim como existe com indústrias e outros setores. As diferenças continuarão a ser respeitadas, mas o projeto vai ‘atacar’ o excesso de investimento em determinados locais”, frisou. “Em relação a um repasse mais democrático dos recursos, a gente já pratica isto com o Ministério da Cultura e com os municípios através do Programa de Desenvolvimento da Cultura (Padec). Com os fundos setoriais previstos, isto ficará mais fácil”, destaca Adriana.

Para aumentar a eficiência da destinação dos recursos e assumir a diversidade de temas e linguagens na cultura, o projeto prevê a criação de oito fundos setoriais. Com a nova lei, nenhum fundo terá menos que 10% ou mais que 30% do total do Fundo Nacional de Cultura, gerando, de acordo com o Governo federal, um equilíbrio entre as áreas. Dentre os fundos criados estarão os de Artes Visuais, Artes Cênicas, Música, Acesso e Diversidade e Patrimônio e Memória. De acordo com Molon, a divisão destes recursos é “extremamente desigual”, pois 50% do que é captado destinam-se a apenas 3% das propostas apresentadas ao Ministério. O diretor teatral Aderbal Freire-Filho comemorou a possibilidade de mudança prevista no projeto de lei. “A concentração ocorre porque as empresas buscam patrocinar aqueles projetos que reforçam sua marca, mesmo valendo-se do dinheiro que é público, de imposto. Isto eu espero mesmo que mude porque a democratização é muito importante”, destacou.

O secretário-executivo do Ministério da Cultura, Alfredo Manevy, que representou o ministro Juca Ferreira, explicou que o foco do projeto está em “criar um leque de alternativa para artistas e produtores em uma legislação de fomento à cultura, que possa contemplar todas as regiões do Brasil, artistas de vários segmentos e todo o conjunto da produção cultural”. “A Lei Rouanet é muito excludente e nossa preocupação é diversificar os mecanismos, em especial a criação de fundos setoriais públicos com dinheiro para apoio direto. Assim, no momento em que o projeto for aprovado no Ministério da Cultura, o artista já recebe o dinheiro, sem intermediação do mercado, já que é muito difícil o patrocínio”, destacou Manevy. “Hoje, a empresa privada não participa do processo. Quase 100% dos recursos vêm de dinheiro público. Queremos criar parcerias com o setor privado, já que a cultura dá um retorno tão importante de imagem para as empresas. Parece justo que 20%, ao menos, sejam investidos pelo setor privado”, frisou o secretário.

Reproduzido conforme o original, com informações e opiniões de responsabilidade do veículo.

Ministério aumentará os recursos para a Cultura

Portal Exame, editoria Economia, em 11/05/2010

Rio de Janeiro – O Ministério da Cultura pretende dobrar o valor dos recursos de estímulo a projetos do setor no país. A proposta, segundo o secretário executivo do ministério, Alfredo Manevy, é atingir essa meta com a substituição da atual Lei Rouanet pelo Programa Nacional de Fomento à Cultura (Procultura).
Pelo projeto, ainda em tramitação no Congresso Nacional, as empresas que usam parte do dinheiro que deveriam pagar em tributos para o governo para investir em cultura terão de adicionar 20% a esse valor. A parcela adicional viria de recursos da própria empresa.Com essa mudança, o dinheiro destinado aos projetos culturais seria concentrado em um Fundo Nacional de Cultura. Os artistas e produtores que têm um projeto não precisarão mais recorrer às empresas para conseguir o dinheiro, como ocorre hoje. Manevy estima que 80% desses artistas não conseguem um patrocinador.

“Hoje, pela Lei Rouanet, as empresas colocam as marcas [nos cartazes dos espetáculos, por exemplo] mas não há um centavo de dinheiro privado no financiamento da cultura. O que está sendo criado é um fundo direto de apoio aos artistas e produtores. Assim que o projeto for aprovado pelo Ministério da Cultura, o artista já recebe o dinheiro sem precisar captar esses recursos”, explicou
Manevy.

