Cuidei Melhor dos Personagens do Que de Mim

Protagonista de três filmes lançados recentemente, Selton Mello se consolida como “o cara” do cinema brasileiro e admite que, nos últimos anos, deu mais atenção ao trabalho que à saúde

por Armando Antenore

revista Bravo! Julho 2009

Quando menino, Selton Mello não perdia os programas de auditório que abriam espaço para calouros mirins. Morria de inveja das crianças que se exibiam na televisão. Uma tarde, pediu à mãe: “Quero aparecer ali”. Logo a reivindicação se concretizou. Com 8 anos, de terninho bege e gravata, o garoto surgiu diante das câmeras entoando Lady Laura, de Roberto e Erasmo Carlos. Atravessou o resto da infância nos estúdios de TV. Antes dos 10, já fazia novelas. Nos bastidores das emissoras, conheceu figuras mitológicas do imaginário popular: o palhaço Bozo (que o cumprimentou tagarelando algo como “teretetéu!”), o apresentador Bolinha e a cantora Perla.

Atualmente, Selton não deseja mais “aparecer ali”. Ou, pelo menos, não deseja aparecer tanto. Há uma década, o ator de 36 anos participa apenas de projetos esporádicos na televisão. Afastou-se das novelas e dos contratos fixos. Transformou-se num homem de cinema. Entre curtas e longas-metragens, atuou em 26 filmes. Estreou ainda adolescente, como o Renan de Uma Escola Atrapalhada, infantil de 1990 que reunia Supla, Angélica e Os Trapalhões. Foi a partir de 2000, porém, que mergulhou de cabeça nos sets. Integrou o elenco de 20 produções, uma média respeitável. Dos personagens que encarnou, dois se tornaram célebres: o Chicó, de O Auto da Compadecida, e o João Estrella, de Meu Nome não É Johnny. Em 2008, com Feliz Natal, o ator se aventurou na direção e como roteirista.

Três longas protagonizados por ele, que chegaram recentemente às salas de projeção, demonstram o ecletismo do intérprete. A Mulher Invisível, comédia rasgada de Claudio Torres, traz Luana Piovani no principal papel feminino e atraiu mais de 1 milhão de espectadores até o fim de junho (leia ensaio clicando aqui). Jean Charles, drama de Henrique Goldman, reconstitui a trajetória do imigrante brasileiro que, confundido com um terrorista, acabou assassinado pela polícia britânica em 2005. A Erva do Rato, assinado por Julio Bressane, enquadra-se na categoria dos filmes herméticos, que fisgam exclusivamente a elite intelectual.

Mineiro de Passos, filho de um bancário e uma dona de casa, Selton é irmão do também ator Danton Mello. Ambos cresceram nos bairros paulistanos da Aclimação e do Brás. Depois, se mudaram para o Rio de Janeiro. Lá, num casarão do Alto da Gávea, Selton mora sozinho. Solteiro, diz que “há séculos” só cultiva “rolos, namoricos, casos, romances quase possíveis”. De passagem pela cidade de São Paulo, conversou com BRAVO!.

BRAVO!: Por que você resolveu priorizar a carreira cinematográfica?

Selton Mello: Por uma série de razões. Primeiro, andava insatisfeito com meu desempenho na TV. Temia virar um burocrata, aquele camarada que bate o cartão, executa o mínimo, pega o salário e pronto. Na televisão frequentemente é assim: você vai tocando sem muito preparo, sem maiores cuidados. Fica no piloto automático. Voo de cruzeiro, entende? Talvez, no passado, houvesse um produto mais autoral. Olhe as novelas. Apenas um cara as escrevia. Hoje são sete. Apenas um cara as dirigia. Hoje são seis. O negócio se diluiu barbaramente. Uma hora notei que não me sentia bem em trabalhar desse jeito. E refleti, preocupado: “Se não me sinto bem, o público acabará percebendo”. Pintou, então, a oportunidade de participar do Lavoura Arcaica, o filme do Luiz Fernando Carvalho [lançado em 2001]. Foi uma experiência incrível. Por cinco meses, o elenco se enfurnou numa fazenda de Minas Gerais. A gente viveu em função do longa. Esculpimos cada detalhe dos personagens, nos aprofundamos na história. Vislumbrei ali outros caminhos para a minha profissão. Saquei que o cinema poderia me desafiar, me colocar numa lógica menos industrial. Respirei fundo e decidi arriscar. “Vamos ver se aguento”, pensei — porque não é nada mau ter o salário caindo na conta mensalmente. Com o tempo, e para a minha surpresa, a publicidade prestou atenção em mim. O pessoal das agências se ligou que “o Selton só faz projetos de qualidade”. Comecei a protagonizar uma porção de comerciais. Descobri a pólvora! Não procurava a pólvora e, de repente, a descobri. Claro que existe o risco de o cenário mudar completamente. Moramos no Brasil, afinal. Também posso me cansar dos sets, concluir que o cinema não me mobiliza mais e pedir para retornar às novelas. Não desconsidero nenhuma hipótese.

