Oficinas de Capacitação

SID/MinC realiza oficinas do Prêmio Culturas Ciganas em diversas cidades do país

A Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura (SID/MinC) em parceria com a Regional de Minas Gerais e a Pastoral dos Nômades do Brasil, realizou na última terça-feira (dia 27), em Belo Horizonte, mais uma oficina de capacitação do Prêmio Culturas Ciganas 2010.  As inscrições para o Concurso Público foram abertas no último dia 16 de abril e se encerram no dia 12 de julho de 2010. O Edital premiará 30 iniciativas que envolvam trabalhos, individuais ou coletivos, que fortaleçam as expressões culturais ciganas e contribuam para a continuidade e manutenção das identidades dos diferentes clãs e povos presentes no Brasil, que somam mais de meio milhão de pessoas.

A SID/MinC já realizou duas oficinas, uma em Goiânia e outra em Recife, e uma Videoconferência na Região Nordeste, com o objetivo de treinar gestores, técnicos e pessoas do segmento interessadas em participar do Prêmio. As oficinas, que serão realizadas em diversos estados brasileiros, contam com a participação dos parceiros da SID na realização do Prêmio e têm, como foco principal, dar esclarecimentos e orientações sobre o Edital.

Para o mês de maio já estão programadas mais nove oficinas que acontecerão nas três capitais da Região Sul (Florianópolis, Curitiba e Porto Alegre), no Rio Grande do Norte (Natal e Seridó) dias 10 e 11, na Paraíba (Souza) dia 14, na Bahia (Porto Seguro) dia 20, e na capital do Rio de Janeiro dia 24. Também no dia 24 de maio, a SID/MinC realiza uma grande oficina em Brasília, quando pretende reunir os ciganos e gestores da Capital Federal, do Distrito Federal e de cidades do entorno. O encontro também terá a presença de mais 10 gestores de outros estados do país.

A nova edição do Prêmio Culturas Ciganas distribuirá R$ 300 mil em prêmios, sendo R$ 10 mil para cada iniciativa premiada e será realizado em parceria com o Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa (SGEP); com a Secretaria Especial de Promoção de Políticas para a Igualdade Racial (SEPPIR) por meio da Subsecretaria de Políticas para Comunidades Tradicionais e da Subsecretaria de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH);  e com a Pastoral dos Nômades do Brasil.

Calendário das Oficinas de Capacitação da Região Sul

Cidade: Porto Alegre (RS)
Data: 04 de maio, das 9h às 18h
Parcerias: Representação Regional Sul e Secretaria Municipal de Cultura
Local: Sala 400 da Usina do Gasômetro – Rua Presidente João Goulart, nº 551

Cidade: Florianópolis (SC)
Data: 05 de maio, das 9h às 18h
Parcerias: Representação Regional Sul e Fundação Catarinense de Cultura
Local: Museu Histórico de Santa Catarina  – Palácio Cruz e Sousa, Praça XV de Novembro, nº  227,  Centro

Cidade: Curitiba (PR)
Data: 06 de maio, das 9h às 18h
Parcerias: Representação Regional Sul e Fundação Cultural de Curitiba
Local: Teatro Universitário de Curitiba (TUC) – Galeria Julio Moreira, Largo da Ordem, Bairro São Francisco

As informações sobre as Oficinas da Região Sul podem ser obtidas pelo telefone: (51) 3311-5331, com Carla Ribeiro.

Veja mais informações sobre o Edital e confira os locais e data das próximas oficinas na página da SID/MinC www.cultura.gov.br/diversidade ou pelo endereço eletrônico premioculturacigana2010@cultura.gov.br.

Confira o Edital.

Acesse a Cartilha.

(Heli Espíndola- Comunicação/SID)

Mensagem para você

Os pais podem não notar, a escola também não, mas toda criança emite sinais claros de que há problemas na sala de aula. A boa notícia é que ainda dá tempo de desarmar a bomba do fim do ano e deixar tudo lindo no boletim. Mas você precisa se envolver nessa missão de resgate

Paulo de Camargo
Revista Claudia – 05/2010

Quando 2010 chegar ao fim, cerca de 5,3 milhões de estudantes do ensino fundamental e médio das escolas brasileiras terão uma decepção. Segundo o Censo Escolar, esse é o número médio de alunos reprovados por ano no país. Seu filho não precisa entrar nessa estatística por dois bons motivos. Primeiro porque ainda estamos no segundo bimestre, bem longe do final do ano e do fantasma da repetição inevitável. E segundo porque a criança ou o adolescente emite sinais de que algo vai mal muito antes de a bomba ser ativada. Ele sente dor de barriga na hora de ir para a escola? Demonstra preguiça em fazer a lição de casa?

Não consegue organizar bem o material escolar? Segundo a educadora Rosa Filomena Ignarro Elias, coordenadora pedagógica do 2º ao 5º ano do Colégio Sion, em São Paulo, esses comportamentos já deixam entrever que há perigo no ar. Os sintomas de que a criança está passando por dificuldades também podem estar na cara – literalmente. “É frequente que os problemas no colégio se manifestem por meio de atitudes inadequadas, como a falta de higiene pessoal e espírito briguento. Os pais devem observar essas mudanças e interferir para impedir danos maiores”, diz Quézia Bom bonatto, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia. É hora de agir, e rápido, para não deixar a situação piorar. Nosso time de especialistas explica o que é preciso fazer já.

PARA O QUE DER E VIER
A atitude número 1 para ajudar seu filho é colocar-se ao lado dele. A ideia é que se sinta acompanhado, jamais julgado ou intimidado. Portanto, nem pensar em expressar opiniões que só vão lhe fazer mal, do tipo “matemática não é com ele” ou “esse garoto não é tão inteligente quanto o irmão”. “Esses comentários são uma espécie de profecia autorrealizável, pois levam as crianças a acreditar que possuem limitações irreais”, explica a psicóloga Cláudia Tricate, professora da Universidade de Santo Amaro (Unisa), em São Paulo. É positivo, isso sim, reforçar a crença de que os obstáculos podem ser superados. “Os filhos devem ter a convicção de que podem levar a sério o que os pais dizem para poder estabelecer laços de confiança com eles”, afirma Rosa Elias, do Colégio Sion. Dessa maneira, a criança irá perceber que estão olhando por ela e se sentirá segura. Segundo Rosa, famílias que agem assim ajudam o jovem a acreditar que conseguirá vencer desafios – inclusive aqueles da vida escolar.

ELE PRECISA DE ESPAÇO
Você é mais produtiva trabalhando em um local limpo, arejado e organizado, certo? Com seu filho, não é diferente. Procure proporcionar a ele um ambiente de estudos tranquilo, bem iluminado e com circulação de ar adequada. Os resultados (bons) vão aparecer, acredite. Ok, a gente sabe que ele é da geração Y e, portanto, capaz de fazer muitas coisas ao mesmo tempo – conversar pelo MSN, ouvir o iPod, espiar a TV… Mas, se tem dificuldades na escola, é possível que algo não esteja saindo a contento. Você já disse a ele para desligar o som e se desconectar de tudo o que não seja o material escolar na hora de estudar? Talvez esteja faltando concentração para a criança quando se debruça sobre os livros – o que pode ser corrigido tirando os equipamentos eletrônicos da tomada nesse momento.

O DILEMA DA LIÇÃO DE CASA
Segundo a psicóloga Cláudia Tricate, os pais determinar horários de estudo e conferir a lição de casa foi feita. Mas nada de fazer o dever pela criança ou corrigi-lo, o que é papel do professor. Pior ainda, com essas atitudes você pode estar chamando seu filho de incompetente sem perceber. “Os pais que assumem as tarefas escolares passam a mensagem de que o aluno não consegue aprender sozinho”, diz Cláudia. Ao sentar com a criança, o objetivo é fazer com que ela perceba que está sendo acompanhada e, de certa maneira, fiscalizada. Mas ela só vai aprender de fato se der conta do recado sozinha.

CASTIGO E BRONCA RESOLVEM?
Na opinião dos especialistas, a resposta é “não”. “Muitas vezes a bronca pode até agravar a tensão dentro de casa e não vai chegar à raiz do problema”, avalia Cláudia Tricate. O mesmo vale para o hábito de colocar a criança de castigo. “Se resolvesse, uma vez só bastaria.” Em vez disso, ajude-a a se tornar mais responsável. Se o pequeno quer jogar videogame, mas ainda nem tocou nos livros da escola, explique que primeiro vem o dever, depois a diversão. O adolescente quer ir para a balada, mas tem prova no dia seguinte? Avise que nesse caso não dá para sair. E não ligue se ele ficar bravo: você está cumprindo seu papel de educar.

PROFESSOR PARTICULAR É PARA POUCOS
O professor particular funciona quando o aluno tem dificuldades pontuais, segundo a psicóloga Cláudia Tricate. “O que os pais não devem fazer é contratar um profissional como forma de garantir que o filho tenha uma hora diária de estudos ou como solução para tudo”, alerta ela. O risco é criar uma dependência do aluno em relação ao professor particular, criando a ilusão de que ele só deve estudar se tiver alguém ao lado.

Com isso, o estudante pode até perder o interesse pelas aulas”, avisa a educadora Débora Vaz, diretora da Escola Castanheiras, em Barueri (SP). A decisão de contratar um tutor deve ser discutida previamente com a escola. O objetivo é esclarecer se o aluno está com dificuldades específicas – aí, sim, um reforço pode ajudar – ou se o problema é mais abrangente, envolvendo questões de comportamento. Nesse caso, a solução pode ser conversar com um psicopedagogo.

EM CASA COM WILLIAM BONNER
Crianças e adolescentes se sentem mais motivados a aprender quando sua curiosidade é despertada sempre.Como fazer isso? Que tal conversar com eles (respeitando a idade de cada um) sobre o que assistiram no telejornal? Discutir as notícias pode aguçar o interesse da turma, assim como ter livros à mão, ir ao cinema e ao teatro. Segundo o sociólogo Márcio da Costa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a vida cultural da família tem reflexos positivos no desempenho escolar dos filhos. “Nos Estados Unidos, foram feitos estudos para descobrir por que os descendentes de orientais se saem tão bem no colégio. Um dos motivos é que os pais incentivam a leitura”, diz.

