Após crise, escolas de negócios repensam seu papel e modelo de ensino

Quanta diferença um ano faz! Em 8 de abril de 2008, a Harvard Business School comemorou em grande estilo 100 anos triunfantes de MBA. Um ano depois, publicou um estudo questionando seu papel e iniciou um debate online intitulado “How to Fix Business Schools” (Como Consertar as Escolas de Negócios). Harvard não está sozinha ao reconhecer que alguma coisa está errada no mundo do ensino de administração.

Pontos de vista sobre a culpa das faculdades no derretimento econômico vão de um extremo ao outro, assim como as receitas de como reconquistar a confiança das empresas e dos estudantes.

Richard Cosier, reitor da Krannert School da Purdue University, diz que a ganância pessoal e as práticas de empréstimos antiéticas foram as causas do problema, e não as escolas de negócios. Para ele, dizer que as escolas não deveriam ensinar modelos financeiros complexos é um erro. “É como dizer que você não pode ensinar química porque pode fazer as coisas explodirem. As pessoas tomam suas próprias decisões.” Outros são mais prudentes. Santiago Iñiguez, reitor da IE Business School da Espanha, representa a opinião de muitos quando diz que “não aceitar parte da responsabilidade seria dizer que não somos parte do jogo.”

Harvard, historicamente lenta em agir, foi uma das primeiras a se movimentar desta vez, juntamente com a Insead, e lançou programas executivos que não oferecem diploma, voltados para os novos problemas das empresas. A maioria das escolas está redirecionando as questões do risco e dos modelos financeiros em seus cursos. Mas isso será suficiente?

Na Stanford Business School, Garth Saloner, professor experiente que ocupará o cargo de reitor da faculdade a partir de setembro, acredita que a pedagogia e o conteúdo precisam mudar. Saloner foi o principal engenheiro do MBA remodelado de Stanford, que exige que todos os novos alunos trabalhem em pequenos grupos de estudo para discutir várias questões empresariais. O objetivo, diz ele, é “equipar os alunos para que eles pensem de uma maneira crítica sobre os problemas que as empresas enfrentam.”

Outros acreditam que o problema é mais profundo e sistêmico. Dipak Jain, reitor da Kellogg School da Northwestern University, diz que os últimos 15 anos de crescimento econômico tiveram um custo. “Os alunos passaram a se concentrar mais em ganhar dinheiro do que em aprender. É preciso haver uma correção nos salários dos MBAs.”

Henry Mintzberg, professor de administração na McGill do Canadá e na Insead da França e de Cingapura, é um crítico de longa data do modelo tradicional de MBA praticado nos Estados Unidos. Ele não faz rodeios e afirma que a pegadogia e a estrutura dos programas de MBA americanos precisam mudar. “As escolas de negócios dos EUA continuam tentando arrumar o que fazem e não entendem que precisam mudar”, diz.

Ele afirma que o método de análise de casos, no qual Harvard foi pioneira e que é replicado na maioria das faculdades americanas, ensina tomadas de decisões inapropriadas para os alunos mais jovens – que representam cada vez mais a população de MBAs nas salas de aula dos EUA. Na turma de 2008 de Harvard, por exemplo, mais de dois terços dos alunos haviam conseguido diplomas de graduação nos quatro anos anteriores.

Peter Tufano, professor de finanças de Harvard, diz que o método de estudo de casos e seu papel no desenvolvimento de “alunos arrogantes” foi uma das preocupações levantadas pela faculdade quando ela iniciou seus meses de autocrítica. Considerada a melhor escola de negócios do mundo, a Harvard Business School é um alvo fácil para aqueles que sentem a necessidade de culpar as instituições e seus formandos em MBA pelo colapso financeiro. Mas até mesmo os aristocratas de Harvard devem ter ficado horrorizados com o número de alunos formados pela escola que foram peças-chave no desenrolar da crise: Hank Paulson, ex-secretário do Tesouro dos EUA, Christopher Cox, ex-presidente da Securities and Exchange Commission (SEC), Stan O´Neal e John Tahin, os dois últimos presidentes do Merrill Lynch, e na Europa Andy Hornby, ex-diretor-presidente do HBOS.

O professor Mintzberg afirma que a inovação no ensino de administração não está mais sendo criada nos EUA, e sim na Europa. “As escolas de negócios americanas não criam administradores, elas criam orgulhosos arrogantes. Caso não corram o risco de quebrar, ou as inscrições não caiam para zero, elas não vão mudar.”


Della Bradshaw, Financial Times
Valor Online, 08/07/2009

A crise produz consciência

Valores como simplicidade, autenticidade e sustentabilidade estão tomando o lugar da ostentação, das novidades descartáveis e das celebridades instantâneas.

Luiz Alberto Marinho
Revista Vida Simples 

Assustados com a brusca freada da economia e com o desemprego galopante, os consumidores americanos simplesmente pararam de comprar. Por isso, em 2008 o comércio de lá amargou o pior Natal dos últimos 40 anos. Curiosamente, pesquisas recentes detectaram uma mudança no comportamento desse povo – mesmo as pessoas menos afetadas pela recessão passaram a enxergar o consumo de outra forma. Produtos mais simples de usar estão ganhando mercado nos Estados Unidos não apenas porque são mais baratos, mas principalmente porque ajudam a descomplicar uma vida que já anda complicada demais.