Os ganhos com publicidade se aproximam do que você faturaria na televisão?

Creio que sim. Não arrumo comercial todo mês. Mas, quando arranjo, embolso o suficiente para me sustentar e, inclusive, rodar uns filmes quase de graça. Recebi cachês simbólicos em Árido Movie, Garotas do ABC, O Cheiro do Ralo… Na verdade, nunca imaginei me tornar milionário. Mantenho o foco. Não entro numas de querer casa de campo, carrão, cobertura em Nova York.

Só com o cinema, sem a publicidade, você conseguiria sobreviver?

Não. Teria de recorrer mais à TV, encarar umas peças de teatro. Necessitaria cavar outras fontes de renda.

Por que você faz pouco teatro?

Vou responder de maneira bem rasa: por preguiça! Fiz apenas oito ou nove peças. É realmente pouco. Teatro exige uma dedicação absurda! Ensaio, ensaio, ensaio. Curto preparar um personagem com calma, mas nem tanto. Ensaiar muito me desanima. Melhor o jogo que o treino. Lógico que admiro quem sua a camisa no palco. Respeito demais os atores que contam a mesma história de quinta a domingo. Um ótimo exemplo é o Wagner Moura. Ele está incorporando agora um Hamlet maravilhoso. Vi o homem em cena e pirei. O cara segura o tranco de um Lavoura Arcaica por noite!

Há algo que o desanime nas filmagens de um longa?

Há, sim. Odeio as sessões intermináveis na sala dos maquiadores. Em O Coronel e o Lobisomem, precisava usar bigode, costeleta, barba. Um horror! Gastava horas na maquiagem. O Diogo Vilela também. Um dia, o coitado virou para mim e anunciou, meio na piada, meio seriamente: “Terminou! Minha carreira terminou aqui! Não aguento mais”. [risos]

Você começou garoto na TV. Depois, durante a adolescência, perdeu espaço — as emissoras deixaram de chamá-lo. Foi um trauma na época, não?

Imenso, imenso. Apareci na televisão entre os 8 e os 13 anos. De repente, o poço secou. Ninguém da Globo ou de outro canal se lembrou de mim por uns quatro anos. Eles gostavam do menino, não do adolescente.

Sua guinada para o cinema tem relação com aquele trauma? Seria uma tentativa de você não depender tanto do veículo que o descartou uma vez?

É possível… O Paulo Betti já me disse que entrei nessa roda-viva de atuar, escrever roteiros e dirigir porque receio o desemprego: “Você vai ocupando todas as brechas. Joga nas 11 posições. Se fecharem uma porta ali, você abriu outras acolá”. Ele pode estar certo, né? Vários aspectos de minha trajetória devem dialogar com o moleque rejeitado de antigamente.

E o fato de você não exibir o perfil típico do galã, influenciou na opção pelo cinema?

Foi uma ideia que passou por minha cabeça, sim. Se você não possui os atributos clássicos do galã, avança menos na televisão. Orbita em torno de um universo mais restrito. Onde um sujeito com inquietude criativa e sem uma beleza-padrão consegue transitar melhor? Onde descola papéis interessantes? No cinema.

