Esta obra delicada e urgente começa hoje, com você. E, ao mudar o seu comportamento, você cria um impacto em todos ao seu redor. Ideias e cúmplices para chegar lá.
Claudia Ramos
Revista Claudia – 07/2009
O mundo inteiro fala em paz – ou melhor, na busca da paz em sociedades assoladas pela violência. Mas a paz não é um discurso estático; é uma prática em movimento. E, como Mahatma Gandhi ensinou, não há caminho para a paz – a paz é o caminho. “Trata-se de um exercício diário de olhar e de agir”, explica a psicoterapeuta e consultora Maria Tereza Maldonado, autora de mais de 20 livros na área de relacionamentos. Trata-se também do entendimento do tamanho da nossa responsabilidade. “A violência lá fora é reflexo da violência que existe dentro do ser humano. Cada um de nós pode mudar o mundo a partir de uma mudança interna, que por sua vez muda quem está do lado, e assim sucessivamente, num efeito dominó”, afirma a professora de ioga Marcia De Luca, uma das idealizadoras do movimento Yoga pela Paz, que este ano será realizado em sete cidades brasileiras.
Violência não é só física. Ela se manifesta na pequena humilhação, na alfinetada, na indiferença à tristeza do outro. Dentro de casa ou no trabalho, muitas guerrilhas começam porque faltou um gesto de atenção ou um pedido de desculpas. A monja budista Cohen sugere que todas as pessoas observem se alimentam ou sabotam a paz. “Todo dia, reflita e pergunte-se: Em que direção vão meus esforços? Minha fala leva à reflexão? Meu meio de vida beneficia outros seres? Temos de aprender a acessar esse ícone de sabedoria em nós”, diz ela. Assim fica mais fácil harmonizar as relações.
A postura pela paz encontra pontos em comum onde há confrontos e tenta expandi-los. “Mesmo diante de conflitos históricos, é possível achar um fator de sintonia. Por exemplo, mães palestinas e israelenses se uniram para lutar pela paz. O que motivou essa união foi a dor da perda dos filhos na guerra”, diz Maria Tereza Maldonado, ex-docente do curso de formação de negociadores da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro.
A QUESTÃO DA RAIVA
“Na delicada tarefa de construção da paz, ajuda lembrar que somos mortais, que precisamos uns dos outros e que não existe verdade única, o que nos predispõe a tentar entender o ponto de vista alheio”, diz a filósofa Dulce Critelli, coordenadora do grupo Existentia e professora da PUC São Paulo. “Valorizar as pequenas alegrias e progressos também é útil para formar o olhar de apreciação, base da formação da autoestima e do gosto pela vida”, completa. A pergunta que não quer calar: o que fazer com a raiva? Engolir ou explodir não são boas ideias. “Muitas vezes temos de reaprender a rir de nós mesmos, das situações que nos provocam a raiva e transformá-la em compaixão”, sugere a monja Cohen. Para isso, é necessário conseguir lidar com nossas energias perversas, lembrando que nós temos a capacidade de transcender e só encontramos a paz porque ela já existe em nós. A publicitária Eliana* sofreu nas mãos do pai, que batia na mãe e nela. Foram anos de humilhações e decepções. Ao atingir a maioridade, contrariando a vontade paterna, conseguiu estágio remunerado e iniciou um tratamento de psicanálise. A “limpeza” levou dez anos. Algumas sessões pareciam de tortura. A dor vinha tão forte e intensa! Com a análise, aprendi a lidar com meu pai e sua agressividade. Ele não vai mudar porque não quer, mas eu consegui sobreviver e transformar minha vida. Saí de casa, me casei e procuro não repetir esse padrão de comportamento nem com meu filho nem com meu marido.” A espiral da violência foi quebrada.
Para a filósofa Dulce Critelli, reconhecer que a mesma pessoa que nos prejudicou é também capaz de praticar coisas boas colabora para o perdão. “O que pode ser perdoado, porém, é o mal que alguém fez ‘sem querer’, sem ter a dimensão do estrago que causaria. Já o mal intencional deve ser estancado e corrigido. Para isso existem as leis e a punição”, lembra a especialista.
Perceber – e vigiar – os próprios impulsos destrutivos, na opinião do psicanalista Olivan Liger, de São Paulo, significa entendê-los e aceitá-los como parte da natureza humana. Assim, será possível direcionar nossa agressividade para algo positivo. Leitura, esporte ou meditação são aliados preciosos para definir os critérios desse uso. A leitura porque vence a ignorância, abre horizontes e desperta a imaginação; o esporte porque descarrega as tensões, fortalece a confiança e o amor-próprio. Esses recursos criam oportunidades de autoconhecimento, conversa e convívio. Já a meditação nos abre para a dimensão do silêncio, da amorosidade e da pacificação espiritual. “Ela interfere na qualidade do nosso ser e estar no mundo e no modo como nos relacionamos com todos”, afirma Lia Diskin, fundadora do Centro de Estudos Filosóficos Palas Athena, em São Paulo.