MOMENTO VERDADE
Você já tentou tudo e não funcionou? É hora, sim, de acender a luz amarela. Por trás de um desempenho apenas mediano, ou mesmo ruim, pode haver problemas como a dislexia, distúrbio de aprendizagem que atinge de 5% a 17% da população mundial, conforme a Associação Brasileira de Dislexia (ABD). Quem sofre desse mal geralmente tem dificuldade com a ortografia, a escrita e a leitura. Para diagnosticá-lo, costuma ser necessária uma equipe multidisciplinar, formada por psicopedagogo, fonoaudiólogo, psicólogo e, em alguns casos, neurologista. Vale checar ainda se o pequeno tem déficit de atenção, outra disfunção que pode afetar diretamente o desempenho. A dificuldade perene para se concentrar é um sintoma importante, mas só um médico poderá fazer o diagnóstico. Há outro problema com potencial de atingir as notas no colégio: o bullying, intimidação feita pelos colegas por meio de agressões físicas ou verbais. Complexa, a questão demanda conversas abertas tanto com a escola como com a criança.

Saiba mais em:
Educar para Crescer

Vaga-lume ilumina a Amazônia

Conheça uma organização social que aposta na leitura, no domínio da escrita e da boa fala para promover o intercâmbio cultural. Tudo para valorizar o ser humano como protagonista de sua própria história

Vivian Goldman
Revista Bons Fluídos – 05/2010

Em vez de se divertirem, três jovens amigas, Sylvia Guimarães, Maria Tereza Meinberg e Laís Fleury, dedicaram várias noites de 1999 a um objetivo maior: conhecer a população brasileira para fazer a diferença no cenário nacional. Foi em uma viagem à ilha de Marajó que elas perceberam como a Amazônia recebia escassos investimentos em educação. Um estudo realizado pelo IBGE (2005) apontou que 21% da população amazônica acima de 15 anos era analfabeta e 42% não entendiam o que liam. Para tirá-los do isolamento cultural, elegeram o livro como uma ponte para aproximar as comunidades locais e as grandes metrópoles.

A própria Sylvia reconhece o valor da leitura como ampliação de conhecimento: “Eu mesma fui apresentada à Amazônia por meio de livros”. Em 2001, conseguiram a primeira parceria com a Secretaria de Educação do Pará e colocaram em prática seu projeto piloto, batizado Vaga Lume. Aportaram em Santarém e Soure (PA), de carona com a FAB (Força Aérea Brasileira), levando estantes, esteiras e um acervo de livros novos, comprados com recursos próprios – hoje, o material é financiado por patrocinadores.

“O livro é a melhor ferramenta para transportar cultura” – Sylvia Guimarães

Em 2002, o projeto conquistou investidores, o que permitiu aumentar a oferta de livros, adquirir materiais para cursos e aperfeiçoar a logística. Mais do que isso: os recursos possibilitaram estender o trabalho às comunidades rurais graças à articulação com parceiros locais feita por meio das secretarias de educação. Foi então que a expedição Vaga Lume passou dez meses percorrendo a Amazônia Legal, território que inclui os estados de Mato Grosso, Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará, Amapá, Maranhão e Tocantins. “Pudemos conhecer a fundo a realidade do país. Foi uma lição de brasilidade”, comemora Sylvia Guimarães, historiadora, que ainda se emociona ao relembrar a esperança que a visita trouxe a essas populações.

Na volta, as amigas foram surpreendidas por cartas das lideranças comunitárias pedindo mais e mais livros. O resultado não poderia ter sido melhor: nesses oito anos desde a fundação, já foram implantadas 130 bibliotecas em 20 municípios da Amazônia Legal, que receberam 64 643 livros novos (somente literatura, não há livros didáticos).Das três amigas que iniciaram o projeto, somente Sylvia seguiu em frente.

OFICINAS E RODAS DE LEITURAS
A Vaga Lume administra e monitora as comunidades a partir de um escritório em São Paulo, de onde estabelece parcerias com a Secretaria de Educação e consegue gratuitamente alojamento e comida para a equipe de educadores que implantam as bibliotecas. Com, no mínimo, 300 livros, depois de instaladas elas são gerenciadas por lideranças comunitárias ou voluntários. Para garantir o aumento do acervo, as bibliotecas recebem anualmente novas remessas de livros, com cerca de 50 títulos, de autores nacionais e internacionais, dirigidos ao público infantil, infantojuvenil e adulto.

A intenção não é alfabetizar, mas investir na formação das pessoas. Além de montar as bibliotecas, cabe aos educadores enviados pelo projeto formar mediadores de leitura, agentes multiplicadores – todos voluntários – e cativar a população para as rodas de leitura, encontros em que a contação de histórias mantém viva a cultura regional.

Os “causos” são registrados para que não se percam com o passar do tempo. O projeto já formou 213 multiplicadores, preparados para passar adiante a metodologia de trabalho em seus municípios, formando 2 226 mediadores, cuja tarefa é aproximar crianças e adultos dos livros. Esse é um trabalho delicado.

Os mediadores esticam uma esteira no chão, oferecem diversos livros e esperam que alguma das crianças peça que se inicie uma leitura. É a comunidade que define o horário da atividade, mas a biblioteca está sempre aberta. “Ver as crianças mexendo com os livros, lendo para os pais e para coleguinhas me fez matutar: se uma criança pode, eu também posso” declara Elka Luciene Sales da Silva, multiplicadora de Soure, no Pará.
“Nós trabalhamos com a Vaga Lume para dar uma vida melhor às crianças que ainda vão nascer” escreve Thiago de Mello, poeta e escritor amazonense. Diante de uma nova remessa de livros, Rosana Maria Silveira de Oliveira, de Santarém, no Pará, comemora:
“Meu filho gosta de ler e contar a história para a gente”.

APROXIMANDO DISTÂNCIAS
Como reagiria uma criança de São Paulo se descobrisse o que é viver à beira de um rio rodeado por uma floresta? O projeto Vaga Lume também responde a perguntas como essas através do programa Projeto Papel de Carta, criado em 2002. A intenção é aproximar crianças paulistanas de crianças de comunidades rurais – sejam ribeirinhas, de beira de estrada, indígenas ou quilombolas – pela troca de cartas. Além de sensibilizar para a problemática ambiental, difundir as histórias de vida e valores, hábitos e costumes, o programa também contribui no currículo pedagógico das instituições participantes. “O que queremos é promover um encontro entre crianças e possibilitar a troca, apesar das realidades tão diversas”, declara Guimarães.

Até 2008, alunos de várias escolas de São Paulo corresponderam-se com as escolas de Portel, Soure e Castanhal, no Pará. O intercâmbio entre a paulistana Vera Cruz e a paraense Portel resultou no livro Cartas, Pontes, Novos Horizontes, em que os alunos se apresentam e questionam o modo de viver uns dos outros. O contato se fazia por meio de perguntas como: “Com que idade vocês aprendem a remar? E a pescar? Quais são as festas da região?”, indaga uma criança de São Paulo. “O que eu mais gosto é de pular na água e comer açaí com veado assado”, apresenta- se um aluno da região Norte. Desde a sua existência, esse programa já alcançou 16 783 alunos, sete instituições de São Paulo e 49 escolas de seis municípios na Amazônia.

Em 2008, realizou em Pirenópolis, Goiás, o primeiro Acampamento Vaga Lume de Integração com alunos e educadores das instituições envolvidas. “Meus filhos só se interessaram por aprender a ler e a escrever para trocar cartas com as crianças de São Paulo”, relata Andréa de Almeida Silva, mãe de alunos da Escola Paulo Freire, Castanhal (PA). “NoAcampamento, fiz amigos de São Paulo e de Soure”, conta Otavio Jonas Magalhães dos Santos, de 10 anos, do Assentamento João Batista, Castanhal (PA).

Ler e escrever, conhecer o Brasil e os brasileiros pode ser um caminho divertido e emocionante que traga luz e valorize as tantas culturas regionais do país. Que brilhe o Vaga Lume!

Pais e escolas, parceria necessária

Não há contraindicação para a participação dos pais na escola dos filhos, uma aliança em que todos têm a ganhar – principalmente o aluno. Se esse é um consenso, por que tão poucas famílias se fazem presentes?Aqui, explicações e antídotos

Paulo de Camargo
Revista Claudia – 07/2009

Em 1998, a Escola Estadual Ângelo Trevisan, em Curitiba, estava em vias de fechar. Localizada em um bairro de classe média, sofria com a deterioração física, a indisciplina e, sobretudo, com a baixa performance acadêmica. A qualidade do ensino era deplorável, com média próxima a 3 nas avaliações feitas pelo governo. Naquele ano, porém, as coisas começaram a mudar. Hoje, a média da escola nas mesmas provas chega a 7 – a melhor da rede pública do Paraná. A escola recebe prêmios de gestão e serve de modelo para outras instituições. Um dos principais segredos da mudança? A presença maciça das famílias, que hoje participam de encontros pedagógicos, eventos e de decisões estratégicas. São, por exemplo, as responsáveis pela festa junina, com a qual levantam recursos para adquirir para a escola equipamentos de última geração, relata a pedagoga Maria Gorete Estival Paula. “Temos a participação constante de pelo menos 80% dos pais”, comemora a educadora.

O exemplo paranaense é a face concreta do que um grande número de estudos vem demonstrando ao longo dos últimos 40 anos: famílias, escola e alunos compõem um trio inseparável num projeto educativo de sucesso. O tema se tornou tão importante que nos Estados Unidos já existem políticas públicas específicas para estimular a presença dos pais no ambiente educativo.

A escola de educação de Harvard criou até o Harvard Family Research Project, programa dedicado a auxiliar escolas e famílias a se entrosarem melhor. No Brasil, o Ministério da Educação começa a embarcar nessa onda e publicou, em 2008, um manual distribuído a pais de alunos em estabelecimentos públicos, mostrando a importância de participar da educação dos filhos.

“A escola que se abre para seu público é mais questionada, mas, se fica fechada, não há comunidade em torno dela” Marcelo Cunha Bueno

Não há contraindicações, apenas benefícios, qualquer que seja a idade do aluno. Para começar, a participação dos pais está diretamente ligada ao sucesso acadêmico. Facilita transições como da educação infantil e para o ensino fundamental, fortalece os vínculos sociais, ajuda a formar valores e estimula a inclusão, seja dos portadores de deficiência, seja dos que provêm de outras culturas e etnias. Alguns estudos sugerem, ainda, que a presença especificamente do pai influi nas atitudes do aluno diante da vida escolar e também na relação entre o aluno e seus professores.