Seu irmão caçula, Danton Mello, trilha um caminho bem diferente. Ele continua nas novelas…

Pois é. Sabe quando você descobre que envelheceu? Quando seu irmão caçula se torna o astro de uma novela em que você trabalhou na infância. Há 23 anos, fiz Sinhá Moça. Era o menino da trama original. Em 2006, a Globo regravou a história. Quem interpretou o principal personagem masculino? O Danton!

Ele, aliás, ascendeu justamente no período do seu ostracismo. Enquanto o primogênito voltava para casa, o caçula despontava em programas da Globo. Existe competição entre vocês?

Não, sinceramente não. Torço pelo Danton, e o Danton torce por mim. Convivemos bastante, trocamos impressões sobre as coisas, falamos de tudo. Só que agimos de modo oposto. Tempos atrás, me recordei de um episódio engraçado. Ainda moleque, costumava almoçar e jantar num daqueles pratos coloridos de criança. Eu tinha um e o Danton, outro. No fundo do meu, havia uma história em quadrinhos. Era a fábula da cigarra e da formiga. Minha mãe enchia o prato e, à medida que eu o raspava, a história aparecia. A cigarra se divertindo, e a formiga ralando. O gozo e a obrigação. Eu sou a formiga. O Danton, a cigarra.

Mas, quando perguntei sobre teatro, você se classificou de preguiçoso…

Velho, caí em contradição! Pretendo me contradizer mais 15 vezes ao longo da entrevista. Na realidade, meu sonho é conversar com você novamente daqui a cinco anos e desdizer cada frase que disse até agora. [risos]

Retomemos a fábula.

Então: sou mesmo a formiga. Trabalho como um doido, me angustio… Devia me chamar Selton Angústia Mello. Já o Danton aproveita a vida. É livre. Não aposta 100% das fichas na profissão. Ele tem mulher e duas filhas, gosta de comer bem, adora viajar. Morou na França e nos EUA. Estudou inglês. Eu, em compensação, só carreguei pedra. Um exagero… Agora sinto necessidade de tirar um sabático e abraçar os clichês: pedalar pelo Rio, beber chope com os amigos, apanhar sol — prazeres de que desfrutei muito pouco.

Em 2008, na estreia de Meu Nome não É Johnny, entrevistei você e ouvi algo semelhante: “Vou descansar”. Parece que você ainda não descansou…

Estou desacelerando. Devagarinho a gente chega lá. [risos] Pelo menos, já faço análise. Iniciei há seis meses.

Não consegue parar de trabalhar? É compulsivo?

O que acha? Fumo demais, por exemplo. [Observa o cinzeiro sujo em que depositou quatro bitucas de cigarro nos últimos 50 minutos.] Às vezes, penso que encontrei um método infalível contra o tabagismo. Basta exigir que os fumantes comam a inhaca do cinzeiro — a imundície que eles próprios deixaram ali. Neguinho certamente abandonaria o vício.

Você é compulsivo com comida?

Sou, por causa da angústia. Devoro um monte de porcaria: junkie food, pizza, hambúrguer. E doce! Chocolate… Formiga, velho! Maldito pratinho colorido da infância! [risos] Mas vou virar a chave. Vou mudar.

Quanto você pesa?

Tenho 1m81 de altura. Meu peso ideal é 80 quilos. Hoje estou com 90. Em 2008, quando filmei Jean Charles, beirava os 110. Engordei bastante na época porque interrompi os remédios que consumia para emagrecer. Funcionava assim: se ia rodar um longa em março, passava os três meses anteriores tomando os comprimidos. Perdia peso e, tão logo terminava o filme, largava os remédios. Em consequência, engordava de novo. Fiquei nessa gangorra por dez anos. Certo dia, me toquei de que precisava parar — as drogas cobram um preço abusivo, modificam o humor, o metabolismo. Com esforço, parei. Veio, então, a rebordosa. Uma depressão terrível, uma insegurança, uma paranoia. Fiz o Jean Charles me julgando péssimo, deslocado, cheio de travas físicas e psíquicas. Questionei tudo durante as filmagens, inclusive meu talento. “Sou uma farsa! Desaprendi o ofício!” Nem sei de que maneira suportei a barra… Filmamos em Londres. Eu, no entanto, não me enxergava lá. Sentia-me em outro lugar, náufrago, confuso. Participei do filme como um zumbi. O louco é que resultou num negócio bonito, delicado. O sofrimento do Selton escorreu para o Jean.