Com o novo formato, o governo federal pretende também desconcentrar os incentivos culturais que hoje predominam no eixo Rio-São Paulo, ampliando o benefício para todas as regiões do país e todos os segmentos culturais.

Apesar das promessas de melhoria, o programa ainda divide opiniões. Algumas empresas e representantes da classe artística temem que a proposta acabe tendo efeito contrário e reduza o volume de dinheiro para o setor. Manevy disse que as empresas estatais e as grandes empresas privadas que já estão incluídas na Lei Rouanet divulgaram nota oficial garantindo que vão manter e até aumentar os investimentos.

“Hoje a cultura é uma economia poderosa que dá um enorme retorno de imagem para bancos e empresas que financiam a cultura. A resistência vem de uma minoria que conhece o caminho das pedras e parece que não quer pensar o conjunto dos artistas do Brasil, quer manter a situação como está, mesmo sabendo que a maioria dos artistas tem dificuldade e não têm alternativa alguma”, disse Manevy.

O Procultura, apresentado nesta terça-feira (11) no Rio de Janeiro, ainda será levado pelo Ministério da Cultura para apresentação em Belém, Belo Horizonte, Campo Grande e Brasília. O governo quer aproveitar o período de análise pelos parlamentares para levantar sugestões e reclamações e levantar o apoio à proposta.

Reproduzido conforme o original, com informações e opiniões de responsabilidade do veículo.

Imprensa e democracia

Artigo de Murillo de Aragão, na editoria Opinião, Brasil Econômico, em 12/05/2010

Quando a sociedade acorda de seu mutismo político, algo de importante acontece. De certa forma, foi assim com a CPMF. Sem a mobilização de setores organizados, a contribuição teria sido prorrogada. No caso do reajuste dos aposentados, a mesma coisa. Sem mobilização, o reajuste seria aquele proposto pelo governo (6,14%), e não o que foi aprovado pela Câmara (7,72%). Outro exemplo é o projeto Ficha Limpa. Desde o início, o projeto traz a marca da mobilização da sociedade. Foi apresentado com o apoio de mais de um milhão de assinaturas. O texto original foi proposto pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral e recebeu apoio de entidades como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Evidente que a derrota da CPMF deve ser creditada a vários fatores. Entre eles, a divisão da base aliada e o não cumprimento de promessas de apoio feitas ao governo. Uma pilotagem mais segura teria impedido a derrota por poucos votos. Eram necessários 49 votos no Senado, e a proposta de emenda constitucional teve 45. No caso do reajuste dos aposentados, além da mobilização, o fator eleitoral contribuiu para fragilizar a adesão da base governista e inflamar os ânimos da oposição. No caso do Ficha Limpa, o que ajudou também foi o sentimento de culpa de muitos com a imagem do mundo político.

Alguém poderia argumentar que a mobilização não teria sido o fator decisivo para o resultado. Não é verdade. Sem ela, a política fica isolada da sociedade e vira diálogo exclusivo entre players políticos, cujos interesses podem não ser os da sociedade. O mesmo vale para a imprensa. Sem uma imprensa livre, a democracia não se realiza. Assim, é mais do que oportuna a promoção de encontros e debates, como os ocorridos no Rio e em Brasília na semana passada por conta do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Em especial, em um continente onde a liberdade é bem escasso.

De acordo com relatório da organização Repórteres Sem Fronteira, na América Latina as quatro maiores fontes de ameaça e violência contra jornalistas continuam sendo os traficantes de drogas, a ditadura em Cuba, as Farc e grupos paramilitares. No Brasil, graças a Deus, não temos tais ameaças. No entanto, temos outras: o precário índice de leitura; as tiragens raquíticas frente ao tamanho da população e, ainda, o domínio que a publicidade do governo exerce sobre muitos setores da mídia. Além da precariedade do ensino e da falta de poder aquisitivo, faltam bibliotecas. O Ministério da Cultura divulgou em abril um censo sobre as bibliotecas públicas municipais em todo o Brasil. O estudo foi realizado em 2009 pela FGV, e constatou que 21% dos municípios não têm o serviço. A pesquisa revela ainda que 71% das bibliotecas municipais do país não disponibilizam acesso à internet.