PAIS FISCAIS E PAIS AUSENTES
Embora haja um consenso sobre o tema, na prática participar da vida escolar dentro do espaço educativo é uma equação delicada. De um lado, não é verdade que as escolas desejem sempre a participação dos familiares, que podem trazer mais críticas, ingerência e confusão de papéis. De outro, os pais nem sempre estão prontos a marcar presença, envolvidos numa rotina intensa de trabalho. A verdade é que, nesse campo, estamos todos aprendendo. Até 20 anos atrás, ainda era incomum que os pais participassem da educação dos filhos, quanto mais da vida escolar. O papel deles era entregar as crianças no portão, e os dois lados mantinham contatos formais esporádicos. De acordo com o pesquisador Joe Garcia, doutor em educação pela PUC-SP, isso está mudando. “Observo o surgimento de uma nova atitude nas escolas, mais em sintonia com a nossa época”, revela. “Cada vez mais, buscam abrir novos canais de diálogo, bem como os pais se mostram mais dispostos a colaborar.” Para ele, há vários níveis possíveis de participação. O mais básico – do qual, porém, boa parte das famílias brasileiras ainda está distante – é o apoio à aprendizagem em casa.

A partir daí, pode haver um envolvimento progressivo, que vai da participação nas reuniões formais e informais, passa pela atuação em eventos como voluntários e chega à participação em decisões colegiadas. É o caso do Colégio São Domingos, em São Paulo, que tem a Fundação São Paulo (a mesma da PUC) como mantenedora principal. Completando 50 anos em 2009, o São Domingos se diferencia pela gestão participativa, segundo o diretor Silvio Barini Pinto. Lá é frequente ver, por exemplo, um pai fotógrafo realizar oficinas para os alunos. Mas o sistema de gestão estabelece também que os pais tenham assento no Conselho de Escola e se tornem responsáveis pelas decisões, inclusive para garantir o acompanhamento do que foi combinado. Mas nem tudo é um mar de rosas. “O receio das escolas quanto à participação tem fundamento, pois existe o risco de se perder o foco quando as demandas individuais são muito dispersas”,lembra Barini.

Para evitar isso, de acordo com o diretor, é importante que os pais não se coloquem na posição de clientes, assumindo posturas “eu pago-eu quero”, mas que tenham um compromisso com o coletivo.“Temos aprendido muito ao trabalhar em parceria com os pais. Posso ouvi-los e processar suas demandas com base em princípios comuns a todos, mas para tanto é preciso que esses princípios sejam claros”, explica.

CRIANDO LAÇOS
O caso do São Domingos não é regra no segmento privado. Escolas particulares têm maiores dificuldades em definir os espaços de participação, mas também nessa área está em curso uma renovação. Segundo Elaine Moura, diretora do Colégio Santana, em São Paulo, a pré-condição é que haja uma boa definição do que é papel da escola e o que cabe aos pais.

Outro caminho é o estímulo à participação das famílias em eventos. Duas vezes por semestre, a Escola Estilo de Aprender, em São Paulo, torna-se um centro cultural, com peças de teatro, narrativa de histórias e shows musicais. O objetivo, conforme o diretor, Marcelo Cunha Bueno, é fazer com que os pais vejam a escola sob outra perspectiva. “Aquela que se abre para seu público é mais questionada, claro, mas, se fica fechada, não permite que se forme de fato uma comunidade em torno dela”, diz. Elevar a participação dos pais não é uma decisão apenas da escola. Poucas famílias frequentam os espaços de formação continuada, ou seja, dos cursos e palestras abertos às famílias para que discutam o processo educativo dos filhos.

Atrair os pais não é fácil, queixam- se os educadores. Embora o argumento seja sempre o da falta de tempo, a verdade é que, diferentemente de outras culturas, não há uma tradição comunitária na escola brasileira, que se revela no relacionamento fugaz com as instituições. Mas isso precisa mudar. Em síntese, está mais do que na hora de dar um passo além na relação com a instituição com quem divide a educação das crianças e jovens. Mais do que saber o que querem da escola, cabe às famílias descobrir agora o que podem fazer pela escola. Quem ganha é seu filho.

O LÍDER
Se procurar na memória, certamente você vai lembrar do diretor como uma figura sisuda e distante. Pois muitos pais carregaram para o presente essa visão anacrônica do diretor e são capazes de manter os filhos por mais de uma década na mesma instituição sem nunca ter trocado duas palavras com o gestor. Se é o seu caso, é hora de marcar uma visita ou de aproveitar um dos eventos da escola para entabular uma conversa. O assunto? Educação, é claro. O diretor ganha cada vez mais importância na educação contemporânea. “A liderança dele, conduzindo o grupo com suavidade e firmeza, é um dos itens que fazem uma escola ser melhor do que outra”, diz o economista Claudio de Moura Castro. Assim, se quer conhecer uma escola, um bom caminho é começar encontrando o diretor, pois provavelmente a instituição espelha seu líder.

Na rede pública, até pela falta de profissionais de nível intermediário, como coordenadores e professores, as comunidades têm mais acesso ao diretor. Contudo, como esses profissionais ainda são escolhidos majoritariamente por progressão na carreira, e não por méritos de gestão, eles nem sempre têm características típicas do líder, como a capacidade de articulação e mobilização de recursos. Quando o diretor possui tais atributos, as escolas costumam avançar, como ocorreu com a paranaense Ângelo Trevisan. A diretora, Antonia Lobato, que ganhou um prêmio nacional de gestão em 2004, recebe sucessivos convites para partilhar sua experiência, que se caracteriza pela perspectiva democrática. “Não tomo decisões sem ouvir as comissões de pais e sou acessível a toda a comunidade”, afirma. Na rede particular, o relacionamento das famílias pode ficar restrito aos coordenadores imediatos da série do filho ou aos orientadores, o que também é importante, mas não exclui uma conversa com o gestor. Para o diretor Silvio Barini, do São Domingos, manter a porta aberta é uma boa prática. “O olho no olho é fundamental para criar confiabilidade.”

Congresso na PUC-SP discute gestão da inovação e desenvolvimento sustentável

Evento, realizado pela primeira vez no continente americano, reunirá especialistas da China , Japão , Holanda e outros países para refletir sobre soluções criativas aos desafios do século XXI em particular em relação ao tema da Sustentabilidade.

 

A PUC-SP se une a instituições de ensino superior européias e asiáticas para discutir o pensamento atual e as tendências futuras na gestão da inovação, na economia do conhecimento e nos modelos de negócios emergentes, focados em particular na promoção do desenvolvimento sustentável. Entre os dias 8 e 10 de dezembro, especialistas de cerca de 30 países tratam desses assuntos na 6ª edição do International Conference on Innovation and Management (Congresso Internacional em Inovação e Gerenciamento, ICIM 2009), que será realizado no Tuca.

Será a primeira vez que o ICIM acontece no continente americano. O evento vem sendo promovido por um grupo de universidades anualmente, em vários países: de 2004 a 2006, o Congresso foi realizado na Wuhan University (China); em 2007, na Yamagushi University (Japão); e em 2008, na United Nations University-Merit (UNU-Merit, Holanda).

Para o professor Arnoldo de Hoyos Guevara (Núcleo de Estudos do Futuro, Pós em Administração da PUC-SP), presidente do Comitê Científico do evento, o ICIM 2009 facilitará o pensar coletivo sobre os desafios de transição encontrados no século XXI, estimulando o surgimento de soluções criativas. “A era do conhecimento está mergulhada num cenário global turbulento, alicerçado por uma crise econômica de alcance planetário, com riscos das mudanças climáticas, em meio a uma crise de valores no contexto da complexidade da governança global. Os cenários do amanhã serão marcados pelas resultantes da situação presente, e refletirão os resultados e contradições nascidos da alta competição entre os diversos atores que se voltam a mercados, e o sucesso ou fragilidades de políticas públicas ao nível local e global”, avalia.

“Nesse contexto, é importante a aproximação entre instituições cientificas e modelos de gestão empresarial nacionais, bem como o conhecimento de experiências de outras nações”, completa, enfatizando o objetivo do ICIM 2009 de promover o intercâmbio internacional, aglutinar os setores acadêmico, privado e público e ampliar as condições para o desenvolvimento e execução de pesquisas em Ciência e Tecnologia e em Pesquisa e Desenvolvimento.

A programação do Congresso, que terá palestras, workshops e apresentação de cases e papers, pode ser vista no site www.pucsp.br/icim. As inscrições devem ser feitas pela internet, na página do evento, até 30/11. Informações: icim@pucsp.br.

 

Serviço:

6º Congresso Internacional em Inovação e Gerenciamento

(International Conference on Innovation and Management, ICIM 2009)

 

– Tema central:

Gestão da Informação para o Desenvolvimento Sustentável

– Data:

Entre 8 e 10/12.

– Local:

Tuca (rua Monte Alegre, 984, Perdizes, São Paulo)

 

– Inscrições e programação:

www.pucsp.br/icim

 

– Informações:

icim@pucsp.br

 

– Organização:

PUC-SP (Núcleo de Estudos do Futuro, Pós em Administração)

 

– Co-organização:

Universidade de Tecnologia Wuhan (China)

Universidade de Yamaguchi (Japão)

Universidade das Nações Unidas-Merit (UNU-Merit, Holanda)

mais informações: http://www.pucsp.br/icim/portugues/index.html

O cinema brasileiro cada vez mais perto do público

A Programadora Brasil lança no dia 24 de setembro, quinta-feira, mais 164 filmes em DVD. Com esse lançamento, o catálogo chega aos 494 títulos que contemplam a diversidade da produção audiovisual brasileira. São clássicos e contemporâneos, curtas, médias e longa-metragens de todos os gêneros (animação, documentário, experimental e ficção) que representam o melhor da produção nacional das últimas dez décadas. Além de sucessos recentes de bilheteria, a Programadora Brasil também está lançando filmes raros – mas não menos importantes – que tiveram pouca circulação pelas salas de cinema e que nunca foram lançados em DVD ou VHS.

Há filmes para todos os gostos: comédias populares dos anos 30; chanchadas; clássicos do cinema novo dirigidos por Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade; documentários sobre temas recentes e urgentes da história brasileira, como a ditadura e a violência urbana; e, ainda, filmes sobre e para as crianças. Mas não são só os futuros espectadores do cinema brasileiro que preocupam à Programadora Brasil. Por isso, ela inova e lança, agora, mais de 15 filmes com os recursos de audiodescrição e closed caption. Dessa forma, pessoas com deficiência visual e auditiva poderão frequentar salas de cinema e assistir filmes importantes da cinematografia brasileira.