Você continua questionando seu talento?

Não. Sou de fato um ator. Melhor: sou um autor. Gosto de criar — não importa se à frente ou por trás das câmeras. Acontece que a tempestade emocional de 2008 realmente me assustou. Nunca vou esquecê-la. Percebi, em Londres, um troço fundamental: nos últimos anos, cuidei mais dos meus personagens que de mim. Pretendo agora inverter a equação. Se cuidar mais de mim, aposto que meus personagens também sairão ganhando.

Como você os constrói?

Não desenvolvi um jeito específico. Em alguns casos, pesquiso muito. Em outros, me guio apenas pelo feeling. Depende do enredo, do diretor, do meu pique. Para viver o Leléu em Lisbela e o Prisioneiro, uma comédia de feições nordestinas, visitei os subúrbios do Recife e as feiras populares, escutei músicas bregas e bati um papo com o Lirinha, vocalista do grupo Cordel do Fogo Encantado. Queria apreender o sotaque pernambucano dele. Em contrapartida, quando protagonizei Meu Nome não É Jonhny, confiei principalmente na intuição. Existe uma linha tênue entre o preparo adequado e o preparo excessivo. Um ator não deve se preparar demais para um papel. Convém que esteja levemente despreparado. Se o cara entra todo engessadinho no set, acaba não permitindo que a surpresa o contamine. A cena se converte em um monólogo. Abdica-se do diálogo com as circunstâncias.

Parte dos críticos afirma que você tem tiques de interpretação. Concorda?

Evidente que tenho. É complicado você se multiplicar — inventar máscaras distintas para cada situação. É quase impossível. Não conseguiria apontar um cacoete neste momento. Mas, revendo meus trabalhos, frequentemente me irrito: “Caramba! De novo aquele gesto, de novo aquela entonação!”.

Que atores você admira?

O maior ator do cinema brasileiro se chama José Dumont. Um monstro! Polivalente à beça. Na pele do sujeito, qualquer personagem cresce. O Wagner Moura é o melhor de minha geração.

Melhor que você?

Sim, claro. Outro veterano que admiro é o Paulo José. Uma vez ele me explicou de que modo resolveu uma cena dificílima. Seu personagem recebia uma caixa e, ao abri-la, deparava com a mão do próprio filho, decepada por um sequestrador. Como se comportar diante de tamanha atrocidade? Eu, se encarnasse o personagem, abriria a caixa e me descabelaria, gritaria, sofreria um colapso. O Paulo José, malandro, abriu a caixa sem esboçar grandes reações. Simplesmente a olhou e deixou o público imaginar o que um pai sentiria em meio àquele pesadelo. Gênio!

Entre os atores de fora, quais você destaca?

O Benicio del Toro e o Sean Penn. Nos meus tempos de dublador, dos 12 aos 20 anos, observei muito os estrangeiros. Foi uma tremenda escola vê-los atuar. Pequenas sacadas que pesquei nos filmes da época me influenciam ainda hoje. Em Picardias Estudantis, por exemplo, o Sean Penn interpreta um surfista lesadão. Sempre que o maluco desejava comprar algo, arrancava do bolso uma maçaroca de dinheiro, notinha fiscal, documento, tudo amassado. Em Meu Nome não É Jonhny, roubei aquilo.

Roubou?