Em resumo, hoje o anseio dos consumidores vai além de promoções e descontos.
Eles querem também se refugiar em locais seguros e proteger as pessoas que amam. Isso significa que coisas como entretenimento doméstico, refeições prontas e semiprontas para comer em casa e lojas de vizinhança passaram a ser mais valorizados. Cuidar do planeta, a nossa grande casa, também ganhou mais importância. O luxo exorbitante está fora de moda e a palavra de ordem é cheap & chic (barato e chique), o que favorece quem vende roupas com design moderno por preços em conta. Porém aquelas pequenas indulgências irresistíveis, bem como produtos para atender às necessidades impostas pelo estilo de vida frenético e conectado das grandes cidades, continuarão na lista de compra dos americanos. Afinal, como alguém consegue viver no século 21, por exemplo, sem um smartphone?

Como disse o consultor de marketing Matt Thornhill: “As pessoas não vão comprar mais coisas. Vão, sim, tirar mais das coisas que compraram”. Mas será que esse raciocínio se aplica também ao Brasil? Eu diria que sim, mas somente em parte. A nova classe média, que constitui a imensa maioria dos nossos consumidores, ainda está no meio do processo de trocar eletrodomésticos antigos por outros mais modernos, de adquirir o primeiro carro, comprar uma casa nova, reformar a existente, colocar um computador na sala e os filhos na faculdade.

O alto nível de consumo das famílias bra sileiras, observado nos últimos anos, tem pouca relação com desperdício e ostentação. Por outro lado, pesquisas realizadas no nosso país mostram o início da gestação de um novo pensamento, que valoriza educação, relacionamentos, equilíbrio, sustentabilidade e responsabilidade social. Assim como nos EUA, também no Brasil começa a florescer a ideia de olhar menos para o umbigo e mais para a família, os amigos, o prédio e o bairro. Acredito que as dificuldades econômicas que provavelmente enfrentaremos neste início de 2009 apenas reforçarão essa disposição.

*Luiz Alberto Marinho é um consumidor consciente, mas também não vive sem o seu smartphone.
produtointerno@abril.com.br

Fazenda legal

Descubra quais são as 5 questões essenciais para garantir um futuro próspero no campo e conheça o agricultor brasileiro que está driblando a crise econômica com muita ousadia.

Xico Graziano
O Estado de São Paulo 

Fábio Jorge, pequeno agricultor, jovem, anda famoso na região de Valença (RJ). Ele tira 95 litros de leite por dia, ordenhando cinco vacas. Mais ainda, realiza o prodígio da produção com apenas 0,5 hectare de terra, tamanho de um campo de futebol. Um fenômeno.

Com apoio de José Rogério, médico veterinário, o ousado produtor revolucionou o sítio da família. Há um ano ele começou a participar de um projeto sobre gerenciamento de propriedades leiteiras, parceria carioca entre Embrapa, Federação da Agricultura e prefeitura local. Pois é, existe mais do que praia no Rio de Janeiro.

O exemplo ajuda na reflexão sobre como enfrentar a tremenda crise que se abate sobre a economia brasileira, atingindo fortemente o setor agrícola. Desde o ano passado, antes do plantio da atual safra, que começa a ser colhida, já se percebia o recuo do crédito rural comprimindo as aquisições de insumos agrícolas. Com menor uso de tecnologia, a estimativa mais recente do governo indica uma queda de 6,1% na safra brasileira de grãos.

A restrição do financiamento encontrou os produtores rurais apertados no caixa. O preço dos fertilizantes estourou quando o petróleo subiu para US$ 140 o barril. Para não falar do óleo diesel, do sal mineral, do arame de cerca, dos defensivos… tudo sobe com o petróleo. Curioso é que, agora, tendo o barril caído para US$ 40, pouco recuaram os preços na roça. A perversa lógica econômica vale na subida, nunca na descida. Estranho.

Por essas e outras aumenta o endividamento agrícola. O problema vem lá de trás, época inflacionária, quando o produtor rural financiava uma máquina e devia quatro. Os bancos deitaram e rolaram na chegada do Plano Real, engordando os débitos a receber. Sucessivas renegociações não obtiveram êxito, ainda mais considerando a ocorrência, mais recentemente, de três fortes secas, localizadas no Sul-Sudeste. Fora a malandragem daqueles que emprestam para nunca pagar, contando sempre com a prorrogação das dívidas no Congresso. Tudo somado, estima-se que a dívida rural, apenas com o sistema oficial de crédito, alcance R$ 85 bilhões. Somando a inadimplência com as tradings e com fornecedores, deve suplantar R$ 100 bilhões. Quase uma safra inteira.

A crise financeira mundial chega para encontrar fragilizada a agricultura nacional. Muitas incertezas rondam o campo. Frigoríficos solicitam concordata, derrubando a pecuária. Os preços internacionais estão fracos. Aparecem calotes nas exportações. Ninguém arrisca dizer como será o próximo plantio, com reflexos negativos em 2010.