Realizada pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, por meio da Cinemateca Brasileira e do Centro Técnico Audiovisual (CTAv), a Programadora Brasil trabalha para promover o encontro do público com o cinema brasileiro. Uma ação para formar platéias e incentivar o pensamento crítico em torno da produção nacional, através do estímulo à formação e ao fortalecimento de uma rede não-comercial de exibição. Os filmes podem ser adquiridos por pontos de cultura, escolas, universidades, ONGs, centros culturais, entre outros espaços de exibição audiovisual de circuitos não-comerciais a ela associados.

Clássicos que divertem

Preocupada em recuperar a magia do cinema, a Programadora Brasil está lançando filmes clássicos com forte viés de entretenimento. São produções que, na época de seu lançamento, levaram o grande público às salas de exibição – façanha que poucos filmes conseguem hoje – e que ainda são capazes de emocionar e divertir o espectador.

Entre eles está o longa-metragem O corintiano, de Milton Amaral. Mais do que uma obra sobre futebol, é um filme sobre paixões arrebatadoras. Estrelado pelo mito brasileiro do cinema popular, Amácio Mazzaropi (1912-1981), essa obra é uma joia a ser redescoberta pelo público. Na mesma categoria está O batedor de carteiras. Produzido em 1958, o filme tem como destaque a presença de Zé Trindade, estrelando o personagem que o fez célebre no cinema brasileiro e que está em todas as chanchadas da época: o malandro mulherengo que veio do nordeste e descobriu a fórmula de levar vantagem em quase tudo na então capital da República.

Outra produção desse rol é o curta-metragem Os óculos do vovô, que carrega as imagens preservadas do mais antigo filme brasileiro de ficção. No mesmo programa está o longa-metragem O jovem tataravô. Ele é considerado o primeiro filme brasileiro do gênero sobrenatural e foi produzido em parceria com a Cinédia, uma das produtoras pioneiras de cinema do Brasil, responsável por um avanço na produção de cinema brasileiro do qual até hoje somos devedores. Além de investir em equipamentos que não existiam por aqui, a produtora esforçou-se para fazer filmes inspirados no modelo Hollywoodiano, atraindo milhares de brasileiros para as salas de cinema. A Cinédia também tem parceria em outro longa-metragem que fez bastante público à época e que agora é lançado pela Programadora BrasilOnde estás felicidade?, dirigido por Mesquitinha, em 1939. O filme é uma deliciosa comédia de costumes, recheada de números musicais bem ao gosto da época.

História, Pensamento e Política na cinematografia nacional

Confiante no poder do cinema para fazer ver e pensar a história do país, a Programadora Brasil também está lançando nesta edição filmes que abordam a nossa história e a nossa política. Nesse grupo estão dois filmes de Glauber Rocha. Terra em transe, filme que já nasceu clássico, é uma poderosa alegoria do Brasil, seus políticos, empresários e intelectuais na época da ditatura e O dragão da maldade contra o Santo Guerreiro, que apresenta as estruturas de poder do Brasil agrário. Também bastante alegórico e misturando cordel com ópera e western, o filme, merecedor dos prêmios de melhor direção e da crítica internacional no Festival de Cannes de 1969, é considerado por muitos como a obra-prima de Glauber Rocha.

Na sua revisão crítica do cinema brasileiro, Glauber Rocha escreveu: “Se o cinema da Bahia não existisse, Roberto Pires o teria inventado.” Neste lançamento, a Programadora Brasil traz, de Pires, Tocaia no asfalto, um belo representante do ciclo de cinema da Bahia. Lançado em 1962, o filme é ainda hoje uma contundente crítica à corrupção e ao coronelismo que ditaram boa parte da política do estado da Bahia e talvez do Brasil. Com um elenco de primeira que inclui atores como Agildo Ribeiro, Othon Bastos e Antonio Pitanga, Pires cria um fantástico thriller que ainda hoje mantém sua atualidade.

Marcando os 30 anos das Greves de 1979, Redemocratização traz os curtas ABC Brasil, de Sérgio Péo, José Carlos Asbeg e Luiz Arnaldo Campos, Greve!, de João Batista de Andrade, e Greve de março, de Renato Tapajós. Os três filmes, ainda que realizados por diferentes diretores, tinham uma motivação comum: apresentar um importante momento da história brasileira, as greves do ABC paulista que, como se sabe, marcaram o inicio da redemocratização no Brasil.

Outro destaque desses novos programas é Vlado, trinta anos depois e Marimbás. Vladimir Herzog, homem do jornalismo, da televisão e do cinema, foi vítima da ditadura militar brasileira, iniciada com o golpe de 1964. Herzog morreu torturado nos porões da repressão em outubro de 1975. Neste programa, as duas obras são reunidas e possibilitam relembrar parte da história recente brasileira: Vlado, trinta anos depois, realizado por João Batista de Andrade, apresenta o pouco comentado jogo de poder por trás da morte de Herzog; eMarimbás, um dos primeiros documentários nacionais feitos com som direto e o único filme dirigido pelo próprio jornalista.

Um panorama da ocupação urbana desordenada de uma cidade pode ser visto em Rio de Janeiro: a cidade e o morro. O programa contém três curtas-metragens que discutem a relação entre a cidade do Rio de Janeiro e a favela ao longo do tempo. O clássico Couro de gato, de Joaquim Pedro de Andrade, mostra com rara delicadeza a relação de meninos do morro em busca de gatos para vender em pontos diversos da cidade nos anos 1960. Rocinha Brasil 1977, de Sérgio Péo, faz um retrato da maior favela da cidade em seus primeiros anos. E Sete Minutos, de Cavi Borges, Júlio Pecly e Paulo Silva, já traz a violência dos dias de hoje em um plano-sequência subjetivo de grande virtuosismo dramático. Completando o programa, o média-metragemTópicos urbanos, de Ivana Mendes, conta a história da urbanização carioca, com informações preciosas para um debate consistente sobre o tema.

A questão indígena, tão presente hoje na mídia está bem representada em Brasil Indigena, no qual se destaca Mato eles?, filme seminal de Sérgio Bianchi que revela sua ironia ácida e provocativa ao investigar as últimas etnias existentes no Paraná no final da década de 1970.

Diversão e arte

Marcando o seu caráter diverso, o novo pacote de programas não deixa de contemplar conteúdos voltados ao público infantil e os chamados filmes para toda a família, demandas contínuas dos pontos de exibição audiovisual associados à Programadora Brasil. Para o público infantil, há programas com animações e ficções que revelam a cultura de diversas partes do Brasil, como em Curta Crianças 2Curtas Infantis 3. EmAnimações para crianças que todos adoram, são destaques os primeiros trabalhos de animação dos diretores Otto Guerra e Cao Hamburger: Natal do burrinho e Frankstein Punk.

O já clássico Castelo Rá-tim-bum o filme também está nesse pacote da Programadora Brasil. Um filme para e sobre adolescentes foi resgatado e está sendo lançado: Marcelo Zona Sul. O longa-metragem é de 1970 e marca a estréia de Stepan Nercesian, cunhado do diretor que, na época, com apenas 16 anos e passando férias no Rio de Janeiro, fez o teste para o filme.

O novo acervo contempla ainda programas sobre artes plásticas, poesia, literatura, cinema e música. Dentre eles, vale destacar: Tim Maia, de Flávio Tambellini; Pixinguinha e a velha guarda do samba, de Thomas Farkas e Ricardo Dias; Ver, ouvir, de Antônio Carlos Fontoura; e O Poeta do Castelo, de Joaquim Pedro de Andrade.

E não poderiam faltar programas de filmes dedicados à arte do futebol, seus jogadores e torcedores. Prova de que no Brasil se fazem filmes do gênero tão bem quanto se joga está nos programas Futebol, Paixão NacionalBoleiros, era uma vez o futebol e Uma história de futebol.

Acessibilidade

A Programadora Brasil entende que tornar o cinema brasileiro acessível a toda a população vai além da formação de público e da disponibilização de títulos. Democratizar o acesso ao cinema brasileiro passa pela adoção de recursos que garantam que todos possam acompanhar os filmes. Por isso, neste novo pacote, traz pela primeira vez programas acessíveis a pessoas com deficiência visual e auditiva. São dez programas que contam com recursos da audiodescrição (AD) e do closed caption (legenda oculta ou CC).

closed caption é um recurso por meio de legendas que garante a pessoas com deficiências auditivas acompanhar exibições de filmes, programas de TV e espetáculos, principalmente nacionais, em que não costuma haver nenhum tipo de legenda. Já a audiodescrição é a narração das cenas exibidas, facilitando o acesso para pessoas com deficiências visuais. Pode ser feita por audiodescritores (ao vivo ou pré-gravada em estúdios) ou automática, também com o uso de softwares especializados.

Entre os filmes lançados com estes recursos estão: Os anos JK – Uma trajetória política, de Silvio Tendler; Eu me lembro, de Edgard Navarro; Iracema, uma transa amazônica, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna; e Vida de menina, de Helena Solberg; além de programas de curtas.

Catálogo para um circuito em construção

Para adquirir os filmes e vídeos do catálogo da Programadora Brasil, os pontos de exibição audiovisual de circuitos não-comerciais precisam estar associados à iniciativa. O processo de associação das unidades teve início em fevereiro de 2007, quando houve o lançamento do primeiro pacote de programas.

Em 2 anos e meio, escolas, universidades, prefeituras, cineclubes, pontos de cultura, centros culturais, fundações e outros espaços de exibição passaram a poder adquirir os programas. Hoje, 1006 pontos de exibição audiovisual, espalhados em mais de 400 municípios nos 27 estados brasileiros, já se associaram à iniciativa formando um circuito alternativo de exibição para o cinema brasileiro.

Associar um ponto de exibição audiovisual à Programadora Brasil é gratuito. As informações sobre os procedimentos para associação e os dados completos sobre as obras que compõem o catálogo de filmes e vídeos do projeto licenciadas para exibições públicas em todo o Brasil estão no sitewww.programadorabrasil.org.br.