A qualidade do futuro da política no Brasil reside nos dois aspectos mencionados aqui: a mobilização da sociedade e o pleno exercício da liberdade de expressão. Temas que devem ser objeto de nossa reflexão e ação diárias. A começar pela educação e pelo acesso à informação escrita, fator fundamental para o sucesso do Brasil.

*Murillo de Aragão, Cientista político, advogado, doutor em sociologia pela UnB e presidente da Arko Advice Pesquisas

Reproduzido conforme o original, com informações e opiniões de responsabilidade do veículo.

Espaços Mais Cultura

MinC investe R$ 9 milhões para construir centros culturais

Edital contempla cidades com até 500 mil habitantes

O Ministério da Cultura vai investir R$ 9 milhões para construir 20 espaços culturais multiuso em municípios com até 500 mil habitantes. Os projetos foram selecionados pelo edital Espaços Mais Cultura e receberão R$ 450 mil cada. A ação tem como prioridade atender cidades com poucos ou nenhum equipamento cultural, como teatros e museus.

Dos 20 municípios contemplados, a maioria é do Nordeste – Bahia (4), Alagoas (2), Pernambuco (2) e Ceará (1). As regiões Sudeste e Sul tiveram cinco projetos selecionados cada: Minas Gerais (4) e São Paulo (1) pelo Sudeste; Rio Grande do Sul (2), Santa Catarina (2) e Paraná (1) pelo Sul. O município de Novo Acordo (TO) foi o único escolhido da Região Norte.

As cidades selecionadas com maior população foram Ponta Grossa, no Paraná, e Caucaia, no Ceará, ambas com cerca de 330 mil habitantes. As menores foram Pedrão, na Bahia, com sete mil habitantes, e Novo Acordo, Tocantins, com apenas quatro mil.

De acordo com a coordenadora de Ações do Programa Mais Cultura, Mônica Monteiro, os critérios levados em conta para a seleção dos projetos foram às condições socioeconômicas das comunidades onde serão instalados os Espaços Mais Cultura, além da escassez de equipamentos culturais nesses locais.

Os espaços terão biblioteca, cineteatro, além de salas multiuso para exposições e oficinas. “Esta é a inauguração de um processo para viabilizar espaços físicos que permitam o acesso da população mais carente à cultura”, ressalta Mônica Monteiro.

Os projetos passaram por três etapas de avaliação, entre análise de documentos e avaliações técnicas, onde foram observadas questões relativas ao urbanismo – como facilidade de acesso da população ao local -, e um projeto arquitetônico que respeitasse as características culturais do município.

Os Espaços Mais Cultura tem como objetivo a construção, reparação ou adaptação de centros culturais que permitam às comunidades o acesso a um centro cultural e a participação nas atividades por meio de uma gestão compartilhada com as prefeituras. “O Espaço Mais Cultura vai além de um prédio construído: é uma mobilização social. A comunidade é chamada a participar da gestão do equipamento antes mesmo das obras terem início”, ressaltou Mônica.

Oficina

Representantes dos 20 municípios com projetos selecionados deverão comparecer na Oficina de Trabalho Espaços Mais Cultura, realizada nos dias 20 e 21 de maio em Brasília. Entre as atividades, estão previstas consultorias para o ajuste dos projetos com o programa afim de que eles possam ser qualificados e otimizados de acordo com as respectivas realidades locais.

Os representantes das prefeituras selecionadas receberão, ainda, instruções de como melhor promover a mobilização social, ou seja, como fazer com que a comunidade se aproprie do espaço.