Nesse turbulento cenário, olhando para a frente, pergunta-se: O que vai acontecer com o agricultor? Para muitos, certamente vai aumentar o desânimo, elevar o pessimismo. Alguns, desgraçadamente, vão quebrar, perdendo patrimônio. Outros, entretanto, na contra mão da desgraceira, se manterão altivos e otimistas. Passada a crise aguda, da qual ninguém escapará, irão progredir. Quem estará nessa?

Um roteiro do progresso começa com cinco questões básicas. Enfrentá-las será fundamental para superar a crise, preparando-se para prosperar no campo. Primeiro, escaparão da quebradeira aqueles agricultores que mantiverem atitude proativa, não se entregando ao fantasma da economia. Sabe-se que, por pior que sejam os problemas econômicos, as adversidades sempre criam novas oportunidades. Descobri-las será uma virtude.

Segundo, vai seguir em frente no campo quem tiver a humildade de aprender. As crises carregam boas lições. Nas épocas de elevada prosperidade, bons preços e mercado firme fica fácil lucrar na atividade. Com vacas gordas, a turma relaxa, gasta dinheiro à toa e descuida do negócio. Mas, quando as vacas emagrecem, sobrevive apenas quem tem competência. Hora de mostrar valor.

Em terceiro, esse apuro poderá ajudar a romper definitivamente com o individualismo, traço negativo da mentalidade rural. A dureza da situação impõe seguir a cartilha do associativismo e do cooperativismo. Grande parte dos agricultores, aliás, já descobriu que, sozinho, isolado, quebra a cara no mercado. Juntos, organizados, vingam mais fácil.

Em quarto lugar, cada momento difícil que afeta a agricultura ressalta a importância do profissionalismo. Acabou o tempo de ser amador, agricultor quebra-galho, gigolô da terra. Investir em tecnologia e melhorar a gestão da propriedade se torna obrigatório. A competição produtiva exige produtividade e qualidade.

Finalmente, vai prosperar no campo, passada a vicissitude da conjuntura, quem adotar práticas conservacionistas e trabalhar na agenda da sustentabilidade. Os agricultores de amanhã serão amigos, não adversários, do meio ambiente. Cuidarão de proteger as florestas, a água, o solo, a biodiversidade, a paisagem da natureza. Novas tecnologias, boas práticas agrícolas misturadas com gestão ambiental.

Fábio Jorge bem representa o novo agricultor brasileiro. Imagine ele enfrentando a crise com vaquinhas esfomeadas, cheias de carrapatos. Nem pensar. Sua atitude ousada, empreendedora e associativa o levou a entrar num projeto de melhoria tecnológica. A dificuldade do presente também vai afetá-lo, óbvio, pois o litro do leite hoje mal paga a conta do remédio do gado. Mas ele, com certeza, passado o momento atual, vai prosperar.

Tal possibilidade foi testemunhada dias atrás, em Barra do Piraí, pelos participantes do encontro da Fazenda Legal, um interessante programa conduzido pela Federação da Agricultura do Rio de Janeiro.

Enquanto a velha guarda vocifera as mazelas do campo, os jovens empreendedores rurais apostam no futuro. Em meio à perversa crise brota a esperança na roça.

Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo em 24/03/2009, na página A2.

O salvamento da crise e do clima

Por Carolina Derivi

Eu não sei quanto a vocês, mas eu já estou cansada de ouvir falar que a crise financeira e a crise climática precisam ser resolvidas em conjunto. Eu quero é mais resultado e menos discurso. Por isso adorei um infográfico do HSBC Centre for Climate Change que informa a porcentagem de “investimentos verdes” -tecnologias de baixo carbono- nos pacotes de enfretamento da crise em 12 países. (No Brasil, como vocês sabem, não tem pacote. Só marolinha…)

Não postei a imagem aqui porque o tamanho é muito reduzido, compromete a leitura.  Mas vocês podem conferir no site do The Guardian. A Coréia do Sul, quem diria, sai na frente com impressionantes 69% do total (US$ 38 bi) de investimentos, voltados para tecnologias limpas. Antes de ver o gráfico, eu tinha certeza que a liderança seria dos ponteiras de sempre, como Holanda e Inglaterra. Mas que nada… Por outro lado, é possível que o ranking não aponte necessariamente os países mais propensos ao desenvolvimento sustentável. Como Inglaterra e Holanda, entre outros, já vêm fazendo investimentos há muito tempo, pode ser que nesse pacote não tenha sido necessário incluir tanto a questão da sustentabilidade energética. Bom, isso é conjectura minha.

A China também é uma surpresa, com 34% de investimentos verdes em seu pacote. Não é pouca coisa, considerando o conselho recente de Sir. Nicholas Stern: fazer com que pelo menos 20% das tentativas globais de salvamento na crise sejam compostos de medidas para reduzir a emissão de gases de efeito estufa. A surpresa trágica é a Índia, que está coladinha no Brasil entre os países mais problemáticos para o clima, depois dos desenvolvidos, e tascou um redondo 0% de investimentos verdes em seu pacote de US$ 6.8 bi.