Na cara de pau! Para indicar o quanto o protagonista do longa estava atrapalhado, não hesitei: fazia-o puxar do bolso uma maçaroca como a de Picardias Estudantis. Ladrão! No fundo, não passo de um ladrão! [risos]

Morrer é fácil

No livro O Médico Doente, o oncologista Dráuzio Varella relembra as três semanas em que quase sucumbiu à febre amarela

Por Armando Antenore
Revista Bravo! – 02/2008

O mesmo Brasil que hoje se alarma com a febre amarela registrou, em 2004, apenas cinco casos da doença. Três dos infectados morreram. Entre os que sobreviveram, está Drauzio Varella. Uma desconcertante ironia explica a contaminação do oncologista, famoso tanto pelas qualidades de clínico como pelas séries sobre educação e saúde que apresenta no programa Fantástico, da Rede Globo. Ele costuma viajar para a região do rio Negro, em plena Amazônia, onde coordena pesquisas com plantas medicinais. Na floresta, levou a picada do mosquito que transmite o vírus da febre e só a manifestou porque não renovara a vacina que a neutraliza, vencida havia duas décadas. O doutor alto e magro, que percorre o país ensinando hábitos imprescindíveis à prevenção de inúmeros males, negligenciou as próprias lições.

No pequenino O Médico Doente, sétimo título de uma bibliografia que inclui o best-seller Estação Carandiru, Drauzio recorda em detalhes e com notável honestidade o martírio imposto pelo vírus, tão letal quanto o temerário Ebola. Foram três semanas de internação, sob a tirania de sintomas que iam de dores insuportáveis a náusea, confusão mental e absoluta falta de apetite. Numa entrevista de duas horas em São Paulo, cidade onde nasceu e mantém um consultório, o especialista, de 64 anos, conversou sobre o livro recém-lançado.

BRAVO!: Em O Médico Doente, você escreve que “morrer é fácil”. A reflexão causa espanto principalmente por aparecer num dos trechos mais dramáticos da narrativa, quando você está muito fraco e recebe a notícia de que precisa ir para a UTI. A morte batia à porta, e você a classificava de fácil… Estranho, não?
Realmente, naquela ocasião tive a certeza de que morreria em pouco tempo. Mais 24 ou 48 horas e pronto… Os exames indicavam que meu fígado caminhava para o colapso. Havia perda de proteína pelos rins, os pulmões trabalhavam com dificuldade, o coração acusava uma arritmia. Era o que chamamos de “falência de múltiplos órgãos”. Talvez outros médicos, no meu lugar, conseguissem deixar de fazer uma análise técnica da situação. Eu não conseguia — dimensionava exatamente a gravidade do quadro. Ainda assim, a partir de um determinado momento, me resignei. Como sou oncologista desde 1972, assisti à morte de várias pessoas. E notei que, quando a doença aperta o cerco devagar, acaba preparando a vítima para o fim. À medida que avança, enfraquece o paciente e tira-lhe qualquer possibilidade de reação. Ele abdica de lutar e deseja apenas ficar quieto. Não reivindica nada nem se desespera. Por incrível que pareça, morrer vai se tornando fácil. Foi justamente o que ocorreu comigo. Pude comprovar na carne que a perspectiva da morte nos angustia e apavora bem mais do que a iminência dela.

Então você não se surpreendeu com o próprio comportamento?
Pelo contrário: me surpreendi muito. Uma coisa é você observar os pacientes. Outra é você estar ali, na cama, agindo como eles. Não imaginei que iria me entregar daquele modo. Pensei que nunca abandonaria a ânsia de viver, que brigaria sem tréguas se caísse doente. Eu, desistir? Não, de forma nenhuma! Sou um esportista, um sujeito ativo, que corre de lá para cá! Meus pacientes, sim — via-os jogar a toalha. Mas eu?!? Caso me perguntassem no hospital: “Você quer viver?”. É claro que responderia: “Quero!”. Teoricamente, queria mesmo. Só que, em termos concretos, imperava uma espécie de rendição.

E o afeto? No livro, você conta que se desligou afetivamente de sua irmã, de sua mulher, de suas duas filhas e de sua neta quando a doença recrudesceu.
Pois é… Pessoas queridíssimas que, de repente, perderam o significado afetivo para mim. Minha mulher, por exemplo [a atriz Regina Braga]. Somos casados há 26 anos! E tenho paixão pelas minhas filhas, com quem procuro falar diariamente. Entretanto, no ápice da crise, os laços emocionais que me uniam a elas se desfizeram. Sabe quando você esbarra em um amigo que não encontra desde a infância? Você o reconhece, percebe que não se trata de um estranho. Após cinco minutos de conversa, porém, você se conscientiza de que já não habitam o mesmo mundo. Aquilo que os ligava desapareceu. Foi o que se passou no hospital em relação às figuras mais importantes de minha vida. Levei um susto.