(Comunicação, SAI/MinC)

Museus de grandes novidades

Jornal do Brasil, Revista Programa, por Bernardo Costa, em 14/05/2010

Você já ouviu falar na Semana Nacional de Museus? Pois ela se inicia na segunda-feira trazendo uma série de atividades em mais de 50 instituições cariocas que combinam diversão, conhecimento e cidadania

Bernardo Costa

Museu vive do passado – e também do presente e do futuro. Para ajudar o grande público a perceber os museus como instituições interativas e modernas, espaços de fortalecimento de nossa identidade cultural e social, onde, além de aprender, é possível e necessário se divertir, é hora de a Semana Nacional de Museus entrar em cena. Com o tema Museus para a Harmonia Social, a iniciativa (que contará com cerca de 1.700 eventos espalhados por 588 instituições no país) é a chance para o carioca (re)conhecer seus 56 museus; a programação especial abrange também vários dos centros culturais da cidade (confira nas próximas páginas o roteiro completo das atividades).

- Vamos ver se incutimos no público uma visão diferente dos museus. Queremos que as pessoas os vejam não como algo parado no tempo, mas como uma instituição dinâmica, com papel importante de coesão social – comenta José do Nascimento Júnior, presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), órgão vinculado ao Ministério da Cultura responsável pela coordenação nacional do evento.

Nascimento Junior aponta que o número de visitantes no Brasil todo tem crescido exponencialmente.

Ano passado tivemos 29 milhões de visitantes. Em 2003, por exemplo, este número era de 15 milhões. No Rio de Janeiro, a proposta de integração entre museu e sociedade tem levado educação e cidadania a regiões carentes da cidade, historicamente marginalizadas em relação a atividades culturais. A criação do Museu da Favela, formado a partir da integração de moradores das comunidades do Cantagalo, Pavão e Pavãozinho, e do Museu da Maré, que durante a Semana Nacional de Museus recebe, na segunda-feira, a Medalha Pedro Ernesto, concedida pela Câmara Municipal, são exemplos.

- Os museus hoje são espaços de atividade e não de passividade – ressalta Marcia Bibiani, superintendente de Museus do Estado do Rio de Janeiro. – Deixaram de ser há muito tempo um espaço de contemplação apenas. Essas iniciativas nas favelas são muito importantes: não é porque a população carente está concentrada em regiões marginalizadas da cidade que ela não tem o direito de construção de sua memória. Na Maré, por exemplo, haverá contação de histórias sobre a comunidade. Temos que buscar a integração dessas pessoas, estimular o sentimento de cidadania delas, e os museus são essenciais neste processo.

Já no Museu da Favela, haverá uma grande feira cultural organizada nas lajes das casas, onde o público poderá ter contato com diversas manifestações culturais, como exposições e apresentações de música e capoeira.

- Em todos os museus rodeados por áreas carentes nós procuramos a integração com as comunidades, como acontece, por exemplo, em Niterói, com os museus Casa de Oliveira Vianna, Antonio Parreiras e do Ingá, onde haverá atividades voltadas para deficientes visuais e auditivos – informa Marcia Bibiani.

Também destacam-se os eventos programados no Museu Carmem Miranda, no Flamengo, e na Casa da Marquesa de Santos, em São Cristóvão: – Lá está sendo feito um trabalho muito importante com oficinas de artes plásticas para pacientes psiquiátricos. Em relação aos idosos, serão recolhidos relatos sobre a importância de Carmem Miranda em suas vidas. Esses depoimentos têm gerado um material muito rico. Já em São Cristóvão, os alunos das escolas locais e moradores das favelas do entorno serão convidados para visitas guiadas por pontos importantes do bairro no qual a família imperial se estabeleceu. É fundamental que eles conheçam esta história.

Reproduzido conforme o original, com informações e opiniões de responsabilidade do veículo.

Entrevista com Mara Gabrilli

Tetraplégica há dezesseis anos, a vereadora paulistana não se vê como vítima. Ela trava batalhas diárias para conseguir viver o básico – e para ir sempre além dele

Anna Paula Buchalla
Revista Veja – 12/05/2010

“Uma amiga me perguntou o que eu havia feito para melhorar minha ansiedade. ‘Quebrei o pescoço’, brinquei”

Mara Gabrilli tinha 26 anos quando sofreu um acidente de carro que a deixou tetraplégica. Passou cinco meses internada (“meses eternos”, segundo ela) – dois deles respirando com a ajuda de aparelhos. Nunca mais moveu um músculo do pescoço para baixo. Faltam-lhe os movimentos do corpo, mas sobra-lhe inquietude. Aos 42 anos, Mara é uma máquina de buscar soluções, ter ideias e fazê-las acontecer.