Recentemente, eu tive o prazer de conhecer o blog do Denis Russo – Sustentável é pouco. No post “o fim de uma era”, Denis diz que o ambientalismo como o conhecemos terminou no dia 17 de fevereiro, quando Obama anunciou “obscenos”  US$60 bi do seu famoso pacote de US$825 bi para o meio ambiente. O que ele quer dizer é que acabou o ambientalismo como projeto de esquerda, como contra-cultura, já que a ideia finalmente penetrou o mainstream.

Acho a observação interessante. Mas, não sei não, Denis… Desde “o fim da história” que a gente sabe que esses epitáfios raramente funcionam. O pacote nos EUA é um marco, sim. Mas se é para esquentar a mesa de apostas, eu só me atreveria a especular sobre o fim do ambientalismo depois de Copenhagen, quando todos os países signatários de Kyoto vão ter que se virar com medidas conjuntas bem revolucionárias para o clima.
Ou não. E daí voltaremos à estaca zero… 


A sensatez na crise

Por Carolina Derivi

Eu sei que já chamei de imperdível um monte de coisas recomendadas nesse blog, mas como diria uma cantora que gosto muito “dessa vez, é verdade”. O artigo de Sérgio Abranches – Da crise sairá a nova economia – é realmente imperdível. No momento em que cada um corre para salvar o seu e prepondera o comportamento de manada, sobra pouco espaço para o longo prazo. 

A maioria dos analistas sequer se arrisca a desenhar prognósticos econômicos para além de 2009. É bastante corajoso aproveitar o momento para pensar o que isso significa para a construção da sustentabilidade e de uma nova economia. E é isso que faz Abranches na sua coluna, no portal O Eco.

Em resumo, o jornalista vai muito além dos primeiros desdobramentos mais óbvios: 1 – com recessão, o crescimento diminuiu, com ele as emissões de carbono e o clima sofrerá menos. 2 – Por outro lado, diversas ações perpetradas pelo mercado, sobretudo aquelas ligadas a RSA (responsabilidade socioambiental das empresas) podem perder força. Em tempos de crise, o que se encara como “perfumaria” tende a minguar.

Mas num cenário mais amplo, argumenta Abranches, os investidores também tenderão a ficar mais cautelosos. Depois de recuperado o ambiente de investimento, é inevitável atentar para o custo-carbono, cada vez mais premente, seja pela ação taxadora de governos, seja pela demanda do próprio mercado.  

“Investir em uma termelétrica, por exemplo, será investir em um negócio que pode se tornar economicamente inviável em menos de uma década. O mesmo se pode dizer da siderurgia, da petroquímica e de tantos outros setores que dominaram a indústria “moderna” no século XX”, diz Abranches. É uma aposta, claro. Mas de tão sensata, dá até pra ensaiar a velha sabedoria de que há males que vem pra bem.

Sustentabilidade deve pautar mercado pós crise

Rodrigo Zavala

“Bem analisada, a crise que estamos sofrendo é precisamente uma crise de irresponsabilidade”. As palavras do professor consultor da Universidade de Stanford University (EUA), Antonio Vives, são parte de um consenso em voga, que entende a crise financeira internacional como uma lição de prudência e da necessidade de inclusão dos conceitos de sustentabilidade no núcleo dos negócios.

Essa lógica tem como fundamento a crença de que as empresas socialmente responsáveis estarão na linha de frente a partir de agora. “Cresce a exigência dos consumidores, dos investidores, dos trabalhadores e dos cidadãos com o setor privado. Essa cobrança social múltipla é um fenômeno objetivo e inevitavelmente crescente a partir da maturidade da sociedade e suas instituições”, afirma Vives.

No entanto, um dos questionamentos colocados pelo professor é justamente até que ponto esse otimismo é uma realidade ou um Valhalla teórico? Segundo Vives, muito se fala sobre responsabilidade social de empresas na América Latina, onde diz existir uma surpreendente proliferação de publicações, especialistas e fóruns sobre o tema.

“É um bom sintoma de maturidade. Porém, temo que seja uma conversa entre convencidos. Estamos com um excesso de oferta recomendações ante uma escassez de demanda. São as empresas e os consumidores aqueles que deveriam atuar, e, nesse ponto, falta muita consciência, com muito para fazer”, critica.

As questões levantadas pelo professor não são isoladas; de um acadêmico que, de fora, acena dando conselhos. Um bom exemplo de como o debate tem se dado vem do encontro “Perspectivas da Crise Econômica no Brasil”, realizado no último dia 22, em São Paulo. Enquanto o presidente do Instituto, Ricardo Young, afirmava que a crise é uma oportunidade para revelar quais são os empresários realmente comprometidos socialmente, a platéia patinava nas reflexões dos convidados.