Assustou-se na hora ou só depois, relembrando o episódio?
Não, na hora. Testemunhava a minha apatia e me intrigava: “O que está acontecendo aqui?”. De novo, imaginava que apenas os outros pudessem manifestar algo parecido. Tive pacientes que se distanciaram dos familiares às vésperas da morte e, de certa maneira, os responsabilizei pelo alheamento. Julguei que reagiam assim porque, ao longo dos anos, construíram elos afetivos um tanto frios e tênues, muito diferentes dos meus, tão repletos de intimidade e amor. Aquela temporada no hospital mostrou que me enganara. Hoje, creio que devemos levar ao pé da letra a tal história de “nasci sozinho, vou morrer sozinho”. Para qualquer um de nós, a morte é um processo absolutamente solitário, mesmo que alguém segure a nossa mão nos instantes derradeiros.

Você ainda relata, no livro, que o agravamento da doença lhe roubou momentaneamente o apego pela profissão.
Exato. Enquanto piorava, me dei conta de que a medicina, o consultório, as pesquisas, o atendimento de presos, as campanhas de saúde pública, os prêmios e os artigos escritos não me diziam mais respeito. Lembro-me de um domingo em que vi o meu quadro no Fantástico e não senti nada. Normalmente, me interesso pela série. Presto atenção em cada detalhe para corrigir os defeitos, para melhorar. Daquela vez, ocorreu o inverso – um enorme desprendimento se apoderou de mim. Era como se enxergasse outra pessoa no vídeo. Um personagem, entende? Minha trajetória profissional se transformava num filme, que perdia a importância por já estar concluído.

Sob o peso de tamanho desânimo, como você conseguiu virar o jogo e sobreviver?
Difícil apontar um motivo preciso. Talvez a vacina contra a febre amarela que tomei lá atrás e que se encontrava vencida tenha deixado um resto de imunidade. Talvez o meu bom preparo físico e a ausência de doenças de base tenham contribuído — um cardíaco ou diabético provavelmente não escaparia. Enfim… Não dá para explicar tudo. Há uma parte da coisa que é incerta.

O senso comum defende que a vontade de viver e o pensamento positivo dos doentes conduzem à cura. No livro, você rejeita idéias dessa natureza. Por quê?
Porque não existe demonstração científi ca que as sustente. Lógico que ambos os aspectos ajudam em qualquer circunstância. Sem pensar positivamente, sem acreditar na vida, você nem levanta da cama. Alguém que se submete à quimioterapia enfrentará melhor o tratamento se disser para si mesmo: “Vamos lá! Vou viver!”. Agora, afirmar que é possível controlar a doença apenas com a força do pensamento positivo…Pegue o caso de um paciente com câncer de pâncreas disseminado. Vi alguns pensarem de maneira altamente positiva e morrerem em dois, três meses, mas nunca vi nenhum se curar. Considero uma sacanagem espalhar crenças do gênero. Um absurdo, um desrespeito com os doentes, por lhes atribuir responsabilidade sobre algo que não depende exclusivamente deles. Quer dizer, então, que só morrem os fracos, os covardes? Que culpa tem uma criança de 8 meses s e sucumbir à leucemia? Ou um idoso de 85 anos se não suportar um câncer de próstata? Há um grau de fatalidade na condição humana que me parece incontornável.

Você também não acredita que as doenças possam derivar de pensamentos ruins ou de neuroses?
Não se trata de acreditar. Medicina não é religião. Costumo cuidar de mulheres com câncer de mama. Às vezes, recebo uma no consultório que me fala: “Puxa, doutor, sei exatamente como arranjei esse tumor”. E associa o mal à depressão, à ansiedade, às crises de pânico, à separação do marido. Olhe que terrível: a paciente, já debilitada pelo problema de saúde, ainda se tortura por imaginar que o provocou. Onde arrumam teorias assim? Desconheço trabalhos sérios, organizados, que as comprovem.