A inclusão que ensina

Matheus Santana da Silva, 14 anos, autista, estuda numa turma regular de escola pública em São Paulo desde a 1ª série. A história dele é a prova de que, apesar das dificuldades, incluir crianças com necessidades especiais beneficia todos

Daniela Talamoni Verotti e Jeanne Callegaria

“Matheus chegou para mim na 1ª série. Eu tinha 42 alunos, e ele já estava com 7 anos completos e só falava o próprio nome. Era agressivo, agitado e não queria ficar na sala. Eu não fazia ideia do que era autismo. Então, no primeiro dia de aula, foi uma surpresa.”

O relato é da professora Hellen Beatriz Figueiredo, da rede pública municipal de São Paulo, mas poderia ser de um educador de qualquer sala de aula do Brasil. Desde 2008, a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva determina que todos os alunos com necessidades educacionais especiais sejam matriculados em turmas regulares. A Educação Especial passou a ser oferecida apenas como um complemento no contraturno. Na prática, isso significou a matrícula só no ano passado de 375.775 alunos com deficiência em salas regulares, regidas por educadores que, muitas vezes, não se sentem preparados para lidar com a situação. Exatamente como aconteceu com Hellen em 2003, quando acolheu Matheus Santana da Silva. Naquele tempo, apesar de a lei determinar a inclusão, imperava uma visão integracionista. Uma criança com deficiência só permanecia numa sala regular se acompanhasse o ritmo da turma.

Hellen poderia ter alegado que Matheus não aprendia como os demais. Seria mais fácil desistir do aluno autista que fugia da sala a toda hora, mas ela escolheu o caminho mais difícil, o de incluí-lo. Ambos saíram ganhando. Hoje, aos 14 anos, Matheus cursa a 7ª série na EMEF Coronel Hélio Franco Chaves, na capital paulista. Adora ler, resolve expressões matemáticas com letras e números e navega na internet. Tem muitos amigos e aprendeu o significado de emoções como orgulho e felicidade – uma vitória para um autista. Hellen, por seu lado, fez vários cursos sobre autismo, escreveu sua monografia da graduação em Pedagogia sobre inclusão e hoje integra a Diretoria de Educação de um dos Centros de Formação e Acompanhamento à Inclusão (Cefai) da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. A história dos dois simboliza a mudança de mentalidade já em curso em muitas escolas públicas e particulares espalhadas pelo país.

ROMPER COM AS VELHAS IDEIAS
Durante séculos, o mundo tratou as crianças com deficiência como doentes que precisavam de atendimento médico, não de Educação. Essa perspectiva começou a mudar na década de 1950 (veja a linha do tempo abaixo e nas próximas páginas). Mas foi só nos anos 1990 que as velhas ideias assistenciais foram suplantadas pela tese da inclusão. Procurava-se garantir o acesso de todos à Educação. Documentos como a Declaração Mundial de Educação para Todos, de 1990, e a Declaração de Salamanca, de 1994, são marcos desse movimento. O rompimento com práticas e conceitos antigos marcou também o início do trabalho de Hellen. Ela sabia que precisaria inovar se quisesse que Matheus aprendesse. E o primeiro desafio era mantê-lo em sala. “Passei a iniciar as aulas do lado de fora. Todos os dias eu cantava, lia histórias ou sugeria alguma atividade que estimulasse a alfabetização ou outro aprendizado”, lembra. “Era uma forma de ensinar o conteúdo, promover a integração entre as crianças e atrair o Matheus para a classe.”

Para lidar com as fugas repentinas para o bebedouro – onde Matheus se acalmava mexendo na água –, a professora ensinou-o a pedir para sair. Mostrava, a cada fuga, que ele podia bater com a caneca na carteira quando quisesse beber água. “Um dia, ele bateu a caneca e permaneceu sentado, esperando a minha reação”, conta a professora Hellen. “Percebi que ele tinha aprendido.” Para a psicopedagoga Daniela Alonso, consultora na área de inclusão e selecionadora do Prêmio Victor Civita – Educador Nota 10, Hellen acertou em cheio: “Pensar nas diferenças implica oferecer variadas intervenções. Os caminhos da inclusão para atender à diversidade costumam sempre beneficiar todos e melhorar a qualidade do ensino”.

Antes de entrar na escola em que está até hoje, Matheus rodou por três outras sem se encontrar. Na primeira, particular, a direção não soube lidar com ele. A mãe, Lindinalva Santana, tentou uma escola especial, mas em pouco tempo concluiu que o filho não estava aprendendo. Partiu para a matrícula numa EMEI indicada pela fonoaudióloga que atende Matheus desde pequeno. Diante do histórico apresentado quando Matheus chegou à escola de Ensino Fundamental, Hellen imaginou que ele poderia ter aprendido alguma coisa. “Eu o observava durante as aulas de leitura e o jeito como ele manuseava o livro, mexia a boca e colocava os dedos sobre as palavras e frases me fez perceber que ele sabia ler.” Como o garoto não falava, Hellen encontrou um meio de testá-lo. “Escrevi com letra bastão em tiras de papel o nome de dez objetos. Misturei todas e pedi que ele pegasse só a que correspondia ao objeto que eu citava.” Na primeira tentativa, Matheus não prestou atenção e pegou qualquer palavra. Hellen insistiu e ele acertou. “Achei que pudesse ser coincidência e continuei, inclusive com frases inteiras, e ele acertou tudo. Depois disso, não dei mais sossego para o Matheus”, lembra a professora. Daniela Alonso diz que descobrir as competências dos estudantes é o caminho. “Antes, focávamos as dificuldades. O professor queria checar o que eles não sabiam, valorizando as diferenças pelas ‘falhas’. Hoje, devemos sondar o que cada um conhece para determinar como pode contribuir com o coletivo”, explica.

Matheus deixou para trás a trajetória errante na Educação Especial, seguindo o mesmo caminho das políticas públicas brasileiras. O país apostou, em 2001, na inclusão. Nesse ano, começou a ser divulgada a lei aprovada em 1989 e regulamentada em 1999 que obrigava as escolas a aceitar as matrículas de crianças com necessidades especiais e transformava em crime a recusa a esse direito. Desde então, começou a aumentar o número de estudantes com deficiência nas salas regulares. De 81.344 naquele ano, ele saltou para 110.704 em 2002 e nunca mais parou de crescer. O Brasil, porém, estava ainda longe de assumir a inclusão como um fato consumado. As salas especiais eram muito mais numerosas, com 323.399 matrículas em 2001 e 337.897 em 2002.

A história da Educação Especial no Brasil

MEIOS DE LEVAR O ALUNO A APRENDER
As salas especiais se mantiveram porque os professores não se achavam preparados, as escolas não tinham a estrutura necessária e os grupos de defesa dos direitos das pessoas com deficiência duvidavam da inclusão. Até que, em 2008, após anos de debates, a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva acabou com a escolha entre ensino regular e especial (leia o quadro na página ao lado). A nova política começou a mudar os padrões ao definir com clareza como deve ser oferecida a Educação para todos os que têm deficiência. Não por acaso, nesse mesmo ano, pela primeira vez, o número de alunos com necessidades especiais no ensino regular superou o de matriculados em salas especiais (veja o gráfico na página seguinte).

Na sala da professora Hellen, o desafio no primeiro ano de Matheus era outro: mudar o padrão de comportamento do aluno autista que insistia em não se comunicar com ninguém. Ele sabia ler e precisava falar, se expressar. Assim como fazia com toda a turma, Hellen o incentivava a ler as histórias e conversar sobre elas. No início, o garoto apenas repetia respostas e isso já era uma vitória. Mas ela queria que Matheus se comunicasse espontaneamente. Durante a chamada, a professora Hellen sempre fazia uma pausa após o nome dele, na esperança de ouvir a resposta.
Nada acontecia. Até que um dia, para a surpresa de todos, ele disse “presente”. “A turma inteira bateu palmas. A partir desse momento, ele começou a se comunicar, a dizer o que queria.”

Graças à conquista da comunicação, Hellen passou a contar cada vez mais com a participação de Matheus. Assim, descobriu outras possibilidades, estudou, trocou experiências com colegas, observou e avaliou a interação do menino com as propostas que fazia e, assim, organizou diferentes atividades para que ele pudesse aprender ainda mais. No fim da 1ª série, Matheus já escrevia, ainda que tivesse dificuldade para controlar o tamanho da letra. No ano seguinte, porém, vários colegas com quem Matheus estudava saíram da sala. A nova professora também não se sentia segura para incluir o aluno. Matheus se sentiu perdido e regrediu. Parou de ler e de escrever, voltou a ser agressivo e a abandonar a sala de aula. Em lugar de ir para o bebedouro, porém, ele se refugiava na turma de Hellen. Aquela professora da 2ª série sofria com as mesmas dúvidas que até hoje desanimam muitos colegas (conheça, no quadro da página seguinte, programas de formação na área).

POR QUE INCLUIR?
Será que as crianças com deficiência não aprendem mais em classes separadas, com professores especializados e dedicados apenas às necessidades delas? Quem responde é Maria Teresa Eglér Mantoan, docente da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e uma das pioneiras no estudo da inclusão no Brasil: “A escola regular é mais desafiadora e um ambiente desafiador é mais propício ao aprendizado”. Não apenas as crianças com deficiência são mais desafiadas. Os outros alunos também ganham muito com a inclusão. A flexibilização de recursos pode ajudar todos a aprender mais. Se o educador utiliza um modelo em 3D para ensinar o Sistema Solar, por exemplo, não só os que têm deficiência auditiva avançam mais mas também toda a classe tem acesso a um recurso que facilita a compreensão do conteúdo. “O professor que está preparado para a inclusão está preparado para atender todas as crianças”, diz Cláudia Pereira Dutra, secretária de Educação Especial do Ministério da Educação (MEC). “A inclusão obriga o sistema educacional a se repensar, a descobrir novas formas de ensinar”, completa Maria Teresa. “Muda o entendimento do que é aprendizagem.”