Mediado pela jornalista Miriam Leitão, o encontro reuniu o professor titular do departamento de economia da FEA-USP, José Eli da Veiga, o economista-global do Banco Itaú, John Welch , o diretor de planejamento e especialista em crise do BNDES, João Carlos Ferraz e o professor da PUC-RJ Sérgio Besserman Vianna. Todos eles discutiram o evidente: ninguém tem, ainda, uma visão clara e sistêmica do desarranjo econômico que varre o planeta, apesar de pensá-lo como uma oportunidade.

Segundo José Eli da Veiga será preciso promover transformações profundas nas economias para se iniciar a recuperação. “Os mecanismos tradicionais para superar crises não vão dar resultados”, disse. Já o economista Sérgio Besserman, que atua na PUC-RJ e também pertence aos quadros do BNDES, acredita que vivemos um momento de inflexão da história. “Nada será como antes”, diz ele.

No site do Ethos, um texto sobre o evento diz “entre os palestrantes pareceu haver um consenso que antes só freqüentava mesas de ONGs e de militantes da esquerda: é uma insensatez acreditar que o mercado é capaz de se autoregular”. Assim, valores como ética e sustentabilidade, que são externos ao mercado, precisam ser impostos a ele.

Segundo Ricardo Young, presidente da organização, a idéia deste encontro com economistas foi fomentar o debate e plantar sementes de conhecimento que podem ajudar a inovar. Ele lembrou que é um bom momento para colocar a sustentabilidade, os novos paradigmas de produção e consumo, menos impactantes ambientalmente, socialmente mais responsáveis e economicamente menos predatórios como alternativa viável para a retomada do desenvolvimento.

Nesse contexto, Antonio Vives afirma que é preciso ser realista e não viver de ilusões. “Os promotores da responsabilidade social de empresas devem entrar mais em contato com a realidade empresarial para se interar de verdadeiros obstáculos e poder desenhar intervenções efetivas e sustentáveis”, crê.

Publicado em www.gife.org.br

Gordon Brown – Protecionismo é ruína

O primeiro-ministro britânico quer encontrar uma solução de consenso para a crise econômica e diz que todo mundo perde com o aumento de tarifas.

Duda Teixeira
Revista Veja 

“Quando os países atuam de forma unida, o impacto nos negócios e na confiança do consumidor é muito maior do que quando agem separadamente”

O primeiro-ministro da Inglaterra, Gordon Brown, foi um dos primeiros governantes a acusar a grandeza da crise econômica e carrega nos ombros a responsabilidade de ajudar a debelá-la. Ele é o articulador da Cúpula de Londres, que no próximo dia 2 reunirá os dirigentes das vinte maiores economias, representantes de 85% do PIB mundial. No encontro de um único dia, Brown pretende forjar uma ação conjunta para retomar o crescimento e a estabilidade econômica. Parlamentar trabalhista desde 1983, esse escocês de 58 anos assumiu o cargo de primeiro-ministro em junho de 2007, substituindo Tony Blair, de quem foi ministro das Finanças por dez anos. Enquanto se preparava para uma viagem a São Paulo, onde se encontrará com o presidente Lula, Brown deu a seguinte entrevista a VEJA.

O senhor tem advertido que a adoção de medidas protecionistas seria contraproducente no combate à crise econômica. Por que ações que visam a preservar empregos e fortalecer o mercado consumidor doméstico atrapalhariam a recuperação da economia global?
Considero incompreensível que alguns países possam ceder à tentação de recorrer a políticas que põem em primeiro lugar o interesse de suas empresas nacionais, produtoras e exportadoras. Isso pode ser muito perigoso. Estima-se que um aumento na aplicação de tarifas em todo o planeta poderia encolher o mercado mundial em 728 bilhões de dólares. Restringir importações ou subsidiar a produção nacional acaba por elevar as despesas para os consumidores e para quem paga impostos. Isso deixa a população com menos dinheiro para gastar na compra de bens e serviços. Devemos manter nosso compromisso com o livre mercado e continuar a trabalhar para concluir a Rodada Doha das negociações sobre a liberação do comércio mundial. Também precisamos nos esforçar para que a Organização Mundial do Comércio tenha um papel maior em monitorar e fortalecer os compromissos com o mercado. Em tempos de dificuldade econômica, argumentos protecionistas sempre voltam à tona, mas não podemos nos deixar levar por eles.

“Uma ideia em discussão é criar normas para garantir que, em todo o mundo, os bancos administrem melhor seu capital. Os mercados devem ser livres, mas não podem ser livres de valores éticos”

A crise econômica pode pôr em risco a integridade da União Europeia?
A situação tem demonstrado que os membros da União Europeia podem trabalhar juntos para atuar em harmonia e com impacto real na vida dos trabalhadores europeus, de suas famílias e nos seus negócios. Uma política conjunta da União Europeia promoveria também maior transparência na regulação dos serviços financeiros europeus e mundiais. Essa é uma questão crucial, uma vez que estamos todos empenhados em não deixar que a crise financeira atual se repita no futuro.