Desde o acidente, passou a pesquisar tudo o que diz respeito a lesões medulares, envolveu-se na causa dos portadores de deficiência e fundou uma ONG de apoio a pesquisas e atletas com deficiência. Foi a primeira titular da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida de São Paulo, em 2005. “Eu me sentia cada vez mais impotente para o tipo de reclamação que ouvia dos portadores de deficiência. Chegou uma hora em que me vi compelida a entrar na vida política”, disse Mara, que concedeu esta entrevista a VEJA:

Há dezesseis anos, a senhora sofreu um acidente de carro que a deixou tetraplégica. Como é a vida sobre uma cadeira de rodas?
Não seria honesto de minha parte dizer que sou uma pessoa muito melhor hoje por causa do acidente, ou que tenha sido algo inteiramente positivo. Mas posso dizer com total clareza de espírito que esse acontecimento trágico me deu a oportunidade de deixar de ser ansiosa, por exemplo. Eu sofria de ansiedade extrema e tentei de tudo para me apaziguar – até acupuntura fiz para aliviar a barra. Fumava maços e maços por dia, fazia um monte de coisas ao mesmo tempo e nada me causava satisfação. Ao sair de uma sessão de acupuntura, lembro-me de pegar um cigarro, abrir a janela do carro, tirar o acendedor do painel e, em vez de acender o cigarro, pressioná-lo contra o rádio – que queimou, é claro. Isso dá uma ideia de como eu vivia. Recentemente, ao contar essa história a uma amiga, ela me perguntou o que eu havia feito para melhorar. “Quebrei o pescoço”, brinquei. Mas a verdade é que o acidente estendeu o meu tempo e a minha disposição para refletir e relaxar. Nesse sentido, às vezes tenho até um sentimento de gratidão.

Como foram os primeiros meses depois do acidente?
Nos dias imediatamente seguintes, eu me sentia apenas um par de olhos. Acordei entubada e com uma “coroa de Cristo” sobre a cabeça. Trata-se de um aro de ferro que se encaixa em quatro pontos da cabeça, como se estivesse aparafusado. Ainda tenho as marcas dele na testa. Sobre o aro, há pesos que forçam a coluna a se manter reta. É um equipamento que se assemelha a um aparelho de tortura da Idade Média. Eu o usei durante três dias. Depois de dois meses de hospital, passei a me sentir um par de ombros. Era uma sensação aflitiva: tinha medo de cair de mim. Parecia estar no parapeito de uma janela alta, na iminência de uma queda. Com o passar do tempo, fui recuperando a consciência do meu corpo. Mais do que isso, aprendi a conhecê-lo de outra forma. É um exercício diário fazer com que ele se comunique comigo.

A senhora poderia descrever seu cotidiano de exercícios fisioterápicos?
Tenho uma rotina puxada, planejada semanalmente, de acordo com a minha agenda de trabalho. Aos sábados e domingos, quando tenho mais tempo, o treino é mais intenso. Faço, entre outras atividades, um tipo de bicicleta que me permite pedalar com a força dos meus músculos. Isso é possível graças a eletrodos colocados nas minhas pernas. Eles emitem estímulos que fazem com que os músculos se contraiam e distendam. Não é o meu cérebro que manda a informação de executar os movimentos, e sim o meu corpo que trabalha de forma autônoma, por assim dizer. É dessa forma que mantenho a musculatura tonificada e reforço o sistema cardiorrespiratório. Quando comecei a treinar, em 1997, pedalava durante três minutos, no máximo, porque cansava logo. Hoje, chego a fazer dez minutos de bicicleta com 3 quilos de peso. Deliro de alegria cada vez que consigo uma melhora.