Ensino regular X Educação Especial

NOVAS POSTURAS, NOVAS APRENDIZAGENS
O histórico da inclusão de Matheus obrigou a EMEF Coronel Hélio Franco Chaves a se repensar. Depois dos avanços na 1ª série e dos retrocessos na 2ª, a direção da escola tomou uma decisão: a partir daquele ano, a turma de Matheus o acompanharia até o fim do Ensino Fundamental. A então professora da 3ª série, Márcia Maria Batista Martinelli, por sua vez, assumiu a responsabilidade por recuperar os avanços que Matheus já havia conquistado. Ela e Hellen conversavam diariamente sobre possíveis flexibilizações. Como Hellen ocupava a mesma sala em período diferente, Márcia às vezes deixava recados no quadro para a colega. Certo dia, ela flagrou Matheus lendo um desses bilhetes e descobriu como incentivá-lo a escrever novamente: mandar cartas para a antiga professora. Na primeira, Matheus escreveu: “Oi, estou na 3ª série com a professora Márcia”. No dia seguinte, ele encontrou a resposta de Hellen, que estrategicamente questionava o que ele estava aprendendo. A troca de mensagens se intensificou e Matheus nunca mais deixou de escrever. Márcia também aproveitou a grande capacidade de memorização – ele sabe as letras e os números da placa do carro de todos os professores – para ensinar operações matemáticas. Na aula de Geografia, certa vez, usou uma viagem que o garoto faria com os pais para Pernambuco para ensiná-lo a utilizar o mapa. Assim, aproveitando o potencial dele a cada descoberta, Márcia foi a segunda professora a fazer diferença na vida do jovem. Hoje na 7ª série, o menino autista não se incomoda com o vaivém de professores.

Dentro de suas capacidades, participa de tudo, mesmo que o conteúdo nem sempre seja o mesmo abordado com o restante da turma. “Para o aluno com necessidades educacionais especiais, não há necessariamente aprendizagem em série. Ele pode estar integrado com o grupo em alguns aspectos do desenvolvimento e necessitar de outras estratégias”, explica Daniela Alonso. A mãe de Matheus, que todos os professores não se cansam de elogiar pela sólida aliança com a escola, sempre soube que o filho se sairia bem. Uma das maiores emoções da vida dela foi sentida durante uma festa de Dia das Mães, quando ele recitou uma poesia na frente de todos os convidados na escola. “Por causa das dificuldades que tem na fala, eu não consegui entender muita coisa, mas ver meu filho ali, lendo aquele texto em voz alta ao microfone, foi meu melhor presente”, afirma Lindinalva.

PARA APRENDER A INCLUIR:

Programa Educação Inclusiva: Direito à Diversidade
O que é: Formação de professores para disseminar a Educação Inclusiva. Profissionais dos chamados municípios-polo são treinados e atuam como multiplicadores em sua cidade.
O que já fez: Cursos em 162 municípios-polo, com a formação, em 2008, de 12.708 professores.

Programa de Formação Continuada de Professores na Educação Especial
O que é: Especialização, extensão ou aperfeiçoamento para educadores da rede pública.
O que já fez: Cursos para 8,5 mil professores, em 2008, ministrados em 18 instituições públicas de ensino superior.

Programa de Implantação de Salas de Recursos Multifuncionais

O que é: Distribuição de materiais pedagógicos e equipamentos para atendimento especializado.
O que já fez: Criou, entre 2005e 2008, 5.551 salas de recursos.

Programa Escola Acessível

O que é: Distribuição de recursos para a adequação de escolas.
O que já fez: Investiu 30,8 milhões de reais em 2007 e 2008 para a adaptação de edifícios.

O NOVO PAPEL DA EDUCAÇÃO ESPECIAL
A nova política nacional para a Educação Especial é taxativa:
todas as crianças e jovens com necessidades especiais devem estudar na escola regular. Desaparecem, portanto, as escolas e classes segregadas. O atendimento especializado continua existindo apenas no turno oposto. É o que define o Decreto 6.571, de setembro de 2008. O prazo para que todos os municípios se ajustem às novas regras vai até o fim de 2010.

O texto não acaba com as instituições especializadas no ensino dos que têm deficiência. Em lugar de substituir, elas passam a auxiliar a escola regular, firmando parcerias para oferecer atendimento especializado no contraturno. Na prática, muda radicalmente a função do docente dessa área. Antes especialista em uma deficiência, ele agora precisa ter uma formação mais ampla. “Ele deve elaborar um plano educacional especializado para cada estudante, com o objetivo de diminuir as barreiras específicas de todos eles”, diz Maria Teresa Eglér Mantoan, professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e uma das pioneiras nos estudos sobre inclusão no Brasil.

Ensinar os conteúdos das disciplinas passa a ser tarefa do ensino regular, e o profissional da Educação Especial fica na sala de recursos para dar apoio com estratégias e recursos que facilitem a aprendizagem. É ele quem se certifica, ainda, de que os recursos que preparou estão sendo usados corretamente. “Ele informa a escola sobre os materiais a serem adquiridos e busca parcerias externas para concretizar seu trabalho”, afirma Maria Teresa. A princípio, esse educador não precisa saber tudo sobre todas as deficiências.

Vai se atualizar e aprender conforme o caso. Ele pode atuar na sala comum de longe, observando se o material está sendo corretamente usado, ou estender os recursos para toda a turma, ensinando a língua brasileira de sinais (Libras), por exemplo. Quem souber se adaptar não correrá o risco de perder espaço. “O profissional maleável é bem-vindo”, garante Maria Teresa. O momento atual é de construção. De fato, a inclusão na sala de aula está sendo aprendida no dia a dia, com a experiência de cada professor. “Mas não existe formação dissociada da prática. Estamos aprendendo ao fazer”, avalia Cláudia Pereira Dutra, secretária de Educação Especial do Ministério da Educação (MEC).

E tudo começou assim…

Por meio da ioga, crianças estão aprendendo a reconhecer valores, se relacionar melhor com pais e colegas de escola e ainda a se concentrar durante a aula. Para elas e para nós, fica uma lição: o que não falta nessa prática são ensinamentos de como se tornar uma pessoa melhor.

Por Thays Prado
Revista Bons Fluidos 

Quem chega ao Lar Ananda Marga é recebido com grandes sorrisos em pequenos rostos. As crianças de até 5 anos que moram na favela de Jardim Peri Alto, Zona Norte de São Paulo, passam o dia na creche, de origem indiana, enquanto as mães trabalham fora. Entre as atividades, as maiorzinhas praticam ioga.

Em uma sala cheia de cores e desenhos das próprias crianças, George, 4 anos, ocupa o centro da roda de meninos e meninas que escutam a professora Andréa Freitas contar a história de uma formiguinha que desobedeceu os pais e saiu sozinha para conhecer a floresta, mas acabou prendendo seu pezinho na neve. Enquanto a esperta e agitada formiguinha, no centro da roda, pede aos animais, à árvore e ao Sol para que a soltem da neve, os garotos representam, por meio de asanas (posturas de ioga), os outros personagens da fábula.

Esse é o enredo de uma aula de ioga para crianças: curta e lúdica. A coordenadora do Lar Ananda Marga, Didi Jaya, uma filipina que deixou tudo para trás para disseminar, no Brasil, a educação neo-humanista – que inclui o ensino de ioga no currículo -, diz que 85% de nossa personalidade é formada na infância.”Se preparamos essas crianças para serem melhores cidadãos, a transformação do mundo será muito grande.

Acalmando os ânimos
Há quase um ano, quando começaram a ter suas primeiras aulas, George e o irmão gêmeo, Gustavo, eram agressivos. Eles batiam nas outras crianças da creche e jogavam os brinquedos no chão, com raiva. George andava na ponta dos pés, revelando sua precoce insegurança, e Gustavo quase não falava.

Mal dá para acreditar que são os mesmos meninos que olham curiosos para a repórter que assiste à aula de ioga e aproveitam os dinâmicos movimentos das mãos na formação dos mudras – que também estimulam a agilidade dos pensamentos. Além de se darem bem com os colegas e não agredirem mais as outras crianças, George e Gustavo estão mais unidos e têm provocado grandes mudanças em casa. Solimar Araújo, mãe dos gêmeos, conta que, nos fins de semana, os dois se sentam juntos e começam a fazer as posturas que aprenderam na creche.”Eu pergunto para eles o que estão fazendo e eles respondem: ‘Nós estamos relaxando, mamãe’. É a terapia deles. “A mãe diz que a qualidade do sono dos meninos também melhorou.”Eles se debatiam muito para dormir. Agora, se deitam e dizem que não pode haver barulho e a cabecinha só vai pensar coisas boas. Eles fecham os olhinhos e brincam que o braço está descansando, que a perninha também está descansando e até o dedinho do pé está dormindo. “Didi Jaya vê nas aulas de ioga para meninos carentes um trabalho preventivo, que vai fortalecê-los contra alguns traumas e incentivá-los a ter uma atitude diferente diante da vida.”A ioga ajuda essas crianças a não crescerem com raiva do mundo.”

Assumindo responsabilidades
Jefferson Mesquita, 12 anos, pratica ioga há dois anos no núcleo socioeducativo do Lar Escola Recanto Cristão, na Zona Sul de São Paulo, que oferece atividades complementares a crianças carentes no período em que não estão na escola. Na aula da professora Amarílis Gonçalves, o equilíbrio é uma das questões mais trabalhadas e Jefferson se dá bem com o desafio de ficar em posturas como a da águia (garudasana).”Conseguir encontrar seu ponto de equilíbrio é a base para uma vida adulta saudável. Quando você equilibra o corpo, também pode equilibrar a mente”, observa Amarílis.

Pelo visto, a prática da ioga tem ajudado nesse caminho.”Eu estou mais tranquilo para fazer as tarefas em casa e na escola. Antes, eu batia a porta de meu quarto com o pé. Agora obedeço minha mãe e faço minha lição.” Antes de correr para a casa dos amigos para brincar, ele incorporou à sua rotina hábitos como pegar a irmã na escola, fazer o almoço, levar o pão para casa e lavar a louça. Na casa do garoto, a prática da ioga se tornou um momento para estar em família. Empolgado com o fato de a mãe fazer ginástica no trabalho, ele troca algumas técnicas com ela e, sempre que Ana Paula está cansada, recebe do filho uma dica de postura para aliviar a tensão e o nervosismo. Quando a irmã de Jefferson, Júlia, iniciou as aulas de ioga no mesmo núcleo socioeducativo, surpreendeu a professora ao dominar boa parte das asanas, que o irmão já havia lhe ensinado. Jefferson também faz uso das técnicas de pranayama (controle da respiração) sempre que precisa se concentrar para uma prova. Outro ensinamento que fica das aulas de ioga é aprender a olhar para si mesmo sem julgamentos e sem se preocupar com o olhar do outro. Lição que faz toda a diferença para esses meninos, que estão deixando a infância e entrando na complicada fase da adolescência, em que, normalmente, a opinião do grupo interfere sobre a autoestima.