O que a Europa está fazendo para sair da crise?
A União Europeia tem um papel-chave a desempenhar nos preparativos para a Cúpula de Londres. Três meses atrás, os 27 países-membros do grupo concordaram em dar uma resposta coordenada à crise, agindo com rapidez para aumentar os gastos e acelerar as reformas. Trata-se, sobretudo, de ações nas áreas de educação, emprego, eficiência energética e infraestrutura digital. Esse tipo de política é crucial. Quando os países atuam de forma unida, o impacto nos negócios e na confiança do consumidor é muito maior do que quando agem separadamente.

O governo britânico gastou bilhões de libras para salvar os bancos nacionais. Medidas com perfil estatizante como essa sinalizariam o fracasso do capitalismo e do livre mercado?
Acredito firmemente que as economias baseadas no livre mercado oferecem melhorias reais no padrão de vida das pessoas. Seria um erro grosseiro desistir desse modelo apenas por causa da crise econômica. Os problemas com que estamos lidando, porém, podem reforçar a necessidade de uma regulação mais efetiva dos mercados financeiros para que consigam funcionar adequadamente e produzir crescimento econômico. Os mercados devem ser livres, mas não podem ser livres de valores éticos. O governo britânico interveio no setor bancário para garantir que ele continue a apoiar as famílias e os empresários. Os bancos têm de prover as fundações para que a economia possa crescer no futuro. Isso é algo com que o presidente Lula e eu concordamos firmemente, e devemos conversar sobre o assunto durante minha visita.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), que estava esquecido, deveria ganhar mais poderes para auxiliar economias à beira da falência?
Todos os países estão sentindo os impactos da crise, e é necessário que eles possam contar com o FMI para estabilizar suas economias em dificuldades. Não usar esse instrumento seria impingir sofrimento desnecessário a seus habitantes e também pôr a todos em risco, pois os problemas econômicos hoje facilmente transbordam pelas fronteiras. Defendo um aumento substancial dos recursos do FMI, para que essa instituição esteja apta a apoiar todos os países que precisem de socorro.

Os bancos brasileiros estão menos expostos aos riscos que arruinaram instituições ao redor do mundo. As leis que regulam o sistema bancário brasileiro poderiam servir de modelo para o sistema europeu?
Uma das ideias que estão sendo discutidas atualmente é a criação de normas para garantir que os bancos em todo o mundo administrem melhor seu capital. Caso essa sugestão seja acatada, as instituições terão mais dinheiro em caixa em momentos de crise e, desse modo, serão capazes de despejar aos poucos essas reservas no mercado. Seria possível, assim, prevenir desabamentos no setor financeiro. Quebras, como as que vimos, comprometem os interesses das pessoas e de suas famílias, que podem não conseguir pagar ou pedir empréstimos. O Brasil, por outro lado, tem um grande, moderno, lucrativo e bem capitalizado setor bancário. Os bancos brasileiros têm conseguido um desempenho muito bom nos últimos meses, e não há dúvida de que podemos tirar lições desse modelo. Essa é uma das razões pelas quais convidamos o Brasil e outros países emergentes a se tornar membros do Fórum de Estabilidade Financeira, um espaço criado em 1999 para que diretores de bancos centrais, ministros e autoridades de órgãos internacionais troquem informações.

Estabelecer laços mais fortes com o Brasil e com países como a China e a Índia pode ajudar a Inglaterra e a Europa a sair mais rapidamente dessa crise?
Os problemas atuais afetam a economia mundial como um todo, não apenas países ou regiões. À medida que a crise se aprofundou, seus impactos se espalharam e contaminaram os emergentes também. Nenhuma nação está totalmente isolada de suas consequências. Assim, todos devem fazer sua parte para reformar e melhorar os sistemas internacionais. Muitos países já agiram para minimizar os impactos, mas há também políticas coordenadas que podem ser tomadas em conjunto pelos bancos centrais em relação às taxas de juro. Todas as nações que estarão na Cúpula de Londres têm um papel substancial a desempenhar no soerguimento da economia global e no fortalecimento do aparato financeiro.

“Preocupar-se com as mudanças climáticas é uma necessidade, não um luxo. Não é algo que podemos adiar até que a economia melhore. O investimento em tecnologia verde será a garantia de uma recuperação sustentável”

Medidas para reduzir as emissões de carbono na atmosfera e diminuir os efeitos do aquecimento global não se tornariam um peso a mais para a economia mundial?
Não seria melhor adiar esse tipo de política até que o mundo se livrasse dessa crise? Preocupar-se com as mudanças climáticas é uma necessidade, não um luxo. Não é algo que possa ser adiado até que as previsões econômicas se mostrem otimistas. Investimentos em negócios e tecnologias verdes serão a garantia de uma recuperação resistente e sustentável, pois não correríamos o risco de um renascimento dos elevados preços de energia. Essas medidas podem ainda criar empregos a curto e médio prazo. É de nosso total interesse, portanto, que o mundo ingresse em uma trajetória mais limpa de crescimento. Um passo importante para isso é traçar um ambicioso acordo global sobre mudanças climáticas no encontro em Copenhague, capital da Dinamarca, em dezembro deste ano.

