Foi-se o tempo em que fazer compras era só abastecer a casa. A questão é qual o preço (em reais) dessas opções ambientalmente e socialmente sustentáveis
Por Tatiana Bonumá
Revista Bons Fluidos – 03/2008
Hoje, consumir implica responsabilidade. Demonstra resistência ou apoio em relação ao fabricante e o conhecimento do impacto que a cadeia de produção causa. “Ter consciência de que se pode influenciar o mundo como consumidor é um dado importante e inevitável. O pós-moderno não se esquece das implicações do objeto comprado. Por exemplo, atualmente, quem vai querer um cinto feito de couro de crocodilo ou um diamante desencravado à custa do trabalho escravo? É essa postura que nos levará ao equilíbrio, evitando a barbárie consumista”, pondera o antropólogo Roberto DaMatta. Você pode endossar uma campanha, sabotar uma conduta ou ajudar a financiar uma causa, de acordo com as escolhas que faz. Nesta era, do consumo responsável, os alimentos orgânicos, os eletrodomésticos que economizam energia, os objetos de madeira com selo do FSC e muitos outros produtos sustentáveis estão em alta. Mas quanto custa fazer essa opção sempre e em todos os setores? Às vezes um produto com as características ecologicamente corretas pode sair 50% a mais do que o similar popular, e em outras, o mesmo tanto que um produto convencional. O importante é comparar e escolher de acordo com sua saúde financeira. Voltando ao supermercado, se não dá para ter tudo verde, pode-se ter metade de tudo verde ou apenas um
item. Como diz o próprio Roberto DaMatta, tudo bem com a preocupação sobre a sustentabilidade, mas não podemos nos esquecer de que antes precisamos salvar o homem.
ISSO OU AQUILO?
“Na hora de escolher o que entra no orçamento, normalmente o consumidor fica com o produto que traz benefícios extras para a saúde. Essa é a motivação primordial para adquirir
produtos sustentáveis, mesmo que custem mais caro. Em segundo plano, o fator ambiental é considerado”, responde André Carvalho, pesquisador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas, de São Paulo. Esse é o comportamento no Brasil e no restante do mundo. Numa escala de valores, alimentos saudáveis, como os orgânicos, são mais importantes do que o detergente biodegradável, o xampu com conceito ecológico e a madeira certificada. Os números comprovam: a venda de alimentos orgânicos cresce cerca de 30% a cada ano. Já o aumento da procura por produtos de madeira com selo do FSC, por exemplo, não chega a dois dígitos. “São duas consciências e posturas. Uma é centrada no interesse individual e visa o benefício imediato, enquanto a outra indica a preocupação com o todo, objetivando melhorias a médio e longo prazo para o meio ambiente
e para as pessoas”, explica André Carvalho.
QUESTÃO FINANCEIRA
É verdade que muitas vezes não se trata de falta de consciência ecológica, mas de dinheiro. Ser um consumidor responsável sai mais caro? Sim e não. A escala de produção de um item com os critérios ambientais respeitados costuma ser reduzida (a demanda e a produção são menores, e os preços, maiores). Em São Paulo, uma caixa de morango sai por 6 reais*, contra 3 do produto similar, um detergente biodegradável custa de 4 a 6 reais, enquanto o convencional sai por cerca de 80 centavos. Um xampu básico pode ser comprado por 4 reais, e a versão ecologicamente correta pode custar 25 reais (os detergentes utilizados na formulação são biodegradáveis e 100% vegetais e, em geral, comprados de cooperativas que visam incrementar o comércio justo). Por outro lado, também é fato que o consumidor consciente adota atitudes econômicas. “Uma fruta orgânica não estraga na geladeira desse consumidor porque ele compra apenas o que sabe que vai comer. Não há desperdício”, responde Eliana Bussinger, consultora financeira, pesquisadora sobre economia sustentável e autora de A Dieta do Bolso (ed. Campus/Elsevier). Outra postura que esse consumidor assume é a de não comprar supérfluo. “Mesmo assim, evidentemente que, se ele não souber equilibrar o orçamento, poderá incorrer em custos maiores, mas geralmente a atitude responsável costuma pesar mais”, completa a consultora. Para reorganizar as finanças, consulte bons sites e livros (veja quadro), com orientação para as atitudes rotineiras. Afinal, é nas decisões do dia-a-dia que se define o futuro de nosso planeta. “Não dá para desassociar as finanças pessoais das preocupações políticas e ecológicas. A forma de consumir afeta o bolso, a saúde e o mundo. As conseqüências de seus atos moram no futuro e é bom cuidar
dele porque é para lá que você vai”, alerta Eliana Bussinger.
NA MEDIDA DO POSSÍVEL
Dicas do consultor André Carvalho para um consumo responsável:
- Questione-se uma, duas, três vezes se realmente precisa consumir o produto.
- Avalie a embalagem. É exagerada? Possui materiais sintéticos e não orgânicos? É reciclável? Verifique se pode consumir um similar com embalagens menos impactantes (plástico biodegradável, por exemplo).
- Prefira itens que tenham selos relacionados a aspectos sociais e ambientais, como os selos de produção orgânica: IBD (Instituto BioDinâmico), Ecocert e AAO(Associação de Agricultura
Orgânica), os de manejo florestal, como o FSC e Cerflor (respectivamente selos de origem internacional e nacional), e o do Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel e Conpet), que representam melhor desempenho energético e menor impacto ambiental.