{txtalt}

“Quando a gente não tinha o que fazer, meu irmão me chamava para praticar ioga e me ensinava os asanas. Já sei várias posturas”

Respeitando diferenças
As crianças portadoras de alta habilidade, mais conhecidas como superdotadas, também têm suas dificuldades em lidar com as diferenças. Com capacidades bem superiores à média dos outros de sua idade, elas possuem questões em mente, desde muito cedo, que envolvem, inclusive, o significado da própria existência. Elas podem se indignar facilmente com um colega que demore um pouco mais para aprender o conteúdo de uma disciplina ou com o fato de alguém estar sujando o planeta na sua frente. Muitas dessas crianças sofrem preconceito dos colegas e se sentem pouco compreendidas pela família, pela escola e pelos amigos.

A iogaterapeuta Gabriela Toscanini diz que é importante trabalhar o emocional delas e levar em consideração suas questões existenciais. Enquanto as escolas ainda não estão preparadas para acolher os portadores de alta habilidade, a ioga os ajuda a trabalhar a paciência, a cooperação e o autoconhecimento.

Lucca, 6 anos, fala desde os 9 meses de idade e tem um pensamento lógico aguçado, mas não conseguia ficar quieto na escola, perdendo logo o interesse por qualquer tarefa que concluísse com facilidade. Ele se irritava com as crianças que não acompanhavam seu raciocínio e costumava impor sua vontade aos demais do grupo. Diagnosticado como portador de alta habilidade pela Apahsd (Associação Paulista para Altas Habilidades/Superdotação), lá mesmo começou a fazer ioga.

Gabriela explica que, com a prática, os superdotados aprendem a reconhecer seu valor, saber de suas habilidades especiais e de suas dificuldades e também aproveitam o espaço da aula para falar de si.

Lucca frequenta as aulas há quase um ano. A mãe, Telma Sales, conta que o filho sempre lhe perguntava como poderia ficar mais calmo e ela sugeria que ele contasse devagar até dez. Poucas semanas depois que começou a fazer ioga, ele e Telma tiveram uma discussão e, imediatamente, Lucca se colocou na posição da árvore, respirou fundo e disse:”Mãe, eu não vou brigar com você”.

Em uma conversa com um colega portador de alta habilidade, Lucca comentava que estava meio cansado deste mundo, onde havia muito”blablablá”. Essa foi a deixa para a professora Gabriela trabalhar, durante a aula, o respeito às pessoas que têm opiniões diferentes e dizem coisas com as quais não concordamos.

O menino tem mostrado outra postura em sala. Mais calmo, ele ajuda os colegas com as tarefas que, para ele, são fáceis. A mãe comemora:”O pessoal da escola, a professora, a avó, todo mundo tem comentado que o Lucca está um doce, sempre feliz e que para ele não tem tempo ruim”.

Aos professores
Ana Maria Gonzalez, professora do espaço Prema Yoga, dá aula para crianças há 11 anos. Ela diz que trabalhar com crianças é rico e desafiador.”Se elas não conseguirem fazer nenhuma posição durante a aula, ficam frustradas e desistem. Se acharem tudo muito fácil, perdem logo o interesse”.

Ela diz aos professores que o importante é as crianças fazerem as posturas, ainda que o tempo de permanência seja bem menor que o de um adulto. Para as crianças calminhas ou para as bastante agitadas, os exercícios que trabalham com movimentos e mudanças de posição são os que mais chamam a atenção. Imitar os animais, contar histórias infantis e fazer brincadeiras em dupla aumenta a interação da turminha.

Ainda não é hora de inserir meditações, que são muito monótonas para quem tem tanta energia, e os relaxamentos não devem durar mais do que cinco minutos, ou as crianças se dispersam e começam a rir. Para a professora, a ioga é uma atividade livre de competição, em que não há espaço para críticas destrutivas, e traz benefícios físicos, psíquicos, energéticos e espirituais.”A ioga é a educação do coração”, conclui.  

A melhor escola do mundo

Como a Finlândia criou, com medidas simples e focadas no professor, o mais invejado sistema educacional.

Por Thomaz Favaro, de Helsinque
Revista Veja

Quem entra numa escola na Finlândia se espanta com a simplicidade das instalações. Era de esperar que o sistema educacional considerado o melhor do mundo surpreendesse também pela exuberância do equipamento didático. Na verdade, na escola Meilahden Yläaste, em Helsinque, igual a centenas de outras do país, as salas de aula são convencionais, com quadro-negro e, às vezes, um par de computadores. Apesar do despojamento, as escolas finlandesas lideram o ranking do Pisa, a mais abrangente avaliação internacional de educação, feita pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O último teste, em 2006, foi aplicado em 400.000 alunos de 57 países. O Brasil disputa as últimas posições com países como Tunísia e Indonésia. O segredo da boa educação finlandesa realmente não está na parafernália tecnológica, mas numa aposta nas duas bases de qualquer sistema educacional. 

A primeira é o currículo amplo, que inclui o ensino de música, arte e pelo menos duas línguas estrangeiras. A segunda é a formação de professores. O título de mestrado é exigido até para os educadores do ensino básico. Dar ênfase à qualidade dos professores foi um dos primeiros passos da reforma educacional que o país implementou a partir dos anos 70, e é nesse quesito que a Finlândia mais tem a ensinar ao Brasil. Quarenta anos atrás, metade da população finlandesa vivia na zona rural. A economia era dependente das flutuações do preço da madeira, já que 55% das exportações vinham da indústria florestal. Além dos bosques que cobrem 75% do território, o país só tinha a oferecer sua mão-de-obra barata. Os finlandeses emigravam em massa para vizinhos ricos, como a Suécia, em busca de melhores condições de vida. Preocupados com amá qualidade das escolas públicas, os pais estavam transferindo os filhos para instituições privadas de ensino. Em alguns desses aspectos, a Finlândia se parecia com o Brasil. A reforma educacional colocou a qualificação dos professores a cargo das universidades, com duração de cinco anos. Hoje, a profissão é disputadíssima (só 10% dos candidatos são aprovados) e usufrui grande prestígio social (é a carreira mais desejada pelos estudantes do ensino médio).

O segundo passo da reforma, em 1985, foi descentralizar o sistema de ensino. Por esse conceito, o professor é o principal responsável pelo desempenho de seus alunos: é ele quem
avalia os estudantes, identifica os problemas, busca soluções e analisa os resultados. O Ministério da Educação dá apenas as linhas gerais do conteúdo a ser lecionado. “Isso só é possívelporque os professores recebem um treinamento prático específico para saber lidar com tanta independência”, disse a VEJA Hannele Niemi, vice-reitora da Universidade de Helsinque, que trabalha com a formação de professores há três décadas. O currículo escolar também é flexível, decidido em conjunto entre professores, administradores, pais e representantes dos alunos. A cada três anos, as metas da escola são negociadas com o Conselho Nacional de Educação, órgão responsável por aplicar as políticas do ministério. “Queremos que os professores e os diretores, que conhecem o dia-a-dia da escola, sejam responsáveis pela educação”, diz Reijo Laukkanen, um dos membros mais antigos do Conselho Nacional de Educação.

O governo finlandês faz anualmente um teste com todas as escolas do país e o resultado é entregue ao diretor da instituição, comparando o desempenho de seus alunos com a média nacional. Cabe aos diretores e aos professores decidir como resolver seus fracassos. Esse sistema tem o mérito de fazer com que os professores se sintam motivados para trabalhar. A reforma educacional finlandesa levou três décadas para se consolidar. Pouco a pouco, as crianças voltaram a ser matriculadas nas escolas públicas e as instituições privadas foram incorporadas ao sistema do estado. Hoje, 99% das escolas são públicas e o aluno conta com material escolar, refeições e transporte gratuitos. Cerca de 20% dos estudantes recebem algum tipo de reforço escolar, índice acima da média internacional, de 6%. “Quando um aluno repete, perde toda sua motivação, torna-se amargo e pode até apresentar resultados piores que na primeira tentativa”, diz Eeva Penttilä, do departamento de educação da cidade de Helsinque.

O sucesso da educação fi nlandesa é, em parte, fruto das características únicas do país. A população, de 5,2 milhões de habitantes, é relativamente pequena e homogênea. “Com uma população 35 vezes maior e disparidades regionais e sociais mais acentuadas, o Brasil não conseguiria ter o mesmo padrão de igualdade entre as escolas, como existe na Finlândia”, diz João Batista de Oliveira, ex-secretário executivo do Ministério da Educação. O preço do sistema de bem-estar social que assiste o cidadão do berço ao túmulo é uma carga tributária de 43% do PIB, uma das maiores do mundo, mas apenas seis pontos acima da brasileira. Ou seja, trata-se de um estado paquidérmico, mas eficiente. A Finlândia é o país menos corrupto, segundo a Transparência Internacional. Há quase treze anos na Finlândia, a brasileira Andrea Brandão conhece bem as diferenças entre as duas sociedades. “No Brasil, muita gente acha que algumas profissões, como porteiro, não necessitam de um ensino básico de qualidade”, diz. “Na Finlândia, existe um consenso de que todo mundo precisa ter uma educação mínima para ser um cidadão.”

Andrea é professora de inglês em uma das poucas escolas particulares do país, voltada para a população de fala sueca, que é minoria na Finlândia. Particular, nos “moldes finlandeses”, significa que os alunos pagam uma anuidade opcional de 100 euros, pouco mais de 250 reais. A estudante Eeva-Maria Puska, de 16 anos, passa seis horas e meia por dia na escola Meilahden Yläaste, em Helsinque. Além das disciplinas obrigatórias, ela freqüenta aulas de música, artes e francês, opcionais para os alunos da 9ª série. Mesmo com tantas matérias, Eeva não reclama da carga horária nem, menos ainda, do ambiente: “Gosto dos meus professores, tanto como profissionais quanto como pessoas”, afi rma. Na sua escola, professores e alunos conversam amigavelmente nos corredores espaçosos e bem iluminados. A educação de qualidade foi essencial para uma virada na economia finlandesa. A mão-de-obra qualificada permitiu que a eletrônica substituísse a madeira e o papel como principais produtos de exportação. A Finlândia tem hoje o terceiro maior investimento em pesquisa e desenvolvimento do planeta, grande parte feita por empresas privadas. Uma antiga fábrica de papéis e de botas de borracha do interior do país foi o símbolo dessa transformação. A empresa, Nokia, hoje é a maior fabricante mundial de celulares, com 40% do mercado internacional. Juntos, ela e o sistema educacional são os dois maiores orgulhos dos finlandeses.