As ameaças terroristas na Inglaterra e nos Estados Unidos parecem ter diminuído, enquanto os ataques dão a impressão de ter se transferido para países periféricos, como o Paquistão. Isso deve levar a uma mudança na estratégia de combate ao terror?
Embora a Inglaterra e os Estados Unidos não tenham sofrido ataques recentes de terroristas internacionais, nossas agências de segurança e de inteligência continuam rastreando a pista de inúmeras ameaças. Os últimos ataques contra turistas em Mumbai, na Índia, e contra a equipe de críquete do Sri Lanka em Lahore, no Paquistão, demonstram que a ameaça é grande e é preciso manter a vigilância. Nossa abordagem para combater o terrorismo deve ser abrangente. Em seu cerne, tem de incluir uma estratégia baseada na cooperação internacional entre as polícias e as forças de segurança. Devemos fazer esforços de grande amplitude para combater os extremistas, sem para isso abrir mão do respeito pelos direitos humanos fundamentais.

Como o senhor se define ideologicamente?
Sempre fui um progressista. Um membro do governo deve se perguntar a todo momento o que ainda pode fazer para melhorar a vida das pessoas comuns. Temos a obrigação de promover prosperidade e crescimento econômico e ao mesmo tempo construir uma sociedade mais justa. Quando deparamos com uma crise econômica como a atual, essa postura fica mais importante do que nunca. Se olharmos para o passado, para os momentos de instabilidade, veremos que foram os pobres, os idosos e os trabalhadores comuns que sempre pagaram o preço mais alto pelas crises. Eles são sempre a parte mais vulnerável. Nessa ocasião, temos o dever de pôr esses grupos em primeiro lugar e protegê-los dos piores e mais prolongados efeitos da crise.

Qual será o foco de suas conversas em São Paulo?
O Brasil é a décima economia do mundo e será um dos participantes da Cúpula de Londres, no dia 2 de abril. Esse evento reunirá os governantes das vinte maiores economias, que representam 85% do PIB mundial. Nesse único dia, teremos uma oportunidade vital para elaborar uma ação internacional com o objetivo de restaurar o crescimento e a estabilidade da economia. Em minha visita ao Brasil, vou conversar com o presidente Lula sobre as respostas que brasileiros e britânicos estão dando à crise e trocar ideias sobre políticas prioritárias que poderão entrar na agenda da reunião em Londres. Outra meta da visita é ampliar as excelentes relações de negócios que meu país mantém com o Brasil. Nunca tivemos tantas companhias brasileiras e britânicas comprando e vendendo produtos e serviços entre si. O comércio bilateral está crescendo muito rapidamente, em um ritmo sem paralelo com outros períodos históricos. Apenas no ano passado, nossas exportações aumentaram mais de 50%.

O senhor acompanha o futebol brasileiro?
O Brasil ocupa um lugar especial no coração dos torcedores de todo o planeta. Sempre fui um grande fã, dos tempos de Pelé e Jairzinho, do grande time de 1970, aos grandes nomes que hoje atuam no campeonato inglês e na Copa dos Campeões da Europa. A primeira Copa do Mundo a que assisti ao vivo foi na Espanha, em 1982, quando o Brasil enfrentou a Escócia na primeira fase. Claro, o Brasil venceu por 4 a 1, e realmente deveria ter ganho a Copa do Mundo naquele ano. O time de Sócrates, Zico e Falcão era magnífico. Nunca me esquecerei de vê-los ao vivo. O Brasil sempre jogou do jeito que deve ser jogado. Os atletas brasileiros são o que há de especial no futebol.

A lengalenga do fim da sustentabilidade

Por Ana Luiza Herzog | 18/02/2009 – 15:50

A lengalenga de que a crise financeira deve jogar por terra as estratégias de sustentabilidade das empresas aparece, vai embora, aparece, vai embora… sorte é que, com bastante freqüência, aparecem também bons artigos explicando porque a sustentabilidade, a despeito da crise, e ainda mais depois da crise, tornou-se uma questão crucial para as empresas. Um deles saiu recentemente no Financial Times e é de autoria de Daniel Vermeer e Robert Clemen, dois professores da Duke University, nos Estados Unidos. Vou reproduzir aqui o que achei mais legal do que eles disseram sobre os princípios que devem sobreviver à crise - e de que maneira:

- A desaceleração na economia vai forçar as empresas a tornar seus esforços em prol da sustentabilidade mais robustos, estratégicos. Em contrapartida, ações de cunho mais filantrópico, ligados à responsabilidade corporativa mais tradicional irão mesmo perder fôlego

- A crise explicita ainda mais a necessidade das empresas fortalecerem suas estruturas de governança corporativa, uma vez que a imagem de muitas delas está queimada. E não se trata de simplesmente cumprir a lei. Segundo os autores, as empresas terão de incorporar procedimentos mais transparentes de tomada de decisão e de relato das mesmas - caso contrário, passarão a ter problemas com seus stakeholders
 
E quanto à ecoeficiência?