- Sempre que possível, troque o supermercado pela feira, que não embala os produtos e oferece preços menores. Melhor ainda se descobrir feiras nas quais os agricultores vendem diretamente seus produtos, sem o adicional dos intermediários.
- Opte por itens da estação e pelos in natura, que garantem qualidade melhor e preços mais baixos.
O QUE ESTÁ POR TRÁS DOS PREÇOS VERDES
Sabão em pó biodegradável
(R$ 7, contra R$ 5, do similar)*
Itens que elevam o preço:
• Matérias-primas nobres (de origem vegetal e certificadas por órgãos internacionais, como IBD, Ecocert, BDIH etc.). Não há o uso de substâncias derivadas do petróleo, de animais ou sintéticas.
• Embalagens 100% recicláveis. Não inclui nenhum material tóxico para o meio ambiente.
Alimentos orgânicos
Itens que elevam o preço:
• A escala de produção feita sem agrotóxico.
• Do cultivo ao armazenamento dos alimentos, regras rígidas precisam ser seguidas para o alimento receber o certificado.
• Embalagem diferenciada (uma maçã orgânica tem que vir com um selo de certificação, mas ele não pode estar diretamente sobre o produto. Para isso, é necessârio uma embalagem, bandeja, por exemplo, feita em material que não cause impacto ao meio ambiente).
E a madeira certificada?
Os móveis de madeira são um filão de mercado que está praticando preços aproximados de produtos com ou sem madeira com certificado. “A tendência, a médio prazo, é que ele puxe os outros mercados também”, diz André Carvalho, da GV. Nos últimos anos, a procura por produtos com o selo FSC aumentou. “Um fator decisivo para isso foi não apenas o comportamento dos consumidores individuais, mas também de empresas. Algumas começaram a exigir que os produtos tivessem o selo”, diz Ana Yang, secretária executiva do FSC-Brasil. “Quando se fala em móveis de madeira, o que eleva mais o preço é o design do arquiteto”, destaca Karla Aharonian, gerente de produtos ecológicos da Ecoleo.
CONSCIÊNCIA PESSOAL
Minha saúde em primeiro lugar “Há três anos, parei de comer carne vermelha e comecei a me preocupar com a alimentação. Tento comprar sempre orgânicos e hidropônicos. Mas preciso admitir: os preços são um impeditivo. Não consigo comprar na quantidade que eu gostaria. Portanto, oscilo. Em um mês, compro tomate orgânico, no outro, fico com o tradicional, mas compro o morango orgânico. Vou fazendo assim. Também tento economizar com outras coisas para poder gastar mais com a alimentação. Sempre que posso, faço compras na feira, que é mais barato, e deixo de fazer refeições na rua para comer em casa” – MARINA BUENO, 24 anos, estudante do curso de história
CONSCIÊNCIA TOTAL
Só gasto dinheiro com produtos responsáveis “Sou sensível a qualquer causa que defenda os animais. Então, decidi não comprar mais produtos que fazem testes em bichos. Não tenho enfrentado o problema dos preços altos, mas demoro muito mais para fazer compras, cerca de uma hora a mais, ou seja, o dobro do que eu demorava. Antes era um lance rápido. Eu entrava, pegava o que eu já costumava a consumir e pronto. Hoje não. Antes de comprar, tento saber mais sobre o fabricante. Entro no site, pergunto para as pessoas e acompanho as notícias sobre o assunto. Meu dinheiro só vai para quem tem uma atitude responsável com nosso mundo” – FABIANA BARBOSA, 32 anos, Bibliotecária
CONSCIÊNCIA DO FABRICANTE
Sobre a minha atuação nomundo “Há 15 anos, trabalhava numa camisaria e a quantidade de resíduos gerados me incomodava. Hoje, tenho minha confecção, que aproveita 100% dos tecidos. Com as sobras, fazemos jogos americanos e bolsas. Só usamos fibras orgânicas, que poluem menos. Reduzimos o tingimento das roupas, trabalhamos mais com o material
cru e rejeitamos acessórios metálicos, plásticos e sintéticos. O trabalho de renda, bordado e costura é feito por mulheres de dez cooperativas no Nordeste. O rendimento traz melhorias para elas e para as comunidades em que vivem. O retorno financeiro não é imediato, mas ele vem. O retorno para a sociedade está garantido” – MAGNA COELI, 48 anos, antropóloga e proprietária da confecção Refazenda
EDUQUE-SE FINANCEIRA E ECOLOGICAMENTE
Bons sites
WWF-BRASIL - www.wwf.org.br
GREENPEACE – www.greenpeace.org.br
INSTITUTO AKATU PARA O CONSUMO CONSCIENTE – www.akatu.org.br
CENTRO DE ESTUDOS EM SUSTENTABILIDADE DA FGV – www.ces.fgvsp.br
Bons livros
• Biodiversidade: Para Comer, Vestir ou Passar no Cabelo?,Nurit Bensusan, ed. Fundação Peirópolis (leia resenha na Estante do Planeta Sustentável)
• Desenvolvimento Sustentável – Desafio do Século XXI, José Eli da Veiga, ed. Garamond