Como foi a experiência de se reapresentar aos amigos e conhecidos como portadora de deficiência?
As reações deles foram exacerbadas. Alguns amigos se afastaram para sempre, porque não conseguiram conviver com a minha situação. Outros exageravam na companhia e achavam que não podiam me largar um minuto sequer. Na minha primeira ida ao cinema, cinco meses depois do acidente, encontrei um grande amigo do período de escola, que não via fazia dez anos. Ao deparar comigo na cadeira de rodas, 15 quilos mais magra e com o cabelo raspado, ele perguntou se estava tudo bem. Antes que eu respondesse, porém, disparou a falar de si. Fez isso por dez minutos ininterruptos e despediu-se rapidamente a pretexto de não perder o filme. Foi então que, para evitar constrangimentos mútuos, eu passei a tomar a iniciativa de, a cada encontro, ir logo contando que havia quebrado o pescoço. O curioso é que eu mesma não estava sempre triste. É claro que tive momentos em que sentia um vazio enorme… Mas, nessas horas, na maioria das vezes, eu estava sozinha. Ficar presa a uma cadeira de rodas, no início, significa perder os parâmetros da própria existência. Significa ter de se reeducar emocionalmente em vários aspectos. Ao final, aprendi que, não importa a condição física, cada um é responsável pela construção de sua própria felicidade.

Depois do acidente, a senhora chegou a pensar que talvez não valesse a pena viver?
Nunca. Fui apaixonada por um cadeirante, antes de me acidentar, e também cuidei de uma menina tetraplégica, no período em que vivi na Itália. Eu pensava que, se estivesse no lugar deles, preferiria morrer. Depois que fiquei presa a uma cadeira de rodas, no entanto, jamais cogitei me matar. A minha conclusão é que só conhecemos os nossos próprios limites quando nos defrontamos diretamente com eles.

O acidente deixou sequelas emocionais insuperáveis?
Passados todos esses anos, posso dizer que, dentro do possível, superei a tragédia que se abateu sobre mim. O acidente significou a maior mudança da minha vida, mas não a maior dor. Ele não diminuiu vivências intensas e pungentes da minha adolescência, por exemplo, que considero muito mais determinantes para a formação da minha personalidade. Já o meu namorado na ocasião, que dirigia o carro e que saiu da capotagem sem nem mesmo um arranhão, carrega uma ferida emocional grande até hoje. Eu me vi várias vezes na situação de ter de animá-lo, consolá-lo, de tentar fazer com que se sentisse melhor. Um dia, ele me disse: “Sabe o que sinto? Que fiquei paraplégico na alma, e isso é irreversível”.

A senhora precisa de alguém a seu lado 24 horas por dia. Perder a privacidade não a incomoda?
Encaro como uma forma de ter autonomia. Pouquíssimas pessoas na minha condição – que não conseguem mexer um único músculo do pescoço para baixo – podem ter um auxiliar à sua disposição durante todo o dia. Alguns paraplégicos e tetraplégicos passam a suar demais em partes específicas do corpo, porque o comando da regulação da temperatura do corpo fica localizado na medula, a área mais afetada em acidentes como o que sofri. No meu caso, não suo quase nada – o pouco calor que elimino sai pelas narinas. Mas preciso de alguém que as seque para mim. Meus braços também precisam ser massageados de hora em hora, porque ficam quase sempre na mesma posição. Apesar de não mover braços nem mãos, tento inserir movimentos, ainda que feitos por intermédio de outra pessoa, na minha rotina. Na hora de comer, não me contento em ser alimentada na boca. Gosto de segurar o talher que será levado até ela. Tomo banho de banheira e procuro lavar o corpo com as minhas mãos guiadas pela auxiliar. Essa foi a maneira que encontrei de entrar em contato com um corpo que ainda é meu.