Mas uma das críticas que se faz à medicina ocidental é justamente a de fragmentar o ser humano e não estabelecer nexos entre as diferentes instâncias do corpo.
Crítica merecida, aliás. O bom médico deve tentar enxergar o todo. Se ministrar remédio para o fígado, precisa avaliar os efeitos colaterais. Se decidir por uma cirurgia, precisa medir as conseqüências da intervenção no cotidiano do paciente. O que questiono é o exagero. A valorização excessiva do holístico. Hoje se elogia muito a medicina chinesa: “Oh, que maravilha! Aqueles monges velhinhos…”. Mas você sabe quanto vivia em média um chinês no início do século 19? Trinta anos! Foram os progressos da medicina ocidental, os antibióticos, as vacinas, que mudaram a história da humanidade. Não adianta discutir.

Você menciona, no livro, o orgulho que os médicos sentem quando conseguem diagnosticar a doença de um paciente. E admite que se trata de uma vaidade um tanto cruel. Você já a identificou em si próprio?
Claro, com freqüência. Quanto mais complicado o quadro, quanto mais divergentes as opiniões sobre o caso, maior o orgulho de acertar o diagnóstico. Parece que uma espécie de júbilo nos inunda. Em determinadas ocasiões, o êxtase se justifi ca, porque existem chances de cura. Em outras… O que você descobre, às vezes, se revela horrível. No entanto, você se envaidece. Lamenta, mas também se orgulha. É uma sensação paradoxal.

E inescapável?
Inescapável. Não acho que seja um desvio. Prefiro encará-la como uma característica inerente à profissão. Uma alegria próxima à do detetive que soluciona um crime. Ele se satisfaz diante do p róprio desempenho. Só que, não raro, o resultado do crime é uma morte.
Você sempre se declarou ateu. Continua se declarando mesmo após a experiência no hospital?
Continuo. Crer ou não em Deus independe de nossa vontade. Não é uma condição passível de se modificar. É uma estrutura de raciocínio. Há quem não tolere a idéia de que as coisas acabam e precise se apoiar no transcendental. Minha cabeça segue por outros caminhos. Não necessito de Deus para explicar a vida na Terra. O darwinismo, a teoria da evolução das espécies, me soa muito mais plausível do que qualquer tese religiosa. E muito mais fascinante! Imaginar que uma molécula primordial se desdobrou até engendrar a biodiversidade imensa que temos hoje… Imaginar que uma samambaia e um elefante possuem um ancestral comum… É maravilhoso! Bem mais poético do que acreditar em um feiticeiro, um ser superior que, de repente, com uma varinha, concebeu os sapos, os homens, os carvalhos. Defender que tudo surgiu de uma única vez, num passe de mágica, destrói a complexidade e a beleza do universo.
Depois de publicar sete livros, incluindo os infantis, você se considera um bom escritor?
Sinceramente, não. Quando me comparo com autores de peso — com os russos, por exemplo, Tolstói, Dostoiévski, Andreiev —, reconheço a distância que me separa deles. Se dedicasse mais tempo à literatura e se lesse mais do que leio, talvez ocupasse outro patamar. Por força da medicina, deixei de mergulhar em romances indispensáveis. Não sobra espaço na agenda! Provavelmente, meu background literário supera o dos médicos em geral (agora mesmo terminei a Ilíada), só que ainda o julgo insatisfatório. De todo modo, procuro escrever com clareza. Meu desafi o é produzir textos simples, mas cheios de significados. Quero que a simplicidade expresse uma riqueza de estilo e não o empobrecimento da linguagem. Creio que, desde meu primeiro livro, Estação Carandiru, melhorei nesse sentido. Sem contar que me tornei um pouco mais ousado. Em Estação Carandiru, tinha pudor de me mostrar. Evitava comentários muito pessoais. Já em O Médico Doente, me permito às digressões, me exponho de verdade. É um avanço, não?

O LIVRO
O Médico Doente, de Drauzio Varella. Companhia das Letras, 129 págs., R$ 31.

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