A expressão “necessidade de diálogo” se repete sempre que existe um conflito. A questão é que, no impasse, a capacidade de dialogar é a primeira a ser atingida. Para vencer o dilema, o pensador americano Carl Rogers, indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 1987, defende o conceito de “consideração positiva incondicional”. Significa escutar o outro numa postura de aceitação plena: sem desaprovar ou depreciar. Experimente. Quando alguém estiver falando, não fique pensando no que vai responder. Apenas escute. E observe a diferença que isso produzirá. Maria Tereza Maldonado nos convida a imaginar o conflito entre um pai e seu filho jovem. O primeiro diz: “Não quero que volte às 5 da manhã”. O segundo retruca: “Você não sabe de nada”. Se os dois baterem o pé, brigarão para ver quem sairá vencedor, mas a relação perde. “Se passarem a se escutar, sem prévios julgamentos ou disputas, aumenta a chance de que o filho veja a atitude paterna como preocupação com sua segurança, e não como atitude de controle. E aí ele pode até convencê-lo de que é mais seguro chegar às 5 da manhã, com todos os seus amigos e com o dia já claro, do que às 2 da madrugada, sozinho”, pondera.
ESTADO MENTAL
O princípio de toda relação é saber ouvir. Quando isso não ocorre, ela se rompe. Foi o que aconteceu com a produtora de TV Denise*, demitida por uma chefe tirana, que gritava com todos e os humilhava. “Eu a enfrentava, mas sempre acabava chorando. Tive uma chance de mudar de setor, mas ela impediu. Senti que fazia isso apenas pelo prazer de me tirar algo”, lembra. Inconformada com a demissão injusta, Denise procurou o superintendente da emissora e relatou a perseguição. Imediatamente, foi recontratada e transferida para outra área. Depois, ficou sabendo que outras pessoas haviam reclamado dessa chefe, e isso favoreceu sua readmissão. Esse caso mostra a importância da comunidade na reparação de uma injustiça. O ciclo se completou quando a antiga chefe a procurou, pediu desculpas e até um conselho sobre como implantar um sistema de rodízio de folgas que tinha dado certo na nova área de Denise. “Confesso que me senti vingada porque, antes, ela vivia dizendo que eu não fazia nada certo e, depois, reconheceu que eu podia lhe dar as informações de que necessitava.” A essa altura, a raiva já havia passado. Elas estavam numa postura que o filósofo holandês Spinoza (1632-1677) definiu há séculos: “Paz não é a ausência de guerra. É uma virtude, um estado mental, uma disposição para a benevolência, confiança e justiça”. Em seu livro Ética, ele diz que o ódio nunca pode ser bom e que as pessoas devem evitá-lo, e não alimentá-lo. Segundo a psicóloga Maria Helena Zamora, vice-coordenadora do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social da PUC Rio de Janeiro, essa ideia é também uma apologia à saúde, porque odiar faz mal ao corpo. E também prejudica o tecido social – cujas feridas podem ser curadas ou aliviadas sempre que nos alinhamos com a paz.
PARA COMEÇO DE CONVERSA
Aprenda a garantir o tom pacífico de suas relações com os conselhos inspirados no livro O Bom Conflito (Integrare Editora), de Maria Tereza Maldonado:
Aprenda a ouvir - Isso cria flexibilidade para olhar os vários ângulos de um problema e amplia muito a chance de solução.
Expresse sem ofender - Sua opinião poderá ser considerada se você não agredir com ironias ou tom arrogante. Quando isso ocorre, seu interlocutor imediatamente tende a se defender e revidar o insulto.
Ataque o problema e não a pessoa – Em vez de acusar ou reclamar, negocie. Exponha suas ideias, conheça as da outra parte e busque soluções de consenso.
Identifique o disparador da raiva - Tente perceber, em sua atuação, aquilo que provoca a ira nos outros e que se volta contra você. Verifique se abusa do tom blasé, imperativo ou professoral (colocando-se como “superior” ao outro); se usa o tom de lamúria (colocando-se como “inferior” ou vítima do outro). Dar ordens, pedir, recusar, comentar, discordar: como você faz isso?
Valorize o que é bom - Quando alguém disser ou fizer algo oportuno ou gentil, ressalte. É um modo de reconhecer o mérito alheio e de revelar do que você gosta.
Tolere as diferenças - Esse exercício é a base do convívio humano. Inclui a aceitação da realidade e de uma dose de frustração. Nem tudo acontece como desejamos.
Acione o descarregador - Muita gente se renova após uma hora de ginástica, natação, ioga, meditação… Encontre a prática que favorece seu equilíbrio no dia a dia.
Veja o cronograma do evento Yoga pela Paz, que ocorre em agosto, em sete cidades brasileiras, no site.