A senhora sente algum tipo de preconceito em relação à sua condição?
Não diria preconceito, mas despreparo. Vou dar o exemplo de uma situação vivida pela minha amiga Leide Moreira, advogada e poeta, que sofre de esclerose lateral amiotrófica. Ela só conservou o movimento dos olhos, e é com eles que se comunica. Recentemente, fomos juntas a um show de Ney Matogrosso, cantor que ela adora. Como está ligada permanentemente a um aparelho que a ajuda a respirar, ela é transportada em uma maca. A casa de shows lhe cobrou quatro ingressos, alegando que ela ocuparia o espaço de uma mesa. Isso é absolutamente injusto. Mais um pouco e fazem o mesmo com cadeirantes ou obesos. Será que o gerente da casa imaginou que, ao abrir uma exceção, uma fila de macas se formaria à porta?

Qual sua opinião sobre a abordagem da tetraplegia na novela das 8 da Rede Globo?
Costumo brincar que, todas as noites, entra uma tetraplégica na casa da maioria dos brasileiros. Isso contribui para ampliar a reflexão. Vivem me perguntando, por exemplo, se não é uma licença ficcional a tetraplégica interpretada pela atriz Alinne Moraes mexer os braços. De fato, não é. A personagem Luciana é baseada no caso de uma amiga minha: ela é tetraplégica, mas consegue movimentar um pouco os braços. Tudo depende da vértebra que foi fraturada. A personagem criada pelo autor Manoel Carlos é uma menina rica, que sofreu um acidente e dispõe das melhores condições para enfrentar seus novos limites. Isso também é real. Recebo mensagens pelo Twitter de pessoas que questionam como seria se ela morasse na Rocinha. Respondo que, nesse caso, talvez ela não conseguisse sair da favela, mas seria uma situação tão verdadeira quanto a de quem tem acesso a uma vida com conforto.

Como a sua, por exemplo.
Sim. Sei bem a diferença que faz ter uma cadeira de 15 800 reais e uma almofada de 1 500 reais. Trata-se de um privilégio. Minha cadeira, por exemplo, fica em pé quando eu preciso. É bom porque consigo fazer xixi em pé. Como é difícil encontrar banheiros acessíveis a portadores de deficiência, com ela posso usar qualquer um.

A senhora sente dor?
Desde que quebrei o pescoço, as dores passaram a ser difusas. Por exemplo, se levo uma topada, eu a sinto, mas não consigo reconhecer a parte do corpo atingida. Recentemente, estava fazendo exercícios em uma máquina que me permite caminhar. Senti um desconforto e achei que era vontade de ir ao banheiro. Na verdade, o equipamento estava esfolando meus tornozelos, sem que eu percebesse.

Como é a sua vida amorosa?
Uma das primeiras perguntas que fiz ao médico, ainda na UTI, foi justamente o que aconteceria com minha vida sexual. Houve uma adaptação, é claro, mas não acho de forma nenhuma que a cadeira me limite. Quer saber? Ela faz até uma boa pré-seleção. Namorei durante sete anos e terminei no fim do ano passado. A minha vida sexual não é tão diferente assim. A intensidade da sensação não muda. O que muda é a maneira de sentir.

Quando sonha, a senhora se vê caminhando ou em uma cadeira de rodas?
A cadeira nunca está em meus sonhos, mas neles há a sensação de que algo em mim me segura.

Ao saber que um grupo de pesquisadores brasileiros estudava a injeção de células-tronco para a recuperação de lesões medulares, a senhora aderiu à experiência. Os resultados foram positivos?
Fiz autoimplante de células-tronco adultas, retiradas da minha medula óssea e introduzidas no local da lesão. Trinta pacientes fizeram esse tipo de autoimplante. Dezesseis tiveram uma melhora de sensibilidade. Mas só dois deles apresentaram maior evolução – eu e mais um. O que nos diferenciou do resto do grupo foi o fato de que ambos fazíamos exercícios físicos todos os dias. O médico que liderou o estudo não ficou entusiasmado com os resultados. Por via das dúvidas, todos os participantes tiveram amostras de seu sangue congeladas, para o caso de algum dia a pesquisa prosperar. Hoje, não faço tratamento nenhum. Só ginástica. Mas leio muito a respeito dos avanços nas pesquisas sobre lesões medulares. Acredito que tudo conspira a favor da reabilitação total. Eu não desisto de ser otimista.

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