As empresas há muito perceberam que azeitar processos fabris para produzir mais, usando menos recursos e matérias-primas é sinônimo de economia e, consequentemente, de um balanço financeiro mais saudável. A questão é que, muitas vezes, essas melhorias nos processos produtivos demandam, sim, investimentos vultosos. E definitivamente … eles não serão feitos agora. Ou seja, empresas que não descobriram ainda as benesses da ecoeficiência têm tudo para entrar na onda agora e conseguir bons resultados sem grandes desembolsos, fazendo coisas simples … reaproveitando a água usada num processo nobre aqui num outro menos importante ali, vendendo um sub-produto que antes ia para o aterro sanitário para uma outra empresa, queimando um outro sub-produto para gerar energia … Já as empresas que abraçaram a causa há mais tempo e já fizeram o que descrevi acima e muito mais, não se mexerão agora para comprar aquela nova máquina que consome metade da energia que a atual. Esse salto terá de esperar. Além do quê, lembram os autores, sejamos realistas: com os preços de commodites como petróleo, carvão e gás natural em baixa, o sex appeal da ecoeficiência diminuiu bastante … infelizmente.

 

E os produtos verdes?

Os consumidores continuarão a se empolgar com eles. Menos, porém, com itens muito caros, como um carro híbrido, e mais com produtos mais baratos e que ofereçam benefícios mais imediatos, tais como uma lâmpada fluorescente ou um alimento orgânico. Isso significa que os grandes varejistas, tais como Wal-Mart e Tesco, não devem amenizar as pressões para que seus fornecedores fiquem verdes. Afinal, mesmo com a crise, não vamos parar de procurar por esses produtos nas prateleiras. 

Você consome mais entretenimento na crise? A indústria aposta que sim

Por Ana Paula Sousa

São todos ladeira abaixo os índices econômicos que nos chegam nestes tempos de crise mundial. Todos, não. Quase todos.

Começam a pipocar, aqui e ali, rojões em torno da crise. Muitos deles disparados pela indústria do entretenimento.

O New York Times noticiou que, desde que explodiu a crise nos Estados Unidos, a venda de games cresceu 20% no País.De acordo com o jornal, os jogos, pelas mil possibilidades que oferecem, estariam ocupando o espaço de outras formas de entretenimento mais dispendiosas – de parques de diversões a cinema.

Na Inglaterra, a onda é falar do sucesso da temporada dos musicais.

O Jornal Hoje, da Rede Globo, repercutiu ontem o assunto com uma reportagem que dizia estarem esgotados os ingressos para inúmeros espetáculos.

Priscila, a Rainha do Deserto, por exemplo, vendeu todos os ingressos da temporada antes mesmo de estrear.No Brasil, a crise também é a esperança para um negócio que, nos últimos dois anos, encolheu cerca de 40%: o aluguel de DVDs.

Em decorrência da pirataria, do download e da própria da Internet, que consome parte do tempo dedicado ao lazer, muitas locadoras viram os clientes sumir. Há quem aposte que, agora, uma parcela deles voltará.

A unir todos esses casos, estão algumas justificativas.

A crise, seja pelos efeitos psicológicos, seja pelos efeitos práticos, tende a fazer com que as pessoas cortem os gastos altos e supérfluos.

Pois, entre os mais abastados, no lugar de uma viagem no final de semana, entraria, por exemplo, uma ida ao teatro.

Entre os mais econômicos, uma saída para jantar poderia ceder lugar a uma pizza no sofá, acompanhada de um DVD.

Será mesmo?

A crise não é econômica. É ética, portanto cultural

Leonardo Brant em Cultura e Mercado

Embora os efeitos econômicos da crise sejam os mais alarmados e comentados pela mídia, precisamos nos dedicar um pouco do nosso olhar para as suas reais causas, de natureza ética e cultural.

 

Vivemos mecanicamente num mundo onde o capital e a especulação sobre os recursos naturais e a subjetividade humana se sobrepõem a qualquer outra necessidade. O lucro tornou-se um objetivo em si. O bem estar social, a igualdade e a solidariedade cristalizaram-se nos livros de história. Em nome da liberdade de todos, promovemos os interesses de um número cada vez menor de pessoas.

 

Mas se a crise é cultural e ética, por que então movemos todos os esforços para resolver as questões econômicas que, em última análise, desencadearam a angústia e o deusdará? Simplesmente por que nos desconectamos por completo da dimensão ética e cultural da vida em sociedade.

 

O Brasil vive um momento histórico importantíssimo. Conquista, passo-a-passo, avanços sociais internos e, ao mesmo tempo, insere-se de maneira definitiva na arena global, com voz e gesto. Não existe melhor oportunidade para retomarmos valores e princípios em nossa sociedade diversa, pacífica e sustentável.

 

À sociedade civil, que vive os efeitos da crise, mas não sofre as pressões políticas de lobbies e defesas de interesses, cabe o reconhecimento dos esforços governamentais e o diálogo. Mas precisa fazer barulho para sobrepor os grandes interesses da nação sobre as miudezas.

 

Por isso, a importância da proposta de articulação nacional iniciada pelo Instituto Pensarte. Precisamos deixar as diferenças de lado e criar um laço de união entre todos os agentes envolvidos com a questão cultural.

 

É agora ou nunca!

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