OS CINCO SEGREDOS DA EDUCAÇÃO FINLANDESA

A Finlândia consegue ter os alunos mais bem preparados do mundo com medidas simples e ênfase na formação dos professores

1 A exigência com os professores é alta e a carreira, concorrida. O vestibular para ser professor é um dos mais disputados do país. Apenas 10% dos candidatos são aprovados. Exceto na pré-escola, o mestrado é pré-requisito para lecionar

2 A mesma qualidade para todos. A discrepância no desempenho entre as escolas do país é a menor do mundo. O governo mantém um sistema sigiloso de avaliação das escolas (99% são públicas) e os diretores são informados sobre o desempenho delas

3 Os piores alunos não são deixados para trás Dois em cada dez estudantes recebem aulas de reforço. Por causa disso, os índices de repetência são baixíssimos

4 Currículo variado. Além das matérias básicas, há aulas de ecologia, ética, música, artes e economia doméstica. O ensino de duas línguas estrangeiras é obrigatório, mas, se o aluno quiser, pode aprender outras duas

5 Os alunos devem ter prazer em ficar na escola. Os diretores e professores são responsáveis por criar um ambiente agradável para os estudantes. A carga horária não é excessiva e, a partir da 7ª série, os alunos são livres para escolher algumas disciplinas com as quais têm mais afinidade

Finlândia x Brasil

Ênfase nos professores

Em comparação com o Brasil, a Finlândia mantém os alunos por mais tempo na escola e investe mais na formação dos professores. O fato de ganharem menos que os brasileiros em
proporção à renda per capita nacional demonstra que salário não é a única maneira de estimular os professores

Diversidade sempre

Foto: Rodrigo Erib

Valorizar diferentes raças e gêneros e pessoas com deficiência é trabalho para todo dia. Materiais adequados são um bom aliado nessa tarefa.

Ana Rita Martins
Revista Nova Escola

Preconceitos, rótulos, discriminação. É inevitável: desde muito cedo, os pequenos entram em contato com esses discursos negativos. Para que eles saibam lidar com a diferença com sensibilidade e equilíbrio, é preciso que tenham familiaridade com a diversidade – e não apenas em projetos com duração definida ou em datas comemorativas, como ainda é habitual em vários lugares. Outra recomendação importante é que a questão não seja tratada como um conteúdo específico (o que invalida propostas do tipo “bom, turminha, agora vamos todos entender por que é importante respeitar as diferenças”).

Melhor que isso é abordar o tema de jeito natural, inserindo-o em práticas diárias, como brincadeiras, leitura e música (leia o projeto institucional na página seguinte). “O convívio cotidiano é a forma mais eficaz de trabalhar comportamentos e atitudes”, diz Daniela Alonso, psicopedagoga e selecionadora do Prêmio Victor Civita – Educador Nota 10.

Para conseguir isso, uma providência essencial é adquirir materiais didáticos que valorizem as diferentes raças, pessoas com deficiências físicas e mental e mostrem meninos e meninas em posição de igualdade. Ao comprar instrumentos musicais, contemple os de diversas culturas. No caso de brinquedos como bonecas, já existem lojas que se preocupam especialmente em privilegiar a diversidade. A compra de livros pode ser mais difícil: uma pesquisa da Fundação Carlos Chagas que analisou 33 obras de Língua Portuguesa só encontrou duas meninas não brancas nas ilustrações. Entretanto, a busca criteriosa e a leitura prévia costumam resolver o problema. Se a turma já estiver em fase de alfabetização, o Guia Nacional de Livros Didáticos, do Ministério da Educação, é a melhor referência – ele garante que as obras recomendadas não contêm situações de discriminação. Não se pode esquecer que os pequenos aprendem com o exemplo dos adultos. Pensando nisso, a direção da EMEI Aricanduva, em São Paulo, capacitou a equipe para lidar com a diversidade. Antes, só algumas professoras trabalhavam a questão, por meio de projetos específicos. Hoje a diversidade é contemplada em todo o currículo. “Um resultado prático é que, agora, crianças negras que se retratavam como brancas nos desenhos passaram a usar lápis marrom e preto”, comemora a coordenadora Cleide Andrade Silva.

Quer saber mais?
Contatos:
EMEI Aricanduva, Av. Olga Fadel Abarca, 21.500, 03572-020, São Paulo, SP, tel. (11) 2723-7527 Lucimar Rosa Dias, lucimarceert@uol.com.br

Bibliografia
Trabalhando a Diferença na Educação Infantil, Valter Roberto Silvério, 127 págs., Ed. Moderna, tel. 0800-17-2002, 25,50 reais

Consultoria:
Lucimar Rosa Dias, pesquisadora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades, em São Paulo. 

OAB/SP e universidades elaboram “Lei Rouanet” da educação

Carina Teixeira em Cultura e Mercado

Foi entregue na última segunda-feira, dia 09, para o ministro da Educação, Fernando Haddad, uma proposta criada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e por representantes do ensino superior, que promete incentivar o financiamento de universidades públicas e privadas no país.

O projeto tem a finalidade de captar e direcionar recursos privados, mediante incentivos à participação de pessoas físicas e jurídicas, para a adoção de políticas de ampliação dos investimentos, melhoria da qualidade e da rede de ensino do país,  seja pública ou privada.

A proposta de uma norma que discipline a matéria segue o mesmo princípio da Lei Rouanet, que já garante incentivo para entidades que promovam atividades culturais e esportivas. “Se você tem condição de patrocinar alunos [com bolsas], já é um grande passo para a educação brasileira”, declarou Luiz Flávio Borges D’Urso, presidente da seccional paulista da OAB. “Esportes e cultura já dispõem de uma legislação federal que fixa  incentivos fiscais, mas a educação – área vital para o desenvolvimento do povo brasileiro – sofre com essa lacuna. Agora,  este anteprojeto vem suprir esse vazio, a  garantir a captação de recursos privados no sentido de promover doações ou patrocínio de projetos educacionais. Precisamos atingir na educação o patamar de qualidade dos países mais avançados”, completou.

De acordo com o PRONIE, as pessoas físicas ou jurídicas poderão aplicar parcelas do Imposto sobre a Renda por elas devido.No caso das pessoas físicas, a dedução do IR é de até 100%, observado o limite de dedutibilidade de 6% do imposto total devido, sendo que não exclui o percentual máximo de aproveitamento dos incentivos fiscais, em cada ano, destinados aos demais incentivos federais – Fundo dos direitos da Criança e do Adolescente , Lei Rouanet e Audiovisual.

A dedução do IR para as pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real também chega a 100%  dos valores despendidos com doações ou patrocínio de projetos educacionais, , dentro do limite de dedutibilidade de 4% do IR devido. Já as pessoas jurídicas tributadas com base no lucro presumido poderão deduzir do Imposto sobre a Renda até 50% das doações a projetos educacionais.

As doações ou patrocínio direto previstos pelo PRONIE visam a promover e estimular projetos para a construção ou ampliação de unidades escolares, financiar programas de atualização e aperfeiçoamento dos profissionais da educação escolar e propiciar a concessão de bolsas de estudo, entre outros objetivos. Todos os beneficiados estarão sujeitos à fiscalização do MEC ou das Secretarias Estaduais ou Municipais de Educação.

“A OAB SP entende que a educação é o investimento mais importante de um país. A concessão de incentivos a pessoas ou organizações privadas que ajudem a suprir essa atividade, portanto, deve ser incentivada. Precisamos estimular o hábito das contribuições aos projetos educacionais no Brasil, como já acontece no Exterior”, ressalta D´Urso.

Entre outras instituições, o projeto foi elaborado pela OAB-SP, pelo diretor-geral das Faculdades Integradas Rio Branco e pelo presidente da Fundação Arcadas, formada por professores de direito da Universidade de São Paulo. Segundo a assessoria de imprensa do ministério da Educação, Haddad não cogita criar um projeto com essa finalidade.

* Com informações da OAB.

Comissão de Educação e Cultura

Primeiro dia de trabalho do ano foi aberto pelos ministros Juca Ferreira e Fernando Haddad

Os ministros da Cultura e da Educação, Juca Ferreira e Fernando Haddad, respectivamente, abriram na manhã desta quarta-feira, 11 de março, os trabalhos da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados durante a primeira Reunião Ordinária Deliberativa de 2009, ao lado da presidente da Comissão, deputada Maria do Rosário (PT/RS).

A proposta do encontro foi apresentar as pautas a serem trabalhadas durante este ano, no âmbito dos dois ministérios. O ministro Juca Ferreira falou da Reforma da Lei Rouanet, que logo deverá ser apresentada para consulta pública e disse que o atual recuo das empresas deve-se à crise financeira mundial que afetou o país nos últimos meses, e que a reformulação da lei irá mudar essa realidade. “Este projeto tem de ser tratado com carinho e serenidade, pois é um instrumento de enfrentamento do impacto da crise econômica”.O ministro destacou, ainda, o fortalecimento do Fundo Nacional de Cultura (FNC), a modernização da Lei do Direito Autoral, o Projeto de Lei do Plano Nacional de Cultura (PNC) e a PEC 150, que define o patamar mínimo de investimento público em cultura. “É importante garantirmos pelo menos dois por cento do Orçamento da União para a Cultura, pois queremos garantir bibliotecas em todos os municípios brasileiros até o final de 2009″.

Os Pontos de Cultura e as emendas constitucionais serão tratados como prioridade do Ministério da Cultura, segundo o ministro Juca Ferreira. Fernando Haddad, por sua vez, disse que a Educação e a Cultura nunca estiveram tão próximas, desde quando eram um só ministério: “Esta relação [MinC-MEC] está sendo, cada vez mais, restabelecida de maneira definitiva. Os projetos tem uma sintonia muito grande e a Lei Rouanet deve ter um capítulo para a educação, e Juca está atento que as escolas públicas brasileiras precisam disto”.

Parte das ações do MinC se realizam no MEC, garantiu Ferreira. Ele convidou, ainda, o ministro da Educação a participar do grande encontro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) prevista para acontecer no final deste ano. Ao término da reunião, os ministros marcaram um encontro com a Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados para o próximo dia 18, no MEC, e dia 26 no MinC para dar continuidade aos trabalhos.

(Texto: Narla Aguiar